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Raimundo Bento e a Vela
Publicado por: Mestre Tinga das Gerais
Data: 04/01/2020
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Introdução do Causo: A Vela


Cantado

Dá licença, dá licença
Pa mode eu intrá
No arforge trago o velço
E a prosa no imborná
Quem traiz o sertão na álima
Pruseia im carqué lugá.

Nóis pruseia ô num pruseia?

Sô do mato
Feitio um carrapato
Mais num largo o sertão...

Sô Jiquitibá
Cerne de Aruêra
Pesco na corredêra
E iscondo no capão


Óia Moço!

Sô ave de rapina
Sô mandacaru
Sô o sertão que ins

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Texto

Raimundo do Bento e a Vela

A Vela
                                                                             
 Introdução do Causo: A Vela


Cantado

Dá licença, dá licença
Pa mode eu intrá
No arforge trago o velço
E a prosa no imborná
Quem traiz o sertão na álima
Pruseia im carqué lugá.

Nóis pruseia ô num pruseia?

Sô do mato
Feitio um carrapato
Mais num largo o sertão...

Sô Jiquitibá
Cerne de Aruêra
Pesco na corredêra
E iscondo no capão


Óia Moço!

Sô ave de rapina
Sô mandacaru
Sô o sertão que insina
Ao pensamento nu

Sô nôte inluarada
Sô o canto da cachuêra
Sô o gado na invernada
O gatio da cartuchêra

Sô o arforje e a bainha
Do suó o sale
Da reza a ladainha
E a ponta do punhale

Sô a curva do rio
E os mistéro do sertão
A criação no cio
E o corte do facão

Sô labareda ao vento
E a corredêra a cantá
O incanto da passarada
Sô a noite de luá

Quando a tristeza me amola
Eu pego a viola
E faço uma canção

Sô aranha
Sô a teia
Nada me receia
Alumio ca Candeia
Quando tô na iscuridão

Escuita Seu Moço!

Im minhas andança
Já lidei cum burro brabo
Já tirei lête na onça
E peguei cobra pelo rabo

Já vi coisa dôto mundo
Que inté consome o sono
Vi o Remundo dizeno
Que lidô cum o lubisome

E ele numa prosa astuta
Pidiu uma cachaça e tomô
E eu caladim na iscuita
E ele essa istóra contô:

    A VELA

- A vela alumia o cabôco
Pur entre o distino e sertão
Lá fora a criação
Um arvoroço de dá medo.
A prosa daquela rigião
É que in nôte de lua cheia
Tem uma tar tentação
Que assombra os chiquêro
Fazeno um ribuliço
Que inté o santo pade
Arreune as cumade
Pá mode fazê a oração.

Minha vela é benta
A álima é santa
E eu da minha humirde paioça
Ispio a danada... pelos buraco da porta.
Trago um telço no peitio
Que agarante a minha fé
Meus juêi cai pro terra
E a luz da minha vela
Crareano o terrêro
E seja o que Deus quiser.

Meus cabelo arripia!
Ispeta inté o pensamento.
Inté parece ispin águia.
Mais eu na força do vento
Cramo pelo meu São Bento
Pá mode mandá aquela fera
Lá pras cucuia!

Logo sô atindido
E o pade chega suado!
Cum  sacristão do lado
Cum os zóio feitio um brasêro
Rezei um credo no home
Ele isprudiu feitio um fuguete
Perto do ingazêro.

E o pade cum os zóio arregalado
Num sabia que do seu lado
Tava aquela criatura
Que virava lubisome
E aturmentava a rigião.
Pur isso que ele cumeu
Inté as prenda do leilão
E diz que danado
Tumava o vinho do pade
Pra mode tumá corage
E assustá inté assombração.

Sô um cabôco inraizado
Minha vela tem pudê
E crareia a minha devução.
Já que tudo acarmô
Vô inroscá na Teresa
A chama dela ta acesa
Vô guardá a minha vela
Pá  mode alumiá in ôta ocasião
Se pricisá!

Mais logo vô ponteá a viola
E isperá a Juriti
Cantá no meu nobre sertão!
Aqui é o meu santuáro!
Aqui é o meu pedaço de chão!

Eu teço a prosa
De acordo ca pessoa
A má querença me injoa
E me fere o coração!

Sô Matuto de nascença
Matuto de profissão!

 
Inté meu cumpade...inté!!








Mestre Tinga das Gerais
Enviado por Mestre Tinga das Gerais em 04/01/2020
Código do texto: T6833958
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Sobre o autor
Mestre Tinga das Gerais
Corinto - Minas Gerais - Brasil, 61 anos
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