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A ESTRANHA VIAGEM DE NATAN E ESTER
Publicado por: Richard Foxe
Data: 10/04/2021
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Locutora: Maria Ventania

Copyright © 2021. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

A ESTRANHA VIAGEM DE NATAN E ESTER

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Aquela tarde de domingo, com seu clima ameno de primavera, estava sendo relativamente agradável para os habitantes da cidade polonesa que haviam sofrido o frio, a fome e o medo durante os longos meses de inverno. As crianças arianas brincavam nas ruas sem se deixar impressionar pelo vaivém de veículos militares carregados de soldados em busca dos últimos judeus que ainda se escondiam nos velhos prédios do gueto. Natan e Ester sabiam que o seu esconderijo, um nicho na parede atrás de um armário, não oferecia muita segurança, mas foi tudo o que seus pais, presos no dia anterior, puderam lhe oferecer. Se as duas crianças, com menos de dez anos de idade, tivessem conseguido escapar à rusga, havia a possibilidade de fugir nos bosques e se juntar aos guerrilheiros ou serem adotados por alguma família caridosa.

Mas as esperanças dos dois irmãozinhos fracassaram ao escutar o pesado pisoteio das botas dos militares que entravam no apartamento. Provavelmente, os nazistas, que tinham as listas dos integrantes das famílias hebraicas, sabiam perfeitamente quem estava faltando. Era só uma questão de tempo e eles também teriam sido capturados e levados num lugar medonho, cercado por arame farpado e do qual ninguém conseguia voltar. Era isso que se murmurava no gueto, deixando tudo indefinido por medo de admitir uma realidade que, por ser tão horrível, não podia ser tida come verdadeira.

- Vamos fazer o quê? Perguntou Natan na penumbra do nicho.

Ester aproximou seus lábios ao ouvido do irmão e disse: - Repita comigo essas quatro palavras…

- O que querem dizer - respondeu o menino – nunca as ouvi antes, só conheço Adonai, mas o significado das outras é obscuro.

- Tenha fé, Natan. Elas me foram entregues por vô Solomon, grande estudioso da Cabala, pouco antes que o seu nobre coração deixasse de bater. Elas são transmitidas de geração em geração a poucas pessoas seletas e de alma pura. Agora segure a minha mão e repita comigo: “Heloum Adonai Kuttrin Nifud”.

- Olha, Ester, o nicho está se tornando maior! - exclamou Natan.

- Não, somos nós que estamos nos encolhendo e, quando os SS tiverem ido embora, iremos repetir as palavras sagradas ao contrário até readquirir as nossas dimensões normais.

Enquanto os corpos dos dois irmãos diminuíam rapidamente de tamanho, um soldado conseguiu, com violentas coronhadas, despedaçar o fundo do armário e a luz de sua lanterna iluminou o nicho. Felizmente, as crianças já mediam apenas meio centímetro de altura e passaram despercebidas, mas se deram conta que estavam correndo um perigo ainda pior. Perto delas havia uma aranha cinco ou seis vezes maior do que elas: um monstro horroroso que os fixava com seus oito olhos negros e os palpos abertos.
Ambas gritaram aterrorizadas e Natan suplicou a irmã que pronunciasse a fórmula ao avesso, mas ela sabia que, dessa forma, para escapar de um perigo iriam enfrentar outro também mortal.
A menina segurou novamente a mão tremente de Natan e voltou a pronunciar repetidamente: “Heloum Adonai Kuttrin Nifud”. A cada palavra a aranha se tornava maior, suas pernas ficaram do tamanho de colunas, os pelos grandes como galhos, mas a garota continuava a pronunciar as palavras sem parar até que tudo, ao redor deles, mudou radicalmente.

Em breve se encontraram numa dimensão desconhecida, entre cristais grandes come catedrais e globos dourados flutuando no ar.

- Que lindo! - falou o menino extasiado.

Era um universo espetacular, mas inóspito e Ester, obedecendo à voz que vinha de seu coração, continuou murmurando as palavras misteriosas enquanto os globos se e os cristais se agigantavam até desaparecer completamente. Tudo ficou escuro e apenas uma mancha esverdeada aparecia em grande distância. Entretanto, essa mancha crescia desmedidamente e, em breve, os dois se encontraram num maravilhoso jardim, cheio de grama, de flores lindas e de insetos bonitos e coloridos.

- Nossa – murmurou Natan – chegamos no Jardim do Éden.

O ambiente não apenas era brilhante, mas cada fio de grama, cada pétala, cada joaninha emitia luz própria. Uma bela borboleta se achegou aos meninos e, sem nada dizer, transmitiu uma mensagem intuitiva que os convidava a sentar na garupa. Eles se acomodaram e o inseto os transportou em voo rasante entre folhas, sépalas e vaga-lumes que dançavam no ar emanando não apenas luz colorida, mas também perfumes fragrantes. Quando chegaram numa clareira, desceram de sua cavalgadura e se aproximaram de um lago onde viram outros meninos, de ambos os sexos, brincando, conversando e nadando nas águas tépidas do lago. Algumas crianças ofereceram aos visitantes deliciosos docinhos de chocolate e fatias de pão dos anjos.
Ester e Natan repararam que todos vestiam roupas diferentes, de outras regiões e de outras épocas, como se, durante os séculos, os meninos tivessem pronunciado as palavras mágicas fara escapar de algum perigo iminente.

Natan perguntou: - Vamos ficar nesse canto maravilhoso?

Ester titubeou um pouco e replicou: - Se ficarmos aqui nunca mais iremos rever os nossos pais; não sei se ainda estão vivos, mas é nosso dever tentar encontrá-los. Já passou quase uma hora desde que iniciamos a nossa viagem e agora não deve ter mais ninguém nos procurando. Vamos recitar aquelas palavras ao avesso. - E começou: “Nifud Kuttrin Adonai Heloum”.

Dessa vez a viagem de volta ocorreu com uma velocidade impressionante e, em poucos segundos, se encontraram de novo em seu esconderijo. A aranha havia desaparecido e, mais importante, não tinha vestígio algum dos militares. Todos os móveis tinham sumido e, com cautela, os meninos se aproximaram da janela para averiguar se, por acaso, os nazistas estivessem por perto, mas foram imensamente surpresos vendo que a cidade tinha um aspecto totalmente diferente, com prédios altos e bonitos, pessoas andando tranquilamente pelas ruas e carros que nunca viram antes.
Natan e Ester ainda não sabiam que cada minuto de sua viagem correspondia a um ano do tempo terrestre e que, consequentemente, a sua breve viagem havia durado exatamente sessenta anos.














Richard Foxe
Enviado por Richard Foxe em 07/04/2021
Código do texto: T7226300
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Sobre o autor
Richard Foxe
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Richard Foxe
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