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O CARRO DE BOI
Publicado por: Alelos Esmeraldinus
Data: 23/08/2010
Classificação de conteúdo: seguro
Créditos:
Crônica de JOÃO BOSCO ROLIM ESMERALDO - Série: MEMÓRIAS
Fundo Musical: CASA GRANDE -
Autor: FRANCISCO DEMOUTHIÉ ROLIM ESMERALDO
Vocais; RAQUEL CARNEIRO ROLIM ESMERALDO E ADRIANA C. CATÃO ARAÚJO
Arranjos e playback: JOÃO BOSCO ROLIM ESMERALDO e JAIR FERREIRA SANTOS
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Desculpem a qualidade do Som.
Em breve estarei substituindo por uma gravação melhor.

Copyright © 2010. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.

Texto

CRÔNICA #010 - O CARRO DE BOI

     Uma das fase da vida que mais gosto de relembrar é, sem dúvida, a minha infância, em Missão Nova, distrito de Missão Velha, Ceará, onde nasci. A pureza, a inocência, tesouro irrecuperável quando o perdemos. Quantos sonhos, quantas aventuras. Um mundo de fantasia. Eram os anos 50.
     As brincadeiras infantis, nem sabia, mas, de certo modo,  era um preparo para a vida adulta. Aprendíamos como conviver em sociedade, como ganhar ou vencer e administrar essa sensação, sem se deixar dominar o ego, mas tomando uma lição para a vida. Havia as brincadeiras de criança e as de adulto. Nós nem pensávamos em querer ser um deles. Nosso mundo era bem melhor. Nossos momentos lúdicos nos levavam ser rei, rainha, príncipes ou princesa, nobre ou plebeu. Ora éramos fazendeiros, ora médicos ou outra personagem que quiséssemos ser. Quando os circos se iam, montávamos o nosso. Daí os artistas, os palhaços éramos nós. Tudo era possível naquele mundo faz-de-contas. Brincávamos de correr, pular, saltar, esconde-esconde. Bandeirinha era o meu favorito. Esse jogo a gente brincava com os adultos. Era divertido, porque conseguíamos nos livrar facilmente dos grandes e com isso conquistar a bandeira adversária ou libertar alguém no campo inimigo era moleza.
     Meu avô era um fazendeiro, um agro-pecuarista. Tinha um engenho de cana que funcionava sazonalmente, de junho a novembro (às vezes só até outubro). Nesse período, já no mês de maio, havia a primeira mudança do ano. Meus avós mudavam-se da Casa Grande, para a Casa do Engenho. Era divertido. Depois de pintar toda a casa, as serventes varriam, espanavam e lavavam-na. A lavagem era feita com água e cal, para desinfetar o ambiente, espantar as pulgas ou qualquer outro tipo de inseto. A garotada se divertia tentando ajudar, mas muitas vezes éramos convidados para nos retirarmos, pois estávamos atrapalhando o andamento dos serviços. Chegou a vez da mudança. Lá vinha o Seo Simeão, conduzindo o carro de boi com parte da mudança. O deslocar do carro na estrada de barro vermelho emitia um canto triste, melancólico pelo deslizar do eixo de madeira no meio-mancal de madeira lubrificado com óleo queimado do engenho. Parecia traduzir naquele lamento os sentimentos do nordestino, povo sofrido, mas que nunca se entrega ao desânimo. Esse mesmo gemido do carro de boi, parecia embalá-los num suspiro de esperança que estava nascendo, uma vez que a moagem recomeçaria em poucos dias.
     Ao lado ou logo atrás do carro, seguia aquele aglomerado de homens, mulheres e crianças, cada qual carregando uma mala ou baú, cadeira, ou trouxa de roupas. Cada um queria ajudar os meus avós nessa mudança. Aquilo me divertia muito. Era um momento que eu esperava com certa ansiedade. Eu lera os livros Menino de Engenho, A Bagaceira e Fogo Morto de José Lins do Rego. Gostei bastante dessas leitura, pois me identificava com, praticamente, todas as cenas daquelas histórias, aliás única história, mas descrita através desses volumes.
     A moagem começara. O movimento no engenho era intenso, de segunda a sábado, desde o corte às moendas, era uma alegria só. Gostava de ouvir os cambiteiros entoando em duetos as modinhas sertanejas (forro pé-de-serra) de Luís Gonzaga, Jackson do Pandeiro, Trio Nordestino e outros). Talvez esse tenha sido meu primeiro contato com a música que me induziu a mais tarde comprar um violão e a começar a compor. Mas o meu violão demorou muito a chegar. Certa vez, inspirado após ler uma revista do Pateta Pitagórico, onde ela falava sobre a escala musical pitagórica e tocava uma marimba de garrafas de vidro, fui à despensa de mina avó e peguei 12 litros e garrafas de cachaça e os esvaziei. Afinei-os com água, um volume diferente para cada nota musical e lá estava eu tocando o meu primeiro instrumento musical, tentando tirar no meu 'litrofone' aquelas músicas que os cambiteiros cantavam. Acho que fiz uma boa ação, apesar do prejuízo da cachaça. A façanha do 'litrofone', comoveu o coração do meu Tio Cely que me presenteou com uma gaita (harmônica de boca ou realejo). Aquilo foi demais. Comprei um método de Gaita sem Mestre das Edições de Ouro começando minha iniciação musical dessa forma.
     Um dos espetáculos que jamais esqueço é a queima do palhiço que consiste no ajuntamento das palhas secas dos olhos das canas, com os aceiros de segurança, para evitar que o fogo se alastre para o resto do canavial. Muitos trabalhadores ficavam de plantão ao redor do palhiço, nos aceiros, com galhos de árvores para bater em qualquer foco de fogo fujão. De cima do morro eu assistia tudo porque não me permitiam que eu fosse ver de perto. Mas, dali de cima, era bem melhor e mais seguro. Era um espetáculo pirogênico fascinante. O Nero morreria de inveja. Certamente seria bem melhor e mais divertido do que queimar toda a Roma e jogar a culpa nos Cristão. Ele poderia satisfazer todo o seu instinto de pirofilia, sem culpa.
     Rapadura era o principal produto final da moagem além do mel, caldo de cana e alfinim ou alferes. Mas havia a tiborna que um descarte do cozimento da garapa (calda) da cana de açúcar. Esta tiborna era conduzida ao alambique para fermentação  e posterior destilação de álcool. Quando o álcool terminava, saia em seguida a cachaça e por fim, o caxixi, aguardente de baixísssima qualidade. O álcool e a cachaça eram depositados em tonéis de carvalho para envelhecimento. O caxixi era descartado.
     Após a moagem, dava-se a segunda mudança. Dessa vez, da Casa do Engenho para a Casa Grande. O processo de lavagem e mudança era o mesmo. A euforia e a diversão eram a contagiantes. Nesta casa, meus avós, seus filhos e netos, passávamos do verão ao outono. Como não há essa divisão bem definida no Nordeste, costumamos chamar esse período chuvoso de inverno, mas é, de fato, o nosso verão Brasileiro.
     Meu avô costumava guardar o velho carro de boi no curral durante essa estação. Quando nos faltavam brincadeiras, a gente inventava. Foi numa dessas invenções que eu me dei mal. Era janeiro de 1956. Eu tinha apenas cinco anos. Sou o quinto filho de uma prole de dezesseis. Meu irmão mais velho fez uma impunha para todos nós: tínhamos que caminhar do carro de boi até sua mão (parte constituída de um eixo central semelhante a uma linha de telhado, onde, na ponta, se atrelam a junta de boi em seu jugo). Até eu topei o desafio. Todos ficavam na parte traseira do carro, enquanto o impunhado ia e voltava se equilibrando naquela linha, até a ponta da mão do carro. Eu era pequeno e franzino. Deveria pesar no máximo 30 Kg. La fui eu, equilibrando-me pela linha, de braços abertos, como que ensaiando um vôo, enquanto que todo o peso do restante ficou concentrado na traseira do carro, num gritante desequilíbrio de peso.
     Não deu outra. Zap! A traseira do carro de boi inclinou-se para o chão, enquanto que a mão do carro comigo na ponta foi lançada para o alto. Num impulso, num lance de rapidez, instintivamente agarrei-me na mão do carro e colei nela. Quando a turma caiu no chão, a mão voltou velozmente à sua posição inicial. E eu, grudado na mão, pálido e inerte. Tiraram-me dali, meu coração batendo disparado, feito pistão de motocicleta. Perguntaram-me como eu me sentia. Aí foi que fiquei desesperado. Eu falava, mas não saia som algum de minha boca. Estava sem voz. Fiquei mudo por três dias. Chorava em pensar que poderia ficar sem falar pelo resto de minha vida. Mas, graças a Deus, acordei no quarto dia falando, sem me lembrar do acidente. Mas tarde foi que me dei conta que voltara a falar. Daí saí gritando, falando pelos cotovelos e correndo e saltando por todas as direções. Ninguém entendia porque me sentia daquele jeito. Mas o importante é que eu sabia e isso me bastava
     Passou-se tempo, mas ainda guardo na lembrança, aquele gemido plangente, embalado pela melodia melancólica do carreteiro, Seo Simeão, quando voltava da serra, como carro de boi carregado de lenha para o engenho. Até parecia chorar as mazelas daquela gente sofrida, mas que, ainda assim, sabia tirar lição e provar pra gente que viver valia a pena, apesar dos pesares e ainda encontravam ânimo e inspiração para cantar suas mágoas naqueles sentidos lamentos, mostrando através de suas fraquezas que na verdade são fortes, vencedores e verdadeiros heróis.
Alelos Esmeraldinus
Enviado por Alelos Esmeraldinus em 01/04/2010
Reeditado em 24/02/2011
Código do texto: T2171063
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Alelos Esmeraldinus
Gama - Distrito Federal - Brasil, 95 anos
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