Recolhimento

Recolhimento


          Hoje, o poeta capitula... Ou não!  
 
          A bem da verdade, juro que se houvesse alguém para acolher minha rendição eu me entregaria sem resistência.  Porém, é angustiante demais a constatação de que desistir nunca foi uma opção e jamais o será.

          A vida, às vezes, não é fácil de engolir e o destino, que centrifuga as lembranças e liquidifca as esperanças, continua me servindo esse prato indigesto.  Ele vem cru e sequer há um tempero para disfarçar o sabor nauseante.


          Tudo o que sei – o que toscamente aprendi – já não me socorre.  Leio e releio em busca de alguma inspiração que possa me indicar uma forma de dissolver o impasse:   "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena";  "...morte, angústia de quem vive; solidão, fim de quem ama..."; "E agora José?"; "Vou-me embora pra Pasárgada!"


          Sinto que não há mais reações a esboçar. De repente, fiquei com saudade do tempo em que minhas lágrimas eram salgadas. Hoje, são tão amargas que até chorar já não me serve de consolo.


          O poeta, às vezes, vai embora levando seu sonho e deixa em seu lugar um embuste: este homem que diz que a vida real é o bastante. Só que a realidade não permite excessos e, por isso, jamais será o bastante.  Quero muito! Quero mais!


          Vou-me embora lá para dentro de mim, porque lá... Ah! Lá eu posso sonhar!