Maria João de Deus, Maria de São José de Deus, Maria de São João de Deus. As variações no nome constam em documentos oficiais e em livros:
-para alguns memorialistas e também para a família Xavier, o nome Maria João de Deus era a forma como era conhecida a esposa de João Cândido Xavier e, também, a forma por ela mesma adotada em seu primeiro e único livro psicografado por Chico Xavier, intitulado Cartas de uma morta;
-o nome Maria de São José de Deus aparece em cópia da certidão de nascimento (onde está registrado o nome Francisco de Paula Cândido), lavrada em julho de 1955, assinada pelo próprio escrivão do juízo de paz e oficial do registro civil Levy Teixeira da Costa, em Pedro Leopoldo – Minas Gerais.

-o nome Maria de São João de Deus aparece em cópia da certidão de nascimento (onde está registrado o nome Francisco Cândido Xavier), lavrada em 30 de novembro de 1971, assinada por Iracema Viana em nome do oficial Levy Teixeira da Costa. O mesmo nome aparece na cópia expedida em 23 de julho de 2007 e assinada pelo oficial Dra. Carla Fátima da Silva Lana, em Pedro Leopoldo.


Neste texto usarei os dois nomes constantes, apesar das variações: Maria de Deus.


Maria de Deus nasceu
em Santa Luzia do Rio das Velhas: algumas fontes biográficas e declarações pessoais de alguns parentes de Chico Xavier referem o ano de nascimento em 1881, embora igualmente exista a data de 20 de agosto de 1885. Uma hipótese para a divergência das datas é o registro paroquial de nascimento ter sido em 1881 e o registro em cartório ter sido feito em 1885.


Tanto nas cópias das certidões de 1955, de 1971 e de 2007 consta que Maria de Deus é filha de José da Rocha e Francelina Gomes.

Francelina Gomes era uma escrava ou ex-escrava e não suposta imigrante francesa como registra Harley (2010) Por ser uma escrava ou escrava liberta, a criança nascida recebeu o nome de Maria e teve por sobrenome o nome do santo católico do dia, da devoção ou, talvez, nome do próprio hospital em que nasceu -São João de Deus.

Lamentavelmente, até o momento, não disponho da cópia de certidão de casamento entre João Cândido Xavier e Maria de Deus nem cópia de certidão de óbito de ambos: provavelmente, nos registros originais (se ainda existirem) não deve constar o nome do pai de Maria de Deus.


Até há pouco tempo, tinha-se divulgado que o pai de Maria de Deus era desconhecido: somente num livro mediúnico, psicografado por Carlos Antônio Baccelli, o espírito Inácio Ferreira esclarece o fato.
Ferreira e Baccelli (2006) registram o engravidamento da jovem Francelina pelo filho de um fazendeiro da época; obviamente, por ser país escravocrata (oficial e culturalmente), o pai desse jovem não permitiu qualquer hipótese de casamento nem o reconhecimento da paternidade.


As Irmãs da Piedade, na época dirigentes do Hospital São João de Deus (na cidade mineira de Santa Luzia), ampararam Francelina, as vésperas da parturição, e a conduziram até a referida instituição aonde nasceu a venerável Maria de Deus: após o nascimento da criança e sem pai presente, as próprias freiras deram a Francelina a ocupação de lavadeira.


Costa (2010), afirmando a sua condição escrava, diz que a gravidez de Francelina era de alto risco e o seu senhor entregou-a as freiras do referido hospital.


Por um tempo, em Pedro Leopoldo, e após ter-se casado com João Cândido Xavier, a nobre Maria de Deus levou consigo sua mãe Francelina: as quatro primeiras filhas do casal conheceram a avó materna; não há nenhum registro de que o quinto filho, José Cândido Xavier, tenha conhecido a avó Francelina.


Maria da Conceição Xavier, a sexta filha do casal Xavier, disse não ter conhecido a avó materna; no entanto, dá informações sobre a mesma e comenta: "minhas irmãs sempre contavam que ela ouvia vozes e discutia muito, falando sozinha; brigava com alguém invisível e custava muito a dormir à noite, vigiando nosso sono.[...] Viveu com mamãe até desencarnar." (RANIERI, 1978, p.86)


Traços de personalidade de Maria de Deus foram lembrados tanto por Maria da Conceição Xavier, registrados por Ranieri (1978), quanto pelo próprio Chico Xavier em vários momentos de sua vida terrena:

- mulher bondosa e simples;

- calada;

- fisionomia serena e tranquila;

- católica apostólica romana, ensinava os filhos a rezar e a cumprirem outros deveres religiosos, quais seja, confessionário aos sábados e comunhão aos domingos;

- extremamente dedicada ao cuidado com os filhos;

- companheira incondicional do esposo;

- apreciava fazer crochê;

- acompanhava o aproveitamento dos filhos na escola;

- educadora exemplar dos filhos na fé e no trabalho doméstico.


Pelo depoimento de Maria da Conceição Xavier tem-se a dimensão da autoridade moral de Maria de Deus perante os filhos: "lá em casa todo mundo tinha uma obrigação, que precisava cumprir. Enquanto não cumprisse a tarefa marcada por mamãe, não podia brincar. [...] Nos ensinava mais com exemplos do que com palavras. Pelo olhar com que ela recebia os nossos malfeitos, em silêncio ela exprimia tudo e para nós doía como uma chicotada no coração." (RANIERI, 1978, p.86)


- amiga de todos, era muito procurada em sua casa pela vizinhança para ajuda e conselhos espirituais.


Chico Xavier dá testemunhos supremos do respeito a sua mãe e da sua responsabilidade como educadora dos filhos:

- à "minha mãe Maria João de Deus [...] devo uma abnegação sem limites". (BARBOSA, 1975, p.108)

- "para mim minha mãe tinha sempre a última palavra, era sempre a pessoa da verdade." (XAVIER e EMMANUEL, 1975, p.92)

- "aprendi desde muito cedo a venerar Nosso Senhor Jesus Cristo, na fé que minha mãe me transmitiu, desde os 2 anos de idade." (XAVIER e EMMANUEL, 1984, p.53)


O menino Chico, aos cinco anos de idade, rezava diariamente as orações aprendidas com a mãe: o Pai Nosso, a Ave Maria, a Nossa Senhora Mãe Rainha e Vencedora, o Ato de Contrição, o Salve Rainha e o Credo. (BACCELLI, 2010, p.41)


Nos cinco anos em que conviveu com Maria de Deus ainda encarnada, o menino Chico testifica ter sedimentado sua personalidade na disciplina perante as responsabilidades do amor: sem esta estrutura, demonstrada cotidianamente por sua mãe, talvez o mundo não tivesse conhecido posteriormente o médium Chico Xavier.


Maria de Deus era uma educadora nata: ensinou virtudes ao próprio marido, aos filhos e, desencarnada, foi a instrutora sempre presente de Francisco Cândido Xavier. Nela, há significação vivencial plena de que o lar é um educandário.


Maria de Deus e João Cândido Xavier conheceram-se em ambiente de trabalho: ambos eram operários na Fábrica de Marzagânia, distrito de Sabará; possivelmente mudaram-se para Pedro Leopoldo após o casamento: foram pais de nove filhos, entre eles Chico Xavier.


Se a data de nascimento de Maria de Deus for 1881, e se casou com João Cândido Xavier quando tinha 13 anos de idade, (informações estas dadas por sua filha Maria da Conceição Xavier) a data do casamento foi em 1894; se, ao contrário, seu nascimento foi em 1885, o casamento foi em 1898.


Hipóteses sobre fatos:

-se o nascimento da segunda filha do casal (Maria Luiza Xavier) foi em julho de 1897, a primeira filha (Maria Cândida Xavier) deve ter nascido em 1896 ou 1895. Nesse caso, e apenas considerando o final do século XIX, o casamento deve ter ocorrido em 1894.

-ainda pelas questões da época, o casamento não pode ter ocorrido em 1898 pois em 1897 já haviam nascido duas filhas.

-de acordo com o testemunho de Maria da Conceição Xavier, na época do casamento seus pais trabalhavam na Fábrica de Marzagânia, distrito de Sabará. Convém não esquecer que o estrito município de Pedro Leopoldo nasceu em 1893 com o nome de Cachoeira das Três Moças (primeiro, Fazenda Cachoeira das Três Moças; depois, Fazenda da Cachoeira Grande): essa informação reafirma o fato de que João Cândido Xavier foi um dos primeiros moradores do que se tornaria Pedro Leopoldo (distrito criado em 1901), então Freguesia de Matosinhos (até 1923, quando se torna Distrito de Santa Luzia).

-se Maria de Deus morreu com 34 anos de idade, obviamente o seu nascimento só pode ter ocorrido em 1881 e não em 1885. Se a data de nascimento for 1885, ela faleceu com 30 anos. A idade de 30 anos para o falecimento coloca em dúvida a clareza da memória de Maria da Conceição Xavier que, entrevistada, demonstrou viva e rica memória ao esclarecer fatos nunca antes referidos e íntimos de sua família.


O processo de adoecimento de Maria de Deus até a sua morte desperta curiosidade histórica.


No testemunho da então senhora Maria da Conceição Xavier Pena há a revelação do início do adoecimento de Maria de Deus, até a sua desencarnação.


O testemunho da filha deve ser compreendido no contexto de discriminação e estigma a que era alvo a mulher trabalhadora numa venda-armazém, durante todo o século XIX, no Brasil: saindo de Pedro Leopoldo e morando por seis meses na Lapinha, o senhor João Cândido Xavier amplia sua venda, ao mesmo tempo em que é festeiro do mês de Maria; toda a família saía à noite para a Igreja e a venerável Maria de Deus tomava conta da venda. "Uma noite, foram chamar papai às pressas na Igreja, pois mamãe tinha sido vítima de um grande desgosto por parte de um freguês e estava quase desmaiada. [...] Amigos socorreram mamãe, fecharam a venda, mas o abalo foi tão forte, que no outro dia papai começou arranjando as coisas para voltarmos para Pedro Leopoldo. Desta data para cá, mamãe foi adoecendo devagar; ainda viveu muito tempo, porém sempre doente e tristonha." (RANIERI, 1978, p.87)


Não cabe ressuscitar o mal e levantar hipóteses sobre a sua ocorrência; entretanto, o mal causado foi imenso e penosamente fatal, determinando a mudança da família Xavier de Lapinha e seu retorno a Pedro Leopoldo, o adoecimento vagaroso, a tristeza e o desencarne da venerável Maria de Deus.


Hoje, o fato ocorrido com Maria de Deus talvez estaria catalogado no conceito jurídico de dano moral, desencadeador de um processo lento e doloroso da tristeza moral e do adoecimento, após o fato ocorrido em Lapinha.


Maria de Deus faleceu
em Pedro Leopoldo aos 34 anos de idade, em 29 de setembro de 1915.


Ao prever a morte próxima e diante da ausência física do marido, a mãe resolve entregar às amigas próximas os filhos menores. Na época eram seis filhos menores: Maria de Lurdes Xavier (nasceu em 1902), Carmozina Xavier (nasceu em 1904), José Cândido Xavier (1906-1939), Maria da Conceição Xavier (1907-1980), Francisco de Paula Cândido (Xavier, 1910-2001), Raimundo Cândido Xavier (1913-1942).


Geralda Xavier (nasceu em 1914), apesar de ser a caçula, foi morar com a irmã Maria Cândida Xavier, já casada com Francisco Rodrigues e residente em Belo Horizonte; Maria Luiza Xavier (1897-1985) já estava casada
com Lindolpho José Ferreira em 1915.


Uma das referências sobre a aparência física de Maria de Deus foi a de um quadro mediúnico pictografado por Luiz Antônio Gasparetto: o médium Gasparetto pictografou um retrato de Maria de Deus e o ofereceu a Chico Xavier.


O retrato de Maria de Deus foi pictografado em Uberaba – Minas Gerais, em reunião pública do Grupo Espírita da Prece, realizada em setembro de 1976 e com a presença do próprio Chico Xavier: o espírito assinante da pintura foi o francês Édouard Manet.  (WORM, 1982, p.17)


Em depoimento de Carmelita Pereira da Costa, a dona Bilita e contemporânea de Maria de Deus, diz que a primeira filha do casal (Maria Cândida Xavier) era cópia física da mãe. (HARLEY, 2010, p.54) Eis porque a foto apresentada neste texto é um retrato de Maria Cândida Xavier.


A documentação é fundamental para análises históricas; infelizmente, a grande maioria dos livros escritos sobre Chico Xavier não são livros biográficos. Os seus escritores são memorialistas e não biógrafos, retratando informações e impressões que mais lhes chamaram a atenção e descuidando do registro documental de suas fontes.


Os memorialistas de Chico Xavier ainda teimam em manter informações em segredo, como se somente a eles interessassem a vida de uma personalidade mundialmente pública; muitos desses memorialistas já morreram com os "seus" segredos e muitas documentações foram perdidas, enquanto outras ainda estão trancadas nas gavetas de outros supostos privilegiados de informações que ninguém mais pode saber. Essa ignorância histórica gerou e continua gerando lacunas, informações dúbias e, inclusive, erros e mentiras sobre Chico Xavier e sua numerosa família e descendentes.

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REFERÊNCIAS

BACCELLI, Carlos Antônio. 100 Anos de Chico Xavier. Uberaba: Livaria Espírita Edições Pedro e Paulo. 2010

BARBOSA, Elias. No Mundo de Chico Xavier. 2. ed. Araras: ide. 1975

COSTA, Carlos Alberto B. Natal e a família de Chico Xavier. In: Jornal O Espírita Mineiro.
Nov-Dez : 316. 2010

FERREIRA, Inácio; BACCELLI, Carlos A. Fundação Emmanuel. Uberaba: Pedro e Paulo. 2006.

HARLEY, Jhon. O Vôo da garça: Chico Xavier em Pedro Leopoldo 1910 – 1959. Belo Horizonte: Vinha de Luz. 2010

RANIERI, Rafael Américo. O Prisioneiro de Cristo: fatos da vida de Francisco Cândido Xavier. São Paulo: Lake. 1978

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Entender conversando. 3. ed. Araras: Ide. 1984

XAVIER, Francisco Cândido; EMMANUEL. Entrevistas. 2. ed. Araras: Ide. 1975


WORM, Fernando. A Ponte: diálogos com Chico Xavier. 2. ed. Porto Alegre: edição do autor. 1982

 

 

Carlos Fernandes
Enviado por Carlos Fernandes em 03/07/2011
Código do texto: T3072488
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