Mein lieber Henk

Claro que isto não é propriamente uma biografia. Vou apenas falar do Henk, o meu homem dois ou três em um: melhor amigo, melhor amor e o meu porto de abrigo vitalício.

Sempre que algo me corre mal, eu tenho o Henk para me sossegar. Pensar que ele existe é já meio caminho andado para me trazer de volta "ao aconchego". Acontece que há dois dias e em estreia absoluta, alguém me chamou "gorda". Esclareço que meço 1,70m e peso no máximo 53kg. Ora bem, eu passei a maior parte da minha vida a pesar entre 45 e 50kg e a ouvir graças do género: "estavas bem num laboratório de anatomia como esqueleto". Mas a pessoa que me chamou gorda não me conheceu nessa altura, isto é, nunca me viu mais magra. Preciso de dizer que fiquei triste? Fiquei mesmo, e é aí que entra o Henk. Para ele eu serei sempre como ele me conheceu no Verão de 1984. Para mim ele será sempre também como o conheci nessa altura. Eu posso vir a ser gorda mesmo, como um elefante, que ele nem vai reparar. Ele pode vir a ser pior que o corcunda de Notre Dame. É o meu Henk, quero lá saber do aspecto dele, desde que ele tome banhinho.... Para mim o primeiro ingrediente de beleza chama-se higiene e resolve-se com água e sabão! Bom, mas vamos ao Henk.

O Henk, holandês, foi o primeiro homem muito muito alto que eu vi ao vivo e a cores. E convém esclarecer que eu tenho um fetiche por homens altos. Felizmente há poucos em Portugal, senão eu iria andar permanentemente distraída a observar a paisagem. Foi também com ele que eu pus os meus conhecimentos de alemão à prova. Eu estava ainda na faculdade e o meu domínio de língua alemã era apenas teórico. Acontece que era Agosto e decorria a festinha anual da minha aldeia no interior de Portugal. A visita de um estrangeiro, falando uma língua muito esquisita, levou a que alguém se lembrasse de chamar a filha do Sr Vlladh (rsrsrsrs desculpa paizinho, chamar-te Vlladh, agora que tu já nem estás neste mundo para te defenderes) para ver o que é que ele queria e foi assim que o conheci. Como disse, um homem alto, louro, olhos azuis e com aquele aspecto inequívoco de nórdico. Como se costuma dizer em Portugal, tinha a cara chapada de um holandês. Era extremamente simpático ( e é) e tinha uma mota enorme e potente, o que na altura era um ponto a favor dele. Não sabia falar inglês e por isso mesmo falámos e falamos em Alemão um com o outro. Penso mesmo que é essa conversação ou comunicação muito básica que nos tem mantido unidos durante estes anos todos. As palavras servem para tudo, para unir e desunir, para criar pontes e erguer barreiras e quando o domínio das palavras chega apenas para o básico, ou seja, quando se fala apenas a preto e branco, não há espaço para insinuações e outras coisas eventualmente geradoras de conflitos. Quando ele chega a minha casa, aliás, vou logo buscar o dicionário, e quando ele me aborrece, porque é muito desarrumado, quantas vezes não tem ele de esperar pacientemente, enquanto eu procuro no dicionário uma palavra mais agreste para lhe ralhar.

O Henk foi durante muito tempo o meu único reduto de afectividade. Desde que tenho casa própria, recebo sempre no dia de São Valentim um postal dele. É ele também a minha visita mais habitual. Não estou acostumada a receber ninguém e as visitas, que não podem em caso algum durar mais de três dias, deixam-me em estado de grande agitação. Mas não com ele - tá nem aí - embora tenha de lhe pedir todos os dias que vá passear duas horas, para eu poder respirar. E é assim: ele chega na sua inseparável mota, parte da bagagem dele fica na arrecadação da garagem. A roupa suja vai para casa. Aí chegados, ele despe-se todo na entrada e vai directo para a banheira. Quanto à roupa, vai lavar na máquina a 90 graus. Depois é que nos cumprimentamos. Entretanto, como a roupa dele está toda molhada, ele põe uns calções meus e reclama que lhe ficam muito apertados. Eu digo-lhe que se ele não estivesse tão entusiamado de me ver, os calções lhe serviriam na perfeição. Ele não compreende o que eu estou a dizer e quer que eu lhe explique. Eu tenho um ataque de riso e vou ao dicionário. Quando ele finalmente percebe o significado de "entusiasmo", tenta, sem sucesso, ensinar-me uma palavra qualquer em holandês, creio que seja "entusiasmo" (repare-se na subtileza do meu vocabulário). Quanto a interesses comuns, não temos. Ele gosta de viajar e de fazer tiro ao alvo. Eu gosto de ficar fechada em casa a ler. O que nos une é o que sentimos um pelo outro e saber que passe a água que passar por baixo da ponte, ele é o meu Henk e eu sou a "Barbara Vlladh" dele. E fico por aqui. Resta-me imprimir este texto, fazer um pequeno resumo para que ele o perceba e depois escrever por cima dele, com letras bem grandes: ICH LIEBE DICH.