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O ÚLTIMO REI


Os tiros ressoaram estrepitosos quando o landeau  ainda circulava na Praça do Comércio.Acoitados os assassinos posicionaram-se em locais estratégicos e fizeram fogo sobre a família real atingindo por trás o Rei no pescoço.Cobardemente os criminosos aproximaram-se  com o fito de os matar a todos numa posição indefesa.Os populares desataram a correr em pânico.A Rainha levantou-se, gritando “Infames!Infames!” e empunhando um ramo de flores oferecido por uma rapariguinha à chegada da travessia do barco, tentou atingir o Costa, um dos atacantes que tivera a ousadia de saltar para o estribo da carruagem.Foi num instante.O Princípe herdeiro D.Luis Filipe sacou da arma para proteger a família em perigo mas ficou na mira do fogo e uma bala atingiu-o no rosto.Outra perpassou de raspão o braço do jovem infante D.Manuel e foi Francisco Figueira quem com um golpe de sabre desviou o atirador que visava naquele momento a Rainha.

Num alvoroço, o condutor Bento Caparica com a mão ferida,  a golpes de chicote levou a carruagem para dentro do Arsenal da Marinha onde D.Carlos e D.Luis Filipe chegaram já sem vida.
A rainha Dª Amélia, desvairada, tentou debalde ainda chamar os médicos para acorrerem ao filho inanimado cujo coração parecia ainda bater.
A mãe de D. Carlos, a rainha Dª Maria Pia chegou lívida  e dirigiu-se à nora:
- On a tué mon fils!
- Et le mien aussi! – foi a resposta.

As culpas viraram-se  para o ditador João Franco, o chefe do Governo  que optara por uma   política de braço de ferro contra os oposionistas republicanos.

Com apenas dezoito anos de idade e enquanto tentavam fazer-lhe o curativo do braço ferido, o princípe D. Manuel realizou que seria o próximo rei de Portugal.
Por um instante, viria à sua cabeça a conversa tida havia alguns meses com o irmão morto sobre Mafra.Gostavam ambos de troçar  das gaffes um do outro em matéria protocolar mas tinham sido sempre bons amigos e companheiros e Luis Filipe confidenciara-lhe.
- Sabe, Manuel, que há uns cinco andares abaixo da linha do solo no Convento de Mafra que estão infestados de ratazanas esfomeadas que ameaçam um dia subir e invadirem a vila?
E ele sem saber porquê lembrou-se disso naquela hora e o episódio veio a fazer parte dos seus piores sonhos, a partir daí.

Os jornais de todo o mundo publicaram desenhos a representar o atentado e em muitos avultava a imagem da  Rainha Dª Amélia, de pé, no meio do tiroteio a tentar, impotente,  proteger a família com um frágil ramo de flores.

A imprensa inglesa apelidou o episódio de “Lisbon’s shame” e o rei Eduardo VII amigo pessoal de D.Carlos e D.Luis Filipe comentou furioso: “Matam dois cavaleiros da Ordem da Jarreteira na  rua como cães e lá no país deles, ninguém faz nada?”A honra de Portugal ficaria manchada para sempre com o sangue dos seus reis.

As exéquias foram solenes e as cabeças coroadas de quase toda a Europa acorreram à cerimónia numa Lisboa silenciosa e transida.
O juvenil futuro Rei que via a sua futura carreira na Marinha afastada com brusquidão acompanhou a Mãe e Avó vestidas de luto com grandes  véus negros no cortejo fúnebre do Palácio das Necessidades de onde saíram os corpos do Rei e do Princípe  Real até à Igreja de S.Vicente de Fora.

E o Conselho de Estado convocado por D.Manuel jurado Rei decidiu tentar tudo para unir os portugueses, abrindo espaço à formação de um governo que incluísse personalidades dos partidos Progressista e Regenerador mas o propósito não surtiu efeito e apesar de todos os esforços, dois anos depois eclodiu a Revolução que implantou a República em  Outubro de 1910 com grupos e interesses que a subsidiaram  ocultos na sombra.

A família real  rumou ao exílio numa triste despedida que teve lugar no embarque do iate Amélia ao largo da praia da Ericeira.Incidentes vários acompanharam a sua separação.A velha rainha D.Maria Pia de Saboia e seu filho, o princípe D.Afonso para Itália, Dª Amélia primeiro para Inglaterra, acompanhando o filho e depois para França nos arredores de Paris e o rei D. Manuel II permanecendo e abrigado inicialmente pela família real inglesa.

Para todos os monárquicos ficavam para trás oito séculos de História gloriosa e uma galeria única de Reis e Rainhas que ficariam para sempre na sua  memória.

El rei D.Manuel II, mesmo longe e afastado da sua terra natal, tentou por todos os meios ao seu alcance defender os interesses portugueses na cruel arena internacional.Nessa altura o Império Português não contava apenas com o território continental e as ilhas atlânticas mas  estendia a sua influência a vários continentes.Não descansou nunca, não depôs jamais as poucas  “armas” que detinha, cumpriu o seu dever  sem tréguas através  de  complexos esforços diplomáticos  muitos, bem sucedidos mas incapazes de fazer reverter a História a seu favor, restaurando a monarquia entretanto interditada, como regime alguma vez possível em Portugal, num princípio expresso na própria Constituição.Além disso, a sua união matrimonial com a princesa Augusta Vitória  de Hohenzollern-Sigmaringen não teve descendência, criando uma triste decepção em todos os seus seguidores e abrindo uma brecha irremediável à sucessão dinástica.

D.Manuel compilou importantes documentos históricos de  valor inestimável para o património histórico e cultural da sua distante pátria  amada.
E talvez como castigo para todos os portugueses morreu de súbito aos quarenta e dois anos com um endema da glote.

A nobreza portuguesa perdeu  a  esperança, escondeu os  títulos e  continuou a sua vida, anónima e  perplexa com o rumo que as coisas tomavam no seu pobre  país sem rumo.

A Rainha Dª Amélia quase no fim da vida, foi entrevistada pelo cineasta Leitão de Barros na sua residência em   Château de Bellevue, perto de Versalhes, em França e  pediram-lhe que recordasse o seu passado como a última soberana  que Portugal se poderia orgulhar de ter tido… no trono e na dôr .Também fora convidada a visitar o país  por duas vezes  pelo Presidente do Conselho de Ministros, o amado e odiado, António de Oliveira Salazar.
Com  cepticismo e nostalgia desceu do comboio aos oitenta anos para rever, por uma última vez, a terra em que fora Rainha.Multidões surgiram de todo o lado para olhá-la e lhe renderem uma vénia.Talvez as mesmas que sem um gesto a viram partir, sem honra nem glória, para o exílio décadas antes.Manteve o seu desejo de ser amortalhada com o vestido manchado com o sangue do marido e do filho que conservara desde aquele dia fatídico de 1908.

A Rainha Dª Amélia e o rei D.Manuel II continuaram a mover legiões de admiradores até hoje.

Pela mão da  poetisa Branca de Gonta Colaço, a  Marquesa de Rio Maior com uma precisão cinematográfica (nas palavras da erudita profª Maria Filomena Mónica) deixaria um testemunho valioso do que foram os últimos tempos da Monarquia em Portugal, incluindo o vento que varreu a Monarquia com o regicídio.

No  sonho  de D.Manuel II, as ratazanas de bigodes ensanguentados, escondidas nos subterrâneos inacessíveis do convento foram numa cadência lenta mas contínua saindo do seu  esconderijo, transformando-se em seres ignóbeis e  ocupando lugares de relevo na Administração Pública e nas cadeiras do poder e em toda a sociedade portuguesa.Era um sonho transformado em pesadelo que podia muito bem tornar-se realidade.


 
José Manuel Serradas
Enviado por José Manuel Serradas em 09/06/2019
Código do texto: T6668575
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José Manuel Serradas
Lisboa - Lisboa - Portugal
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