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EU E MEU PAI

               EU E   MEU PAI
         Dizem que quando a pessoa vai desta vida para a outra e é sempre lembrado,  aqui na terra, esta pessoa fica como se estivesse viva vendo tudo, só não pode se comunicar com quem está aqui na terra. Acho que meu pai está e se manterá sempre vivo entre nós por sua maneira de ser, por ter sido um homem de imaginação e de bom caráter, que lia e escrevia sem nunca ter ido a escola.
         Meus pensamentos voam sobre o tempo e como uma espaçonave, volta ao passado, navegando por minha inspiração. Enveredo-me por minha rica e inesquecível infância, trazendo-me a lembrança o sítio Catolé, da casa grande, onde da cumeeira se via a torre da igreja de Itaporanga, distante de 04 kilometros, com sua calçada alta, e, lá vejo a figura de meu pai, sentado e eu deitado em suas pernas observando o horizonte e indagando: pai, aquela serra fica dentro de nossa terra? Respondia-me ele de maneira sucinta, fica. Continuava eu,  pois se o senhor observar o céu está encostando nela.Para encurtar a conversa e deixar-me feliz ele dizia:”qualquer dia eu lhe levo lá e você pega no céu. O meu coração enchia-se de felicidade, então dormia feito um anjo, na expectativa deste dia chegar.Até que um dia uma vaca, ou um bezerro ou um animal qualquer desaparecia, ele então chamava-me e dizia vamos pegar no céu. Eu segurava firme no seu indicado e saíamos, eu em busca do céu e ele em busca de seu animal de estimação. A medida que nos aproximávamos da serra, o céu ia se afastando, ele então dizia: estás vendo que ninguém consegue pegar o céu daqui da terra? Também não me explicava o porquê.
Desta feita foi um gigante e lindo arco-íris que tomou todo o céu e eu com minhas crendices, adquiridas  ao ouvir os mais velhos, que no fim do arco-íris tinha uma botija, um pote cheio de ouro.Lá ia eu na minha santa inocência e em busca de uma resposta de meu pai. Ta vendo o arco-íris pai? Não está lindo?  Ele de forma monossílaba, respondia-me tá.  Eu existente, devíamos ir pegar o pode de ouro? Respondia-me ele: vá dormi qualquer dia a gente vai. E, assim como das outras vezes, quando um animal desaparecia, ele me convidava para ir pegar o tal pote no fim do arco-íris. Nestas minhas andanças com meu pai aprendi muito, segurando o dedo indicador, geralmente da mão esquerda, ele me dizia: “’meu filho observe a natureza que ela tem muito a nos ensinar. Certa feita, numa destas trilhas que chamávamos caminho, de repente um bando de rolinha voam na nossa frente, meu pai  segura forte na minha mão, pedindo silencio e que não nos movêssemos, em fração de segundos  surge a nossa frente uma cascavel com seu chocalho. Ai onde está a sabedoria; toda vez que isto acontecer pode esperar que algo de ruim vem  ai,dizia-me ele.
Mas uma vez aterrizo  minha espaçonave do tempo em uma determinada época da minha infância e vem  minha memória algumas palavras típica e costumeira de um autêntico sertanejo tais como: Amufambado –Fiota  -Capiogado –Fulustreco -Cheio de lero lero –Flôsor -Chove nãomolha –Gurejar –Acabrunhado –Esmulambado -Não tem no cu o que o perequito roa, -Quem não dar prá usar  sela, só usa cangalha –Macumunado -Olho é buraco –Amasiado -Não pense, todo penso é torto -Mãe você só tem uma, mais pai você encontra em toda parte -Procure sempre para a barriga pois para o espinhaço  você encontra em toda parte -Pé que acho
 -Pé de bater banha –Frivioco –Faniquito –Franizim -Vinte e nove e trinta -Nome grande Amansebado.
       Não é que por curiosidade, encontrei o significado de todas estas palavras?
E passei a entender o que meu pai queria dizer quando comigo falava, perguntando ou Maria(mãe) o que este menino tem que ta todo amufambado? (apático),ou para onde ele vai todo fiota(elegante).não sei o que está deixando este  menino capiogando(triste). Meu filho, perguntando a Agostinho (meu irmão)  onde você arranjou este fulustreco(indivíduo insignificante). Maria só dando um jeito nestes meninos .eles só querem viver de flôsor(desocupado,atoa). Este menino amanheceu hoje acabrunhado( abatido, sem ânimo) o que será que aconteceu?   Não quer nem sair de casa, está doente ou é preguiça? Estes meninos eu,Agostinho e Cecílio só vivem macumunados( de coloi, combinados) quando fazíamos besteiras e combinávamos dizer as mesmas respostas. Quantas vezes não ouvi : Oh! Maria este menino está com uma coceira no frivioco (anus), tu não está vendo não? Estou com um  franizim(gastura) que na é mole. Às vezes apanhava na rua e ao chegar em casa ele pegava-me pela orelha e levava até minha mãe dizendo:mãe você só tem uma, essa aqui, mas pai você encontra em toda parte.
Quando eu fazia alguma coisa errada e era questionado dizia eu pensei..Ele logo retrucava: não pense não pois todo penso é torto. Quem não dar para sela usa cangalha.
Ao acordar desta viajem, já adulto , vejo meu pai deitado numa rede com os três jornais (correio.união e o norte) debaixo da rede e quando questionado porque ler os três, ele prontamente respondia:”é a mesma noticia, porém escrita de maneira diferente.Ou então minha mãe a perguntar ele já começou a ler? Não? ZÉ o almoço está na mesa, pois sabia ela, que quando ele começava a ler, nada lhe tiraria a atenção, o tempo para ele não existia.  Termino aqui dizendo, que às vezes é bom recordar, principalmente quando ela nos  trás lembranças boas, que nos proporcionam  felicidades. Lembrar de meu pai só me trás recordações boas, repletas de felicidades.
João Pessoa-PB 22 de março de 2009 Francisco Solange Fonseca.
FSFonseca
Enviado por FSFonseca em 23/03/2020
Código do texto: T6895204
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Sobre o autor
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João Pessoa - Paraíba - Brasil, 73 anos
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