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Lembranças do colégio interno!

Quando tinha por volta de dois anos e sete meses, por algumas circunstâncias da vida fui parar em um colégio interno, foi um período em que as lembranças ficaram gravadas em mim, pois foram tristes demais para uma criança em formação.
Lembro quando minha mãe me internou, junto com meus três irmãos mais velhos no internato Santa Terezinha que ficava na cidade de Mairiporã, aquela primeira experiência longe do carinho e cuidados maternos foram horríveis para nós, ali se rompeu o cordão umbilical, senti uma profunda tristeza, chorava para não ficar, mas não teve outra opção e a internação foi feita.
A vida naquele lugar era difícil, às madres eram rigorosas demais com as crianças, as comidas eram horríveis, no café com leite que mais parecia água de batata o pão era seco, do almoço não me lembro, mas da janta todos os dias era sopa, talvez seja por esse motivo que até os dias de hoje eu não suporto sopa. Quando era servida aquela sopa, eu e meus irmãos separávamos primeiro os bichinhos que vinham juntos no meio da sopa para depois sem outra opção tomarmos aquilo. Como aquela sopa era ruim!
Certa vez meu irmão mais velho nos acordou de madrugada, e nos chamou na sua cama puxou um pão que ele havia guardado há uma semana debaixo do colchão, repartiu entre seus irmãos foi ali que nasceu nele um sentimento de proteção que o acompanhou até o casamento, sempre cuidando dos seus.
Devido às vontades que passei nesse colégio, nasceu uma hérnia umbilical as vontades era de poder comer doces, chupar balas ou simplesmente chupar uma laranja, lembro que uma vez eu estava com muita vontade de chupar laranja e lá no colégio eles não davam, então andando pelo pátio achei um bagaço chupado cheio de areia, a vontade era tanta que desesperado peguei aquele bagaço lavei tirei toda areia e comi com toda vontade que estava.
As vontades eram muitas, uma vez um interno encheu de água um copo colocou algumas balas e ficamos esperando, observando horas às balas derreterem e adoçarem aquela água, e dividimos entre todos os internos, mal dava para molhar os lábios, mas era suficiente para matar aquelas vontades que nós tínhamos, era horrível isso, penso ser esse o motivo que hoje como tantas guloseimas!
Foi um período triste para nós, pois alem das vontades, sofríamos agressões das madres e dos assistentes, com três anos eu fazia xixi na cama em certa ocasião ao acordar depois do almoço todo molhado tomei uma chinelada no rosto da madre com tal violência que inchou meu rosto.
E essas coisas é difícil de esquecer, porque como criança longe da mãe e sem proteção de ninguém sofria varias agressões lembro que uma vez tomei uma surra de um assistente sem motivo algum de mangueira, que me cortou as nádegas e coxas, e precisei ficar deitado debruçado por uma semana na enfermaria .
No dia de sábado os internos recebiam visitas de pessoas que visitavam e apadrinhavam os internos, levando presentes e doces e naquele sábado eu não pude ganhar nada de ninguém, sem poder andar, lembro que meu irmão do meio dividiu comigo alguns doces, e isso me alegrou naquele momento.
De todas as dores a pior era a ausência da figura materna, isso para todos os internos, como passávamos muitas vontades quando minha mãe nos visitava e levava doces, chocolates, e aquele almoço especial era maravilhoso.
Eu e meus irmãos ficávamos lá grudados nela matando a saudades, aquele era o melhor dia para nós, pois sabíamos que quando desse o horário iria embora então aproveitávamos o máximo todos os minutos, em um domingo de páscoa nós tínhamos ganhado vários ovos dos visitantes, e ela foi nos visitar levando alguns ovos, engraçado que ela saiu de lá com mais chocolates do chegou.
Quando chegava a hora que ela tinha de ir embora nós ficávamos grudados na grade do portão, e começávamos a chamar ela para dar um aceno, gritávamos, mas ela nunca olhou para trás e lá ficávamos olhando ela subindo a rua até desaparecer onde acabava a estrada.
A tristeza que se abatia em nós quando ela sumia na estrada era tão grande, que chorávamos muito nessa hora lembro que minha irmã nos consolava, dizendo para não ficarmos tristes sendo que ela sofria a mesma dor daquele momento.
Em certa ocasião eu estava com uma doença, era dia de visitas e estávamos todos juntos com minha mãe, uma mulher mãe de um interno não quis deixar seu filho se aproximar de mim com nojo, minha mãe ficou tão nervosa que só não aconteceu uma briga lá porque elas foram impedidas pelas madres. Imagino como ela sofria com aquilo vendo seus filhos doentes longe dela, e sem poder dar o carinho que precisávamos, a dor que ela sentia naqueles momentos só ela e Deus sabe!
Quando minha mãe conheceu meu padrasto nós estávamos no colégio, e nesse período ele foi um grande homem, ela explicou para ele que tinha quatro filhos internados, e queria seus filhos do seu lado, então montaram a casa e começaram a tirar um de cada vez do internato, primeiro foi a minha irmã.
Passou mais um período e ela foi tirar do internato dois de uma vez, lembro que quando me disseram que ficaria sozinho sem meus dois irmãos chorei muito, não me imaginava longe dos meus irmãos e sozinho naquele lugar, então ela cogitou a idéia de levar eu e o mais velho ai foi o do meio que chorou como nunca.
Meu irmão mais velho novamente mostrando seu lado protetor disse poderia agüentar ficar lá sozinho, disse para minha mãe levar eu e o do meio. E ele ficou sozinho no colégio, mas tarde minha mãe não agüentou e buscou ele também. Graças a Deus tínhamos deixado aquele lugar!
Todos sofremos muito nesse período, minha mãe, eu e meus irmãos, mas agora íamos começar uma nova vida todos juntos como uma família. Sou grato a Deus por ter me guardado e também aos meus irmãos, a minha mãe que tanto sofreu nessa época, trabalhando doze horas por dia, não jantava, pois guardava esse dinheiro para ir nos visitar no colégio e dar um pouco de felicidade parar nós.
Sou grato ao meu padrasto que fez tudo por nós naquela época, mesmo não sendo seus filhos nos assumiu como pai, eu sofria de bronquite crônica e ele que por tantas madrugadas correu comigo pelos hospitais, quando chovia me cobria com seu paletó. Foi um pai obrigado!
Hoje consigo perceber que por mais tristes que foram aqueles sofrimentos, foi as circunstancias que a vida me fez viver esses momentos, minha mãe lutou e conseguiu vencer e ter seus filhos ao seu lado, as lembranças não têm como saírem da memória porque isso aconteceu e sentimos isso, mas sempre vou me lembrar que minha mãe lutou por mim, e eu e meus irmãos éramos companheiros naqueles momentos.
Procuro hoje aprender a amar minha família com toda intensidade, e curtir nossos momentos juntos que infelizmente são poucos.
Agradeço ao meu Criador que nos fez chegar até aqui, não há palavras que eu escreva que possa expressar minha gratidão a Ele que devo minha vida, e todos os cuidados que teve por nós nos momentos mais difíceis que passamos juntos, Ele esteve no controle de todas as coisas!

Fábio Beltrame
Beltrame
Enviado por Beltrame em 15/10/2007
Código do texto: T694726
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Sobre o autor
Beltrame
São Paulo - São Paulo - Brasil, 41 anos
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