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Recorte autobiográfico

Dia 25 de janeiro de 82, iniciou-se a minha produção. O desespero do parto natural, sangue que não era meu e choro coletivo; o tirar-me de dentro, cortar nosso cordão de ligação e entregar-me em seus braços, como um recado "já fizemos nosso trabalho, toma o seu". Nada especial, mas também nada irrelevante. E nem foi assim que comecei, houveram oito meses de história abafada, e deve ter sido boa, porque eu ainda não entendo a minha pressa. Daí até os cinco anos, não recordo de nada; tenho provas e testemunhas de que eu estava lá, porém, a mim mesma, efeito vodka. E me sinto de ressaca até hoje.

Não tem como dizer que tudo foi ruim, é só vontade de dizer que é porquê... sei lá, nesse momento, tem mais coisa ruim do que boa. Mas o dia que despertei foi engraçado, estava sentada no chão, então senti sede e fui pedir; nada de choro, nenhum recado, eu pude me expressar claramente e conscientemente e fiz. Não sabia o quanto sabia, mas eu sabia de algumas coisas, como, por exemplo, pedir água pra saciar aquilo que sentia, sede. Nada tecnico assim, tão pouco filosófico, foi só impulso. Pra mim, parece mágico. Você não sente essa magia no seu despertar? E daí em diante é que 'começa' minha história, pois, quando descobriram que agora eu estava acordada, me entregaram minha guarda. Se eu soubesse disso, tinha ficado desacordada mais um pouco.

Em resumo, lembro do estresse que era estudar, daquela pressão de que só porque eu sabia algumas coisas, eu deveria saver todo o resto que me empurravam. E o mais impreciso é que me faziam fazer muitas coisas e diziam ser pro meu bem, mas pouco se questionavam se eu estava bem, quando eu pudia muito bem dizer gostar ou não. Mas, naquele tempo, parecia ser tabu ser sincera e dizer não gostar das coisas. Porém, passou e saí da fase criança pra adolescente. Nesse período acabou aquela coisa de ser totalmente induzida, mas começou a de fingir ser induzida pra conquistar o que eu queria.

Adolescente deve ser complicado por isso, dizem que ele deve saber o que fazer, se expressar, mas quando estamos crescendo, suprimem isso da gente e só dizem que devemos fazer o que escolheram pro nosso melhor, e nossa recompensa por uma boa performance nessas coisas é ganhar algo que pedimos, como descanso, uma roupa, uma saída ou qualquer outra coisa que realmente queremos. Então, deve ser com base nisso que acabamos atuando quando adolescente e nos enchemos de momentos constrangedores. Mas é bom lembrar quando adultos. Pode nem parecer, mas traz muita gasgalhada.

Acho que meu ápice adolescente foi o primeiro beijo. Eu não sabia que era capaz de arquitetar tanto por causa daquele desejo que eu desconhecia, eu só via aquele garoto e sentia um pequeno calor interno, meus batimentos cardíacos ficavam um pouco mais rápido e eu meio que desligava da conversa com as amigas. Eu olhava pra ele e me encantava com tudo que ele tinha. Que pena que nunca consegui algo com ele, mas meu primeiro beijo foi marcante quase igual. Ainda mais quando meus pais souberam... foi complicado ter que passar um mês tendo minha mãe que me buscar só pra mim realmente fazer o percurso casa escola, escola casa. Ainda bem que adulto cansa rápido das suas decisões, e logo eu estava livre.

Até então, obeder as regras parecia ser a única opção, mas, quando amadureci mais um pouco, começou o que chamaram de fase rebelde. Não era nada de mais, acho que eu só comecei a reparar que muita coisa, mesmo finalizada quase certa, certa ou errada, não parecia sucifiente. Então, eu poderia não fazer o que esperavam e poderia fazer o que eu queria. Havia consequências, sim, claro. Mas sempre havia a chance de consertar as coisas. Perdi as contas de quantos castigos eu levei ou quantas vezes fui forçada a passar as férias longe, na casa dos avós ou numa tia em outra cidade. Apesar de sentir a vontade de liberdade, eu não pudia confiar em todo mundo, então, nesses momentos eu ficava sem "aprontar".

Quando terminei o ensino médio, eu nem sabia direito o que era emprego e o quanto era importante essa coisa de dinheiro; eu sabia que eu aparentava não dar o devido valor e que não nascia em árvore e nem caia do céu. Pra mim, dinheiro era uma espécie de ingresso pra poder viver. Trabalho era só uma coisa que eu ia escolher pra fazer alguma coisa e ganhar esses ingressos. Então ser dona de mim mesmo parecia simples, só bastava eu arranjar um emprego e os ingressos pra minha casa, minhas coisas. Pode até parecer ser surpreendente, mas demorei muito ora entender essa complexidade toda. E nesse processo, eu só me chateava mais. Algumas vezes, parecia que Deus era quem estava me pondo de castigo porque meus pais não conseguiam mais, mas logo eu fui entendendo que era porque eu não estava em fluxo com as coisas. Eu me sentia mais revoltada e triste; eu comecei a me sentir doente. Não era só falhar no processo, mas me sentir uma falha do processo.

Depois de algum tempo, cedi. Aquietei e fui procurar um curso superior. Encontrei uma paixão pelo estudo que eu não tinha quando criança e adolescente, mas, também, encontrei muito mais dificuldades. Não tinha muito aquele lance de me ajudarem e avisarem, ou eu me esforçava ou eu me entregava de corpo ou eu falhava... Por uns dois anos, só o amor pelo curso não bastava, eu tinha um passado e muitas críticas, eu tinha que encontrar uma forma de conquistar um lugar pra me sentir bem. Foi como um milagre, no limite, consegui um estágio com o meu esforço e notas, já quase me entregando pra um atalho nisso. Então eu conseguia um pouco mais de liberdade, não era o suficiente pra me dar uma casa, mas foi o suficiente pra reduzir as cobranças e as críticas, minhas e dos meus pais.

Quando acabei o curso, parecia pronta pra mais, porém, fiquei muito tempo sem conseguir nada. Aquela forma de estar dependente vinha despertanto fantasmas passados. Eu me atormentava com muita coisa, mas, o que mais me dava medo é que meus pais estavam ficando velhos e se eles partissem, eu ficaria desamparada e sujeita. Eu amava meus pais, porém, não dava pra amar eles incondicionalmente e viver sendo cobrada. Mas a culpa, de certa forma, foi minha. Deles também, mas eles são pais e se eu disser isso, sou rebelde. Um ano improvisando reforço, consegui uma bolsa de estudo em mestrado. Então, novamente, me enchi de esperança.

Daí em diante foi mais fácil, por um tempo. Me esforcei e parecia que tinha dado minha alma pra universidade, mas finalizei o curso, consegui um emprego, me mudei e pudia tocar o terror com meus próprios ingressos. Eu tinha que disfarçar ainda, pois, ciclo social é complicado. Eu vive os próximos anos muito bem, muito feliz, até chegar a ser mãe. Você nunca está preparada pra isso quando vem e você não espera. É crime tirar, é crime não aceitar... dizem ser culpa extremamente nossa esse fim. A nossa única alternatica é aceitar. O pai, bem... ele tem mais escolhas, principalmente a de não querer e pagar pra se manter longe. Mas isso é outro ponto. Os nove meses foram terríveis, de certo modo. Eu tentava abraçar a ideia, mas ser constatemente criticada era de muito pesar. E pra quê? Pra quando nascesse, todos passarem a ideia de que queriam adotar. A vida prega peças... Agora eu me encontro nesse serviço de cuidar. Já fazem quase três anos. Como será seu despertar? Como irei reagir? Eu entendo mais meus pais e o que aconteceu. Não concordo com tudo, mas entendo melhor. Saudades deles, muitas! Eles foram sabendo que eu era grata, mas, agora, sou mais grata ainda. Eu não sei bem como ela será, mas vai ser diferente de mim, já começando por ter apenas metade dos pais e sem os avós. Mas com alguém que ao menos imagina tomar cuidado com certos detalhes. Não é fácil, mas também não é impossível. E como ela não me deixa sozinha, eu não a deixarei sozinha.
Clara Nuvens
Enviado por Clara Nuvens em 28/03/2021
Código do texto: T7217797
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Sobre a autora
Clara Nuvens
São Paulo - São Paulo - Brasil, 39 anos
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Clara Nuvens