RAY BRADBURY
O cronista de Marte e da liberdade


   Poucos autores conseguiram dar vida aos sentimentos mais profundos do ser humano sobre a possibilidade da existência de vida em outros planetas quanto Ray Bradbury. Seu livro “Crônicas Marcianas”, de 1950 – publicado quando a corrida espacial ainda nem começara – continuou vivo após o fascínio com o planeta vermelho ter decaído, talvez por conta da sua abordagem profunda dos conflitos e angústias dos seres. E coube a Bradbury compor um dos maiores libelos à liberdade de expressão em nosso tempo, sua obra mais popular “Fahrenheit 451”, de 1953.
   Nem tudo foi fácil para o menino apaixonado por quadrinhos e revistas com histórias espaciais, nascido em 22 de agosto de 1920, na cidadezinha de Waukegan, em Illinois. Ray Douglas Bradbury era filho de um técnico em telefonia e energia e uma imigrante sueca, de classe média. A experiência de sua infância na cidade natal, dos circos de interior e parques que visitavam o lugar, inspirou contos e romances de Bradbury, um escritor capaz de navegar pela ficção científica, o horror e a fantasia.
   Ele lembra, em seu livro “O Zen e a arte da escrita” (1973), que colecionava revistas do herói Buck Rogers. Elas despertavam sua imaginação por outros mundos e viagens espaciais. Depois de ter o seu gosto “estranho” ridicularizado na escola, o menino de nove anos chegou a rasgar as revistas de que tanto gostava, mas sentiu que havia perdido parte de sua essência. “Encontrei a cura: voltar a colecionar, não importa o quê”, disse Bradbury.
   A família mudou-se para Los Angeles, em 1934, e o criativo adolescente começou a chamar atenção nas classes de escrita e teatro, além de ser um frequentador inveterado da biblioteca. As histórias de aventura e ficção científica de escritores como Júlio Verne, L. Frank Baum e Edgar Rice Burroughs (este que, com as histórias sobre Marte, certamente o influenciou) eram as favoritas de Bradbury. Ele se aproximou também da poesia, que passou a produzir regularmente.
   Publicou sua primeira história em 1938 e chegou a editar sua própria revista de fan-fiction, Futuria Fantasia. Em 1941, vendeu a primeira história e iniciou sua trajetória profissional, que durou até seus últimos dias. Bradbury contava que, já casado e com filhas pequenas, precisou usar máquinas de escrever alugadas na biblioteca da Universidade da Califórnia, para escrever “Fahrenheit 451”. O livro que apresenta o “bombeiro” Montag, encarregado de incinerar livros em uma sociedade distópica em que eles são proibidos, tornou-se um clássico e foi adaptado para o cinema por ninguém menos que François Truffaut, em 1966.
   É também de Bradbury o conto “Som do Trovão”, de 1952, publicado na revista Collier´s e, posteriormente, no livro “E de Espaço”, com a melhor alegoria para o chamado efeito borboleta. Os contos sinistros de “O Homem Ilustrado”, publicado entre seus dois clássicos de ficção científica, eram fruto de uma mente sem limites para imaginar. Ray Bradbury atuou também como roteirista e adaptou seus contos para uma série de TV. Recebeu o prêmio Pulitzer de 2007 pela relevância de sua obra e faleceu, em Los Angeles, em 05 de junho de 2012.

(Parte da coletânea ESCRITORES DE SCI-FI, FANTASIA E AFINS, de William Mendonça. Direitos reservados.)