SOBRE A BAIXA TOLERÂNCIA À FRUSTRAÇÃO

(uma breve análise)

 

Recebi , recentemente,  de um amigo, um  e-mail dizendo ter presenciado "algo terrível em sala de aula." Ou seja, um colega seu, "cara supereducado e cortês", teve uma explosão de cólera contra a professora, sem mais nem menos, por causa de uma nota, xingando-a de tudo na frente de todos. E quase a agredira fisicamente. 

Para finalizar, ele diz:
COM TANTO PSICÓLOGO POR AÍ, O CARA ANDAVA EM PAIS DE SANTO!... 

Fazendo um a breve análise do caso, como ele me apresentou, vi que tratou-se de um caso onde há uma espécie de surto por explosão contida de ódio. Sabe uma panela de pressão que não tem válvula de escape funcionando? E não tem por onde sair o vapor? Explode!

 

O sistema psi do ser humano funciona assim também. Se ele reprime demais suas emoções e não as elabora como deveria, ele vai ser feito uma panela de pressão, vai explodir numa hora dessas como um vulcão e  vai destruir tudo em sua volta.

 

Se ele era um cara aparentemente calmo (daquele tipo que não modifica o tom de voz, cordato, não discute, e parece aceitar tudo muito bem), e tranqüilo, deveria estar acumulando ódios e frustrações internas , sem demonstrar. A nota foi a gota d'água do copo,  e foi o que detonou a explosão. Sobrou pra a pobre professora, o agente mor da gota d’água que faltava no seu mar interno de ódio e frustrações.

 

Ao mesmo tempo trata-se de uma pessoa que não sabe lidar com frustrações. Pessoas assim, tiram a máscara nestes momentos.

Mas, pela força da reação violenta, ele poderia também ter um componente de esquizofrenia paranóide.  Já vi casos de explosão de fúria paranoide em Hospitais psiquiátricos e vi uma colega minha, psicóloga, ser atacada sem dó, sendo salva depois por enfermeiros. Tivemos que levá-la ao pronto-socorro depois). Mas, não sabendo direito o caso, avento esta possibilidade apenas como uma hipótese.  

Infelizmente, muitos recorrem a “pais de santos” ou a certas religiões, achando que seu mal  SÃO OS OUTROS (até os espíritos), E NUNCA ELE MESMO! Seus narcisismos não deixam eles reconhecerem que estão com dificuldade para enfrentar a vida, que não têm condições psicológicas. Acham humilhante ter que buscar ajuda de profissionais sérios, por resistência ou defesas. Têm medo e vão procurar esses lugares e pessoas que confirmam aquilo que eles querem ouvir : O MAL VEM DE FORA E NÃO DE DENTRO DELES MESMOS.  E aí se tornam mais paranóicos ainda, pois têm um mundo enorme para combater e se proteger.

 

Disse meu amigo, que seu colega tem "um jeito homossexual", mas parece reprimido. Poderia ser mais uma hipótese. O homossexual quando não se assume, torna-se costumazmente agressivo contra as mulheres e paranóico.

 

Nunca tive alguém surtando assim violentamente em minha clínica particular. Só muita agressividade que eu costumo encarar dando mais limites ainda e sendo muito firme, e quando sinto que não vou conseguir que essa pessoa tenha um mínimo de condições de reflexão e pensamento, não trato, encaminho pra outra pessoa. Mas, nos hospitais psiquiátricos que trabalhei, e mesmo no dia-a-dia, nas relações sociais, já vi muito disso. Porém, nem sempre trata-se se surto esquizofrênico, as vezes, é um "surto neurótico" , um momento de descontrole e fúria, que todos nós estamos passíveis de ter , caso não tenhamos conhecimento e controle de nossas próprias emoções e sentimentos.

 

Porém, esse descontrole de uma pessoa, pode muitas vezes ser contornado com uma compreensão psiólógica ou atitude de compreensão e carinho de quem esteja por perto.  Contarei um caso que parece exemplificar o que estou falando, embora vá parecer engraçado. 


Há algum tempo atrás, trabalhei num Hospital Psiquiátrico, e teve uma vez que eu cheguei a um pavilhão e sentei no corredor pra descansar minha perna que estava engessada por causa de uma luxação no tornozelo. Imediatamente, uma interna (paciente) muito carente, sentou perto de mim e pediu pra segurar minha mão. Deixei, porque aquilo lá faz parte da relação terapeuta-paciente em Hospitais PSIQUIÁTRICOS. Eles pedem muita atenção e carinho, por serem pessoas basicamente carentes destas coisas. De repente, uns enfermeiros e enfermeiras passaram correndo pelo corredor gritando: "Fujam todos, uma interna perigosa está tendo um ataque de fúria e ela é muito forte. NÃO ESTAMOS CONSEGUINDO CONTROLÁ-LA! "

 

Cruzes! E eu que não conseguia nem andar direito? Comecei a rezar e dizer pra mim mesma: Marisa aja como com os animais selvagens. Não a encare nos olhos e mantenha-se numa postura passiva. E seja o que Deus quiser! Escutei-a  vindo urrando e correndo em minha direção. Quando menos me dei conta estávamos, eu e ela, de frente nos encarando. Eu, pela minha paralisia do medo não conseguia parar de olhá-la nos olhos.

 

E ela me olhava fixamente, bufando de raiva. Era uma negra alta, forte e meio gorda. O impasse durou eternos segundos. E daí ela me perguntou:

_ "Mãe, você tá doente?"

Pensei rápido e respondi: 

_"Tou sim, FILHA!"

_Quem machucou tua perna, mãe?

_ Eu tropecei e caí, FILHA!

_ Tá doendo, mãe?

_ Só um pouquinho, FILHA. E você, tá sentindo alguma dor? tava gritando...

_Mãe, dói tanto... posso sentar um pouquinho perto de você?

Mesmo com medo, respondi:

_ Claro filha, senta que vou te dar carinho.

Ela trazia uma caneca de alumínio na mão e a outra interna que só então percebi que ainda estava de mãos dadas comigo, falou:

_ Essa caneca é minha, sua filha da puta! Me devolve!

A outra que já estava se acalmando gritou novamente:

_Mãe, eu vou quebrar a cara dessa louca nojenta!

Tentei pensar num meio de acalmar as duas e não levar uma surra no meio da briga. Daí disse:

_ MINHAS FILHAS, NÃO BRIGUEM! MAMÃE FICA TRISTE! SENTEM AMBAS AQUI QUE VOU DAR CARINHO PRAS DUAS.

 

Sentaram-se ambas, cada uma de uma lado, e a negrona pediu que eu lhe fizesse cafuné. SEU CABELO, ALÉM DE SER UM NINHO DE PIOLHOS, TAMBÉM ERA UM VERDADEIRO BOMBRIL E EU TIVE QUE DAR UM JEITO DE NÃO FRUSTRÁ-LA. Pensei, pegar piolhos é melhor que levar porrada!

 

Só que a outra começou a ficar com ciúmes e exigia que eu também lhe desse atenção e quando achava que era pouco, passava a insultar a outra, chamando-lhe de “negra ladra de caneca” ao que a outra respondia com a ameaça de “vou lhe quebrar a cara!”.  E eu no meio do fogo cruzado e pedindo a Deus pra me manter sob controle.

 

Chamava atenção delas como se fossem minhas duas filhas e não parava o cafuné, nas duas, pois era o que lhes acalmavam.

Finalmente, depois de uma meia hora, mais ou menos, os enfermeiros voltaram com reforço para imobilizarem a paciente surtada e furiosa. Só que ela já estava calma e fiquei tensa, pois sabia que se ela os vissem, teria outro ataque, e eles são também muito violentos nessas ocasiões.

 

Sofri muito naquele momento, como psicóloga e como ser humano. Duas esquizofrênicas, totalmente sós e carentes naquele mundo hostil de hospital psiquiátrico. Tentei fazer sinal pra eles que não precisavam imobilizá-la e nem dopá-la, mas eles não quiseram saber. Seguiram a praxe deles e, de surpresa,  arrancaram-na de mim, imobilizaram e lhe deram a famosa dose "sossega leão" .

 

Fiquei arrasada e depois de pouco tempo, pedi pra sair daquele hospital desumano.  Tipo inferno de Dante, sabe? Infelizmente são poucos os Hospitais Psiquiátricos no Brasil, que têm uma forma humana e eficaz de tratamento para esses pacientes. A esquizofrenia e as psicoses em geral, se forem bem tratadas, no início de sua evolução, com terapias adequadas, inserem o sujeito novamente no convívio social, de trabalho e familiar. Mas se for tratado apenas à base de drogas para dopar, ele se cronifica e vira um alienado humano.

 

Agora, existem também, esses casos como os descrito por meu amigo, de alguém, aparentemente, calmo e educado, explodir diante de uma pequena frustração. Digo o seguinte, o bom equilíbrio emocional é fundamental para se conviver na sociedade e entre os grupos e a família. E uma pessoa como este rapaz, que teve essa reação, tão violenta diante de uma pequena frustração, melhor faria em se conscientizar que o problema está dentro dele mesmo e não nos outros (até mesmo nos espíritos!).  Todos temos que saber conviver com nossas frustrações e não sair destruindo os outros só porque não conseguimos nos satisfazer em tudo o que queremos.


Marisa Queiroz