a minha Mãe

Costumava vestir uns vestidinhos de folhos, bastante coloridos. Laços no cabelo e quando andava sem eles um chapéu de palha com uma fita branca, perfeitamente colocada. A sua figura agradava a toda a família.

Era amada.

Não era uma pessoa rica em conhecimentos, nem extraordinária nas palavras. Era modesta e dividia a sua paz exterior com as pessoas que amava. Tinha a mania de ficar quieta no canto da sala, com o olhar perdido no tempo, braços cruzados, mordendo os lábios. Por dentro parecia arder, mas por fora não se via nada, respirava muito depressa e ás vezes um pouco ofegante. No seu interior desenrolava-se um mundo de alegria, com muita luz e fantasia onde costumava correr pelos campos verdes, saltar e cantar músicas antigas. Sentia-se a emoção no rosto e faces rosadas.

Chorava muitas vezes. Sem se saber o porquê.

No outro mundo não existiam lágrimas, levava uma vida fácil. Reconfortava-a.

Consolava, tinha imenso amor e compreensão para dar. Muitos conselhos. Muitas vezes tinha que julgar, como quem está num tribunal perante um grande júri. Julgar o que tinham feito ou o que queriam fazer. Era obrigada a discutir e fazer a argumentação final.

Ser mãe para ela na realidade era muito complicado. Não gostava deste papel.

O mundo escondido era um novo filtro para uma vida sem mágoa, sem responsabilidades. Se fosse surpreendida naquele estado, ficava com as faces fechadas de vergonha e de surpresa por não ter dado pelo estado atónito. Por isso costumava ficar atenta ao mínimo dos barulhos, apesar de parecer muitas vezes o tronco de uma árvore, imóvel. Para ter a certeza de não ser apanhada em transe. Mas mantinha na sua consciência que nunca ninguém a tinha surpreendido. Foram muitas as vezes que a encontrei assim, mas tinha receio de a acordar, de despertá-la do seu mundinho. Da sua liberdade. Costumava guardar para si todos os seus pensamentos. Só se pronunciava quando lhe dirigiam a palavra. Não falava por falar, reservava-se ao silêncio.

No seu mundo, andava sempre sozinha, passeava por ao longo de rios. Deitava-se na relva por debaixo de uma árvore e ficava a admirar o céu, construindo sonhos nas nuvens. Ás vezes até voava, bem no alto, como uma águia. Chamava as estrelas e ficava a ouvir o tiritar de cada uma.

Passava os dias em segredo.

Ao jantar, quando a família estava toda reunida, recuperava, permanecia calma, mas os seus olhos permaneciam adormecidos. Havia sempre alguma coisa ou alguém que a acordava, um toque nos ombros, o latir do cão quando alguém tocava na campainha. Os grandes olhos da mãe ficavam húmidos, e soltava-se uma lágrima.

Isabel Fontes
Enviado por Isabel Fontes em 16/07/2008
Código do texto: T1082438
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