Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

Os Manuscritos de Mathias Albuquerque ( Fragmentos )

Que estranho sentimento é o amor para mim! Se ele existe como eu o vejo e ouço, então nunca o senti. Nunca amei. Sequer a mim mesmo. A considerar o desprezo que sinto por tudo que me diz respeito, o amor foi uma coisa que não cultivei. O amor que eu aprendi é aquele que lanha e nos entrega a um jogo sado-masoquista ridículo. Mas, ao não sabê-lo, eu descobri a dimensão talvez de um outro: o amor que sobra, que excede a ponto de poder ser compartilhado. Mas também esse amor eu nunca tivera.
 Foi quando eu percebi, então, a dimensão da maternidade. Só as mães são capazes de amar verdadeiramente e, por isso, sofrem duas vezes. O que dói num filho reverbera na alma materna e lhe arranca gemidos de uma dor ainda mais funda: a de querer se dar em holocausto; de ser ela a que se destina ao patíbulo de onde o carrasco  espreita indiferente.
O amor de mãe, o mais fundo e preciso, só se revela na dor. E é monolítico e tácito. Amor que não espirra nem resvala. Amor que não se constrói porque é antecipação e, por isso mesmo, resiste à corrosão do tempo. É tão certo como a realidade da morte. Definitivo.
 O amor entre pessoas é frouxo porque nele os desejos imbricam. É uma colisão de paixões e, por isso, trágico. O que não quer dizer nem mau nem bom, mas corte, cisão, fissura. Quando amamos, abrimos feridas que se alastram como a peste. Quando amamos, somos sintomáticos.
 Originário do Desejo, ele não encontra complemento em nenhum objeto. Ele se adequa ou busca, o que é diferente. O amor é incongruente: ancho em leito estreito e raso em poço fundo. É sempre marcado por uma falta que não conseguimos preencher. A poltrona vazia do cinema que não pode ser ocupada porque tem gente, ainda que ausente momentaneamente. O amor é como deus: temos que fazê-lo existir. Numa palavra: necessidade. A roda veio pela necessidade da roda. E o amor, veio da necessidade de quê? Se nenhuma, ele não existe.
 Só existe o amor que chora o cordão perdido. Só as mães o sabem desde o princípio. Um saber feito de impressões, presságios, apertos.
Aldo Guerra
Enviado por Aldo Guerra em 06/06/2009
Código do texto: T1635616

Comentários

Sobre o autor
Aldo Guerra
Rio das Ostras - Rio de Janeiro - Brasil, 63 anos
296 textos (27901 leituras)
3 áudios (571 audições)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 30/09/20 17:05)
Aldo Guerra