CARTA A ALIOMAR FONTINNI

 

                                          ......................., março 1997

 

Caro amigo,

 

 

Sua partida suscitou-me adormecidos sentimentos.  O pouco tempo que aqui estiveste serviu-nos a relembrar grandes feitos em nossa juventude. Malgrado foram aqueles anos sessenta, serviram-nos, no entanto, ao exercício de uma vida de liberdade, alegria e contestação.

Quanto à sua carta, recebi-a recente. Entristece-me aqui dizer-te que tinhas razão quanto a teu irmão. Contatei-o via de uma dessas redes sociais. Trabalha em certa Universidade Federal e, pela foto, guarda fielmente sua aparência quando jovem. O silêncio, porém, disse tudo por ele. Não há mais o que falar; pelo visto, resolveu pôr de vez uma pedra sobre o passado.

Com o Sérgio, deu-se o mesmo: após tantos e tantos anos, reconheci-o também através de seu site pessoal, sacou?  Site pessoal!  Lá exposta, fotografia de época denuncia-o trinta anos atrás: o mesmo corpo franzino e enérgico, desafiador dos patrões, traz ainda os velhos óculos pesados, aros de tartaruga, a lhe debilitar o aspecto. Sim, era ele, o Sérgio, mas, ele próprio confirmou-me pelo correio não ser o nosso amigo. Jurou, este, de pés juntos, ter nascido em certo país limítrofe e inclusive torcer por  conhecido time de lá.  Veja o que é a vida. Paciência.

Infelizmente certas pessoas caminham, sobem a um patamar de grandeza e perdem o senso da gratidão.  Outras vivem entranhadas com as sombras do passado, fantasmas ainda vivos a amedrontá-las em suas memórias, quando não, marcadas profundamente pela desconfiança de tudo e de todos. Assim reagem certos homens, bem conheces a natureza humana. Há de se considerar, por outro lado, que num país onde se contempla melhor o futuro do que prever como ficará o próprio passado é fácil deduzir e respeitar as apreensões delas.

Quando me perguntas pelos demais posso dizer-te que a mim também eles tem reaparecido na lembrança, e por essas razões bem conhecidas não posso condená-los pelo silêncio.  Todavia, vi, nos últimos anos, o Joca, o Maxwel e o Nilo que te recomendaram fortes abraços e votos de saúde. Estão todos bem e conservados.

Com a costumeira saudação, sou.

 

                                                         B.Granda.

 

Texto de mera ficção, juntamente aos nomes citados.