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Pedido de ajuda

Olá! Será que agora vai me ouvir?
Escrevo-te porque há tempos não nos comunicamos e agora, desesperançada, quero deixar registrada a minha tentativa de contato. Não quero que digam depois que não tentei. Acho que um registro formal é necessário, afinal, são muitos os pedidos... .
Passaram-se dezesseis anos desde nossa última conversa, lembra-se? Eu estava grávida na época..., havia vida em mim. Falávamos quase todos os dias, eu vivia um período de muita felicidade: a descoberta do amor, da troca, a ausência do medo, os sonhos, objetivos a cumprir, a juventude. Tudo parecia colorido, eterno, real... .
E foi pensando no eterno que decidi não ter aquele filho porque, afinal, teria outros quando me formasse...
E foi pensando no real que mais uma vez deixei para os outros semestres a minha faculdade, afinal, a realidade àquela época era trabalhar e me firmar profissionalmente...
E foi pensando no colorido da vida que esperei que ele voltasse e que no final ficaríamos juntos porque nos amávamos...
E foi assim que cheguei a hoje. Sem filhos e com a concreta possibilidade de não tê-los nunca mais nem com ele ou com qualquer outro...
E foi assim que mudei o curso da minha vida quando escolhi mudar de faculdade para chegar mais rápido a lugar algum...
E foi assim que cá estou mais triste do que nunca, mais perdida do que sempre, abandonada de novo, deixada como felicidade para ser vivida na próxima existência..., pois  nem o Acaso opta por mim, só a Solidão.
E foi assim que cheguei novamente a você que agora parece tão distante de mim que não creio sequer que essa carta chegue antes do final de minha existência na terra...
Não é que não acredite em você, é que tudo me leva a crer que os meus sonhos, ficaram no final da sua lista de prioridades...
Não achava que fosse fazer tudo, não, já que sempre acreditei no livre-arbítrio, apenas fui condicionada a crer em seres etéreos, anjos, sabe como é?!
Uma primavera dos quarenta, sem filhos, sem amante (já que homem livre nessa fase só gay e mesmo assim estão todos comprometidos) sem casa de praia, sem conhecer nem o meu estado nem o mundo, no meu primeiro e único carro (salário de professora), devo te dizer que mais do que sempre os meus desejos se tornaram necessidades urgentes, quase que um grito de socorro, último suspiro de um náufrago há vários dias no mar...
Minha juventude se foi e com ela a minha alta resistência ao abatimento.
Minha prática religiosa me deixou quando se perdeu da minha fé de que as coisas se ajustariam.
Até a minha intolerância à palavra RESIGNAÇÃO foi vencida pela dor do excesso de otimismo.
Parece que estamos à beira do abismo e você como sempre tem casos mais graves a resolver. Sobraram eu e o meu medo de altura. A sensação cada vez mais tentadora que a dor da queda é breve e única frente à angustia do dia-a-dia.
Desculpe se não fui boa o suficiente para merecer o nome de sua Filha...
E se eu, um dia, fui mesmo sua Filha, então cumpri bem a minha missão.
Adeus, PAI.


Arsenia Rodrigues
Enviado por Arsenia Rodrigues em 04/02/2007
Reeditado em 26/06/2008
Código do texto: T368875
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Arsenia Rodrigues
Salvador - Bahia - Brasil
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Arsenia Rodrigues