CARTAS
 
Hoje, acordei cansada. Parece que não dormi. Porém sonhei muito. Tenho certeza. Umas confusões estão me incomodando. Procuro algo para justificar. Cansada de que, por quê? Já nem faço nada. Perambulo, sento, levanto, como, leio, escuto música. No jardim é que me distraio mais. Tantas destas flores eu é que plantei. Lembras?
- Para com isto Adelaide. Já temos flores demais. Vai chegar uma hora que não poderás cuidar.
Mas insistia. Cada nova que era descoberta, tratava de plantar. Nosso jardim ficou um pequeno paraíso. E o perfume? Sentes?
Desculpa.  Olha! A camélia  vermelha trouxemos da vista à casa do teu irmão Márcio. Está repleta de flores. Todos os anos, em julho, fica assim. Quando começam a cair, fazem um tapete no chão. A branca foi a muda que me deste de aniversário. Parecem flocos de coco.
Preciso entrar. O sol se escondeu e o vento gelado endurece mais meus dedos. Já nem consigo escrever direito. Viu? A caneta rolou para o gramado. Juntar é sacrifício. Quando me abaixo assim, sinto desconforto. Não. Não estou me queixando. É somente uma maneira de falar. Se não digo isto para ti, para quem vou contar?
Sei, sei. Já disse que não vou me queixar. Não fica triste.
Agora, vou fazer um café. Enquanto a água ferve, continuamos nossa conversa. Não me lembro se gostas de muito ou pouco açúcar. Como pude me esquecer? Foram sessenta e cinco anos te servindo. Assim está bom? Tenho um bolo que o Eduardo trouxe, ontem.
Não te lembras? Veio sim. Rápido, mas veio. Sim, sozinho. As crianças cresceram. Cada um tem compromisso. A última vez que reunimos todos foi no teu fun...
Não. Não quero me lembrar. Parece que foi ontem. É. Cinco anos. Devias ter me levado contigo. Dizia que quando morresses não duraria muito. Pois é. Ainda ando por aqui. Nem posso dizer que vivo, somente ando. A cada passo, fico mais próxima. Não vejo a hora de te encontrar.
O café estava bom? O meu ficou frio. Esqueci-me, tagarelando.
Na festa de bodas de ouro, achei que morreria de felicidade. Mas dancei a noite toda. Não é verdade, seu ciumento. Foi somente uma dança com o Paulo. Não, ainda não morreu. Fica quieto. Nunca mais me encontrei com ele. Verdade. Alguma vez te menti?
Vou fechar a porta. Ficou escuro. E nem terminei a carta. Não seja curioso. Claro que vou te entregar. Para quem mais escreveria?
Amanhã, bem cedo, levo. Já tem um monte em cima do teu túmulo. Acho que vou parar. De que adianta, se encontro todas fechadas. Poderias, pelo menos, ler alguma.




 
MADAGLOR DE OLIVEIRA
Enviado por MADAGLOR DE OLIVEIRA em 17/07/2013
Reeditado em 18/07/2013
Código do texto: T4391942
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