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Cinco amigos que jamais esquecerei


Hoje acordei com uma saudade imensa de vocês, sei que poucos terão conhecimento dessa pequena homenagem que far-lhes-ei, mas saibam que és com muito carinho que escreverei essas mal traçadas linhas.
Iniciarei com o Niltinho que tive pouco tempo de contato na Acesita, mas que em compensação tive a oportunidade de conhecê-lo melhor na Viação Águia Branca. Nessa época ele trabalhava como trocador nos coletivos, sendo que eu era o responsável por receber o movimento diário financeiro dos trocadores. Ah Niltinho meu chegado, como no início tu me destes muita dor de cabeça para contagem dos seus acertos. Seus movimentos era simplesmente um caos, quanta desordem! O desgaste foi tanto que apelidamos você de Taruíra.  Todavia o tempo foi passando e pacientemente a gente ia tirando as suas dificuldades e no final destacou de forma tal, sendo considerado um dos melhores trocadores que a empresa já teve. Infelizmente nossa relação foi rompida de forma tão trágica naquela fatídica manhã do dia 27 de novembro de 1997.
Ah Gino querido, preta era a sua cor, mas branca era sua alma e o seu coração. Creio que dificilmente eu tenha conhecido alguém que mesmo tendo quase quatro décadas de existência, era tão puro, humilde e tão infante. Como eu me divertia, quando adentrando pela porta do forno panela surgias tu. Oh meu amigo, muito obrigado pelos belos momentos que você me proporcionou com risos, piadas e muita descontração. As horas ali no trabalho se tornavam doces com a sua presença. Ah como foi difícil mano, depois daquela explosão, encontrar o seu corpo carbonizado ali jogado, falecido no chão. O que mais me deixou triste, foi imaginar sua agonia, colocando a mão sobre seu rosto, em busca de proteção. Não sei onde deva estar nesse momento, mas pela pessoa boníssima que eras, imagino que esteja num local de muita luz e muita paz, saiba meu amado amigo que sempre estarás guardado no meu coração.
Ah meu querido Magno, de todos era o mais controlado, tinha um belo sítio, além da sua casa, e era um dos poucos que arriscava emprestar dinheiro no trabalho, mas diferentemente da minha pessoa, ele era bem sucedido nos seus empréstimos, ao passo que das poucas vezes que emprestei, raramente logrei êxito, imagino que as pessoas me veem com cara de Papai Noel. Se não me falha a memória, na época desse temível acidente, a sua esposa estava esperando um filho. Era ele que vez ou outra quando coincidia me dava carona, pois morávamos na mesma cidade. Ele tinha um Escort, nessa época eu não tinha carro, e nós dois cogitávamos uma futura negociação no seu carro, pois ele pensava em trocá-lo. Eu e o Magno éramos os mestres da nossa letra, ele operava o conversor LD e eu operava o Forno Panela. Momentos antes da explosão eu estava no local acertando o fluxo de produção, e para meu espanto logo após ter entrado na cabine do Forno Panela, um estrondo acompanhado de uma língua de fogo passou em frente ao forno, não sabia eu que seria esse o triste dia em que eu haveria de perder três amigos num mesmo dia. Que Deus o tenha num belo lugar.
Passados dezenove dias, ainda bem latente as lembranças da explosão que tinha ceifado meu trio de amigos, agora seria a vez de mais um acidente que ficaria marcado em minha mente. Diferentemente do primeiro onde eu me encontrava no trabalho, no dia desse acidente eu estaria de folga, mas fatalmente iríamos perder mais dois amigos. O VOD equipamento usado para os refinos dos aços GNO e INOX estava parado para limpeza e manutenção.
Welington, de todos era o que eu menos tinha contato, mas não deixava de ser uma boa pessoa. Ele tinha recentemente parado de congregar na Assembleia de Deus e por causa disso o pessoal da área ficava sempre zuando o nosso amigo, falando que ele estava desviado, que se ele não voltasse para a igreja, iria se perverter pois o mesmo estava tornando um verdadeiro garanhão. Ocasionalmente sempre achava um para pegar no pé do nosso amigo. Nesse triste dia ele iria fazer uma operação de rotina, que aparentemente não tinha nenhum risco, a limpeza do vaso do VOD, local onde posicionava a panela de aço para seu refino. Uma simples distração iria causar todo esse transtorno. O acontecido era o seguinte: O argônio é um gás neutro, sendo usado para borbulhar o aço e consequentemente eliminação dos gazes nocivos e impurezas. Como nesse belo dia, não era apenas o pessoal da operação que estava no forno, mas também o pessoal da manutenção, com certeza alguém abriu a válvula do argônio e não fechou. O argônio é um gás neutro, não sendo prejudicial à saúde, mas como o Welington estava no vaso limpando, que aparentemente é um buraco que ficava abaixo do piso, o agravante foi que ao entrar esse gás no vaso, o mesmo é mais pesado que o ar que respiramos, expulsando o do recinto, dessa forma em questão de tempo Welington iria sufocar devido a inexistência de oxigênio, e não demorou muito ele iria tombar fatalmente no VOD para tristeza de muitos. Espero que tenha ido em Paz e que o Senhor tenha acolhido em seus braços.
Hamilton, vulgo Pelé era o mestre do VOD, e ao ter notícia que seu forneiro tinha passado mal no vaso, imediatamente partiu rumo ao local na expectativa de retirá-lo do vaso, o que ele não sabia que todo seu esforço seria em vão, pois o mesmo não tendo ciência do que se passava, também iria tombar no vaso, perdendo sua vida ao lado do seu forneiro.
Pelé quando faleceu deveria ter uns 38 anos, mas era outro meninão, que sujeito puro, inocente, agradável, sorridente, uma verdadeira criança. Lembro-me de um certo dia, que ele tinha passado o turno, não sei mais o que aconteceu, uma coisa sei, dei uma bronca nele. Não bastou muito tempo, para a minha surpresa, fui surpreendido com o choro daquele homenzarrão por causa da bronca que eu tinha aplicado-lhe. Arrependi de ter brigado com ele. Eu agradeço a Deus pela oportunidade de ter conhecido esse precioso amigo de uma inocência infinita. Espero meu grande amigo, que onde estiver continue irradiando muita paz e alegria.
Infelizmente foi assim que perdi esse quinteto amigo e não importa onde eles estejam, estarão sempre no meu coração trancafiados a sete chaves e que a Paz de Cristo possam alcançar esses corações.

 
Simplesmente Gilson
Enviado por Simplesmente Gilson em 17/11/2017
Reeditado em 02/05/2018
Código do texto: T6174020
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Simplesmente Gilson
Mucuri - Bahia - Brasil, 56 anos
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