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Carta I - ao amigo

à Diego G., divertido amigo

Divertido: único adjetivo que poderia dar-lhe sem arroubos de consciência.

Era assim: Roubava-me os lábios, na sutileza de quem prende as ondas do mar ou de quem tem o ovo entre os dedos. Ele tinha o ovo, percorria o deserto escaldante e chegava ao oásis com ele intacto: no seu branco pálido e na sua frieza muda.

Eu ria e depositava-me inteira, como o sedimento em pérola, em ínfimos grãos de areia. Acalentava o ovo, sem sucesso.

Digo que eu não era sua. Ele não me era. Eramos estranhos, mas tinhamos a reciprocidade do ser que nem existia. Até aquele breve dia da semente.

Eu já era mulher e o destino havia tornado-me infértil. Há muito não me apetecia a imagem crua do ovo branco. Mas, ele veio e eu, com o seio agitado em suas mãos, pude fitar a semente. Era firme, imóvel, castanha e de uma rigidez inconsistente - calculadamente ingerminável.

Ele a depositou em meu colo, porém a mulher que havia em mim era de uma dormência inquebrável. Mantive-me sóbria - estática - muda. Ele exigia a reação, como quem acredita indubitavelmente nas leis da física. Eu sorri.

Sorri como quem carrega o peso do mundo e pare a multidão. Ele me olhava. Eu não me brotava em nada, nada me chocava - o nada era o que me fazia estar ali.

Deixei-a em mim e, naquele instante, eu já lhe era um colar de pérolas... ostra ao vento a sussurrar pela providência. Não há muito o que fazer à uma semente quando não se detém a terra. Guardei-a como o aflito sorve a lágrima.

E Ela vive aqui. É uterina, nasce em mim. Ela me cresce toda e me queima inteira - toda dentro, em si.

Nada é nada - não se contesta ou exterioriza. Eu não me exteriorizo, sou a artificialidade da pérola, já o ele é um Tu. O Tu cata ostras, vive em mar e nem é marinheiro.

Cultiva o jardim que é, secularmente, seco e nele deposita milenares ovos que não chocam. Não se choca o nada, pois que é tentativa e erro: ilusão.

Eu já me sou jardim inteiro e os beija-flores já nasceram... O que falo agora nem é fim. É substantivo. Olha que nem me sou própria.

* No fundo... ovo e semente são a mesma coisa.
Lenita Gonçalves
Enviado por Lenita Gonçalves em 28/08/2007
Reeditado em 02/09/2008
Código do texto: T628113

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Sobre a autora
Lenita Gonçalves
São Paulo - São Paulo - Brasil
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