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Meu querido amigo canino

Escrevo para me sentir melhor, uma vez que meu pequeno cãozinho foi embora. Quem um dia disser que é exagero sofrer por muito tempo pelos animaizinhos de nossas vidas, nunca teve um bichinho em seu coração. Começo a pensar nos cães e gatos que passaram por minha vida antes dele. Penso em cada um deles, e na ausência. E este pequeno cachorrinho era meu amigo há 7 anos.
Ele teve um jeito engraçado de chegar até mim. Foi achado na rua, nunca soubemos de onde veio, mas em uma lata de lixo, todo sujo. Ele era bonzinho, mas estava bem surrado e sofrido. Foi a minha mãe e a chefe dela que acharam o Tom-tom (veja, ele não tinha esse nome no começo quando foi adotado, era Antônio... mas minha mãe nunca se conformou com isso e passou a chama-lo de Tom-tom).
Ele viveu com essa moça por algo em torno de 3 anos, mas sempre foi mais apegado a minha mãe. E quando essa moça mudou de uma casa para um apartamento, ele veio com a minha mãe, aqui pra casa. O nome engraçado veio junto com ele.  Na época eu tinha o Balú, meu cachorro grandão e bravo. Mas nunca tinha criado um pequenininho. E aqui, antes do Tom, cachorro dentro de casa nem pensar, segundo meu pai.
O Tom-tom era medroso, não vinha perto de mim, era desconfiado de todo mundo e só seguia a minha mãe. Demorei 2 semanas para conquistar a confiança do bichinho. Ele dormia na lavanderia no começo, nessas primeira 2 semanas. Mas eu escutava ele chorar a noite, era um chorinho baixo que me cortava o coração. E já que "não podia cachorro dentro de casa" trouxe ele pra dormir no meu quarto (afinal o quarto era meu, um território neutro que não faz parte da casa).
Então parou de chorar, e começou a ser meu amigo. Começou a parar de ter medo de mim, vinha me espiar no computador, mas se eu olhasse ele saia correndo. Com o tempo parou de correr, e depois deixou eu passar a mão sem se encolher. Tinha muito medo de vozes masculinas, e o veterinário da época achava que ele tinha apanhado antes, na rua. Então eu deixava ele muito no meu quarto, ele se sentia confortável e dormia na minha porta, caso eu não o colocasse para dentro.
Mas ele foi ganhando confiança, e conquistou a casa, conquistou meu pai e meu irmão. E passou a gostar muito de deitar na minha cama. Quando eu ficava triste, ele ficava no meu colo. Quando havia comida ele era meu companheirinho de garfo (mas só um pouquinho, o cãozinho não tinha nem 6kg).
Ele corria bastante também, e gostava de ir latir na frente do portão. Assistia séries comigo, e gostava de Harry Potter, erguia as duas orelhinhas quando eu colocava a vinheta. Era muito esperto, se eu contasse algo, ele me fitava com toda a atenção.
Com o passar dos anos ele correu menos,  tornando-se um dorminhoco. Os sinais da velhice começaram a aparecer... verrugas, .Houve uma no olho que  gerou a primeira cirurgia, ela era grande e estava lhe tapando a visão. E depois verruguinhas pelo corpinho todo, mas decidimos não operar nenhuma, elas não incomodavam. Não era parvovirose, e não havia riscos... nunca operaria meu amiguinho por fins estéticos. Depois dessa cirurgia foram alguns anos estáveis.
Contudo, mesmo após muitos cuidados,  o problema de coluna se agravou (ele sempre teve a coluninha torta, era necessários cuidados). Foi a primeira vez que o veterinário falou de eutanásia, pois haviam também problemas no sistema nervoso periférico, que afetaram as patinhas da frente.
Foi a primeira época “mais triste da minha vida”. Meu cãozinho estava muito mal, não se mexia e nem comia pela dor. Era julho de 2016, havia um inverno muito rigoroso... as coisas iam mal em casa, tinha brigado com o moço que eu mais tinha gostado instantaneamente desde que me lembro e não falava mais com ele. E o meu melhor amigo estava tão doente... Estava desesperada. Porém no lugar de eutanásia, suprimimos a doença dele com corticoides. Porém, a corticoterapia fez suas cobranças.
Embora eu tivesse meu cachorrinho de volta, correndo, comendo, todo alegrinho me chamando para ir na cozinha (ele adorava ir lá procurar farelos), houve algum mudanças, eu sabia que haveriam. Ele parou de dormir no meu quarto e passou a dormir na sala, porque agora tínhamos a Lucy e ele não gostou de deixa-la sozinha. Também, o corticóide o deixava com sede, e na sala tinha água. Um bom efeito do corticoide era descalcificar a coluna dele para não ter tanto acúmulo de massa óssea, mas em consequência o ossinhos se tornaram frágeis pelo corpo todo a partir daquela data.
Claro que no mundo, uma das certezas é o ciclo de vida e morte. A maior de todas as certezas, arrisco dizer. Entretanto a impressão que eu tinha era de que aquele momento nunca chegaria. Vi o Tom-tom ficando mais fraco e correndo menos, mas sempre esteve comilão. A veterinária julga que ele tivesse no mínimo 14 aninhos.
No fundo, todos nós sabíamos que em um dia breve o Tom-tom dormiria e não acordaria. Eu tinha decidido fazê-lo viver até que a existência dele estivesse permeada por dor ou sofrimento de qualquer espécie. Na noite de 28 de dezembro de 2017 ele jantou na cozinha como de costume, e veio no meu colo para ganhar farelinhos, depois deitou e ficou quietinho. E não foi mais na cozinha, ele sempre ia, mesmo que eu fosse fazer um chá. Eu chamei mas ele continuou deitado. De madrugada, lá pelas 2h da manhã, a Lucy estava arranhando minha porta, o Tom-tom estava passando mal.
No fim... Ele sofreu por menos de 1 dia, quando a infecção gastrointestinal se manifestou (os exames apontaram uma infecção e uma possível pancreatite)... passou mal a noite, e o levei na clínica de manhã, as 9h. Na noite anterior, fiquei de vigília de madrugada, olhando-o dormir e chorar as vezes... mas eu não sabia o que era, exatamente. A veterinária deixou ele no soro, com anti-heméticos, analgésicos, iria fazer exames sorológicos, ecografia... disse para eu voltar a tarde, talvez ele precisasse de internamento. Ele já havia adormecido quando saí. Fui mexer nas células do meu projeto de mestrado com um peso no coração, gostaria de ter ficado com ele... Mas ele jamais acordou.
Quando voltava ao consultório, na esquina da clínica, recebi a ligação da veterinária, para saber onde eu estava. Corri porque tinha uma sensação ruim. Cheguei perto da mesinha onde ele estava dormindo para ver o último suspiro do meu cachorrinho tão amado, mas ele esteve inconsciente o tempo todo... Ele se foi.
As pessoas me disseram que eu não podia ficar de luto no ano novo, que os cãezinhos são assim mesmo.,. ele morreu no dia 29 de dezembro de 2017, as 16h30. E algumas me disseram que era um absurdo eu estar triste, duas semanas depois. Meus pais diziam que eu precisava para de chorar a cada instante. O Fer me convidou para ir na casa dele um dia depois, e antes disso, escreveu coisas que me mostraram que me fizeram sentir melhor. Ele foi a única pessoa a realmente compreender minha tristeza. Algumas semanas antes, ele viu comigo aquele filme “A dog’s purpose”, o que me preparou um pouco para toda a tristeza que se sucedeu.
No entanto, quase 4 meses depois ainda choro ao lembrar de colocar aquele corpinho peludo na caixinha de papelão. De olhar nos olhinhos sem vida, de lembrar do corpinho ainda quente que eu abracei e chorei por tanto tempo. De recordar do meu irmão e do meu pai levando a caixinha para um terreno baldio na rua em que moro e enterrar meu querido amiguinho perto da maior árvore que tinha por lá. Gosto do respeito que meu pai e meu irmão tiveram ao enterrar ele assim, embora não tenham ficado tão pesarosos quanto eu, o que foi bom. Mas doeu tanto quanto perder um membro humano da família. Contudo, gosto de pensar que ele sofreu o mínimo possível, e durante sua vidinha conosco ele foi feliz, e de como nos fez feliz. Era uma das minha maiores felicidades.
E não sei onde ele está agora, porém gosto de pensar que meu lhazinha está no mesmo lugar no qual mora o Balú, e que os dois estão felizes, correndo e comendo por aí, com sua vidinha boa de cachorro, e nem se lembrar do fim. Porque os cachorros são como guardiões dos nossos sentimentos, e eles guardam toda a alegria. São capazes de espantar toda a tristeza com uma abanada de rabo.
Gisele de Andrade
Enviado por Gisele de Andrade em 15/04/2018
Reeditado em 15/04/2018
Código do texto: T6309690
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Sobre a autora
Gisele de Andrade
Curitiba - Paraná - Brasil, 29 anos
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Gisele de Andrade