Se eu pudesse, abriria mão do futuro por um único momento.
Aquele único momento junto, ímpar, bem coladinho mesmo. De ficar só olhando nos olhos, sentindo a respiração, o toque lento e forjado a brasas.
Um momento para deixar o Eu Te Amo ganhar asas junto aos lábios, e os sentidos alimentarem a combustão dos corpos.
 
É que ando cansada dos recessos e das demências dos descartes.
Tudo é tão fácil de descartar hoje em dia - móveis, imóveis, objetos, animais, pessoas e até sentimentos. E pra isso nem se precisa sair de casa - a olx, o mercado livre e a coleta seletiva, fazem o serviço pra ti.
 
A verdade é que essa mão que escreve - com o coração aberto de têmpora a têmpora - ainda gosta das coisas antigas - da pipoca no cinema, das canções do Roberto, do sorvete na praça, do passeio de mãos dadas,  das flores, dos cafunés, dos beijos roubados, das cartas de amor.
 
Ah as cartas de amor... quão piegas e deliciosas eram !
Perfumadas, desenhadas e, às vezes, até com uma flor amassadinha dentro.
Ali os amores à distância se fechavam nas arquiteturas do peito, alicerçavam constelações e das feridas sombrias faziam as estações crescentes - um lugar macio para a paixão voraz se nutrir a ópio e mel.

Então a distância era ouro que nascia às mãos.
 
Lembro-me da última vez que estive no Majestic, o teu apartamento refletia ausência.
Havia uma folha de ofício na máquina de escrever. Era uma carta, não era ?
Margens espaçadas, entrelinhas lampejando paisagens e sufocadas vontades. Não tive como não ver. Não tive como não sentir o tempo  parado com tanta largura fluvial.
 
O silêncio era rubro e escurecia à garganta.
Uma lua alta nas tuas palavras se estendia até os meus jardins internos. Eu entendo das desarrumações internas - os suspiros do sangue apaixonado sempre perfumam o ar violentamente.

 
Então sei que entendes o meu descontentamento para com a presença de feriados e falta de namoro no sofá da sala, encobertos pelos trabalhos, pelos estudos ou pelas conversas de whatsapp e likes que dividem opiniões quanto ao tempo de não se haver tempo. Nem mesmo para escrever uma carta dizendo Eu Te Amo, Preciso de ti, ou simplesmente, Estou com saudade.

 





 
DENISE MATOS
Enviado por DENISE MATOS em 12/06/2019
Código do texto: T6671186
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