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Praia

Sentei-me! Estou cansado e sento-me sobre a areia molhada a ouvir o mar. Estou farto de ouvir o mundo, um mundo a que já não pertenço por várias razões. Sinto o mar a tocar nos pés, sinto frio, sinto frio e não tenho ninguém que me aqueça! Este frio sobe pelos pés e parece chegar como um choque à cabeça. Choque este que traz más memorias, más recordações, imagens destorcidas e malvadas. São memórias recentes que estão como ferida aberta, bem no meu pobre e pequeno coração, e sem ajuda, carinho ou explicação vão sarando, mas deixam uma grande cicatriz, tal como as algas que me rodeiam que nunca mais farão parte do mar profundo a que pertencem.
Deito-me enfim, sem forças para sustentar esta cabeça que pensa em demasiadas coisas. Tento concentrar me em coisas boas, mas é tão difícil! A minha vida nunca foi feita de coisas boas, apenas foi salpicada de pequenas demonstrações de como ser feliz. Adormeço por fim, tentando esquecer o que de mal me atormenta, mas também no sono, os fantasmas das coisas que deviam ter sido ditos e que estão guardadas me perseguem. São tal e qual os tubarões dos mares que apenas querem ver sangue e destruição, e eu fraco como sou e sem ninguém a quem me apoiar deixo-me destruir um pouco mais todos os dias da minha vida. Mas no meu sonho mando eu, ou pelo menos tento mandar pois não posso controlar as atitudes das pessoas que me querem ver destruído e infeliz. Sim infeliz, foi assim que me quiseram sempre pôr, mas enquanto depender de mim terei sempre um sorriso só para não dar o prazer a todos os que me querem ver bem no fundo do oceano.
Esboço um sorriso em pleno sono, apareceste bem ali atrás das dunas para me salvar. A neblina desaparece e consigo ver tudo claramente. Tens esse dom, o dom de iluminar tudo e todos e irradiar beleza que faz com que tudo o que seja mau desapareça.
Mas desta vez foi diferente, tu apareceste e levaste o nevoeiro, mas trouxeste nuvens carregadas de chuva. Chuva essa que cai das nuvens, tal como as lágrimas me caiem dos olhos. Não entendo o que fiz eu...porque choro?
Sinto a chuva a cair mas não acordo, tento descobrir bem no fundo da minha alma e do meu entendimento o que se passa. Continuas a olhar para mim mas, por detrás de ti não vejo luz, vejo apenas nuvens negras que me horrorizam e me fazem sentir como um peixe fora de água à procura de socorro. Eis que surge alguém ao teu lado...quem é, o que significa isto? Não encontro resposta no meu interior, mas sei que dói só de pensar.
As lágrimas correm por todo o meu corpo e sinto-me mal comigo mesmo. Tenho de acordar mas não sei como. Sinto os meus pés a enterrarem-se na areia, não me consigo mexer. Olho para a areia e vejo doenças e maleitas desenhadas em cada cristal de areia...porque me prendem?
Faço força para me soltar mas em vão, olho em volta para pedir ajuda e noto que caras conhecidas se juntaram a ti e à personagem desconhecida.
- Ajudem-me! – Gritei eu! Esperei uma resposta e essa veio de ti, mas não da forma como esperava. Senti uma pontada no coração, devido ao apontar do teu dedo em minha direcção que fez com que pela minha cabeça passassem todos os erros que cometi... E um por um, todas aquelas caras conhecidas me apontaram o dedo. Vi aquela personagem a dar-te apoio e a ajudar-te a apontar o dedo. Choro de uma forma descontrolada para que tudo acabe, não suporto mais, tou cansado.
É então que todos me viram costas e desaparecem atrás das dunas, e fiquei novamente sozinho e ainda mais magoado.
Acordo finalmente com o sol a bater-me na cara. Sinto os olhos molhados de chorar e não percebo porquê... Terá sido aquele sonho real?
Levanto-me com genica e sacudo a areia molhada do meu casaco, tenho que enfrentar mais um dia! “Vamos lá, pensei eu”!
Sozinho e desamparado sinto vontade de retirar da minha pele toda sujidade que paira sobre mim como uma crosta de uma ferida que tarda em sarar. Dispo-me lentamente e aproximo-me das águas agora calmas...e como que por magia, toda aquela água torna-se num espelho imenso que mostra aquilo que sou...paro repentinamente e caio em mim, pois aquele sou eu. Toco-me olhando para toda aquela água “fazendo-me” sentir todas as imperfeições que sustento! Não quero olhar mais, não sou aquilo que desejo ser, preciso de ajuda. Decido então fugir; visto-me apressadamente para tapar aquilo que as pessoas não podem ver, ou comentar. Menos um defeito a apontar...
Chego a casa procuro por alguém conhecido, por uma voz amiga, um ombro amigo em que possa deitar a minha cabeça cansada...mas não vejo ninguém!
Enfim está tudo como estava antes de ter adormecido. A dor continua, a magoa está maior, e a saudade já se tornou desespero. Saudades de ti, saudades de todos, saudades de uma vida que nunca tive. O sonho foi, é e será sempre real, tal como a dor que se alimenta de mim todos os dias, tal como o momento que tanto anseio...
Mas sem luta nada se conquista, e a minha batalha é travada todos os dias desde o acordar ao deitar até mesmo pelas coisas mais insignificantes.
pikitito
Enviado por pikitito em 28/09/2007
Código do texto: T672773

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pikitito
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