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Mar e Ana

Para: Álvaro de Campos

Que pode uma criatura senão, entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Carlos Drummond de Andrade

       Meu caro amigo, bendito de tamanha calmaria, como invejo o fato de não saber quem és. Ao renunciar sua identidade – ainda que sem tais intenções – renunciastes o sentimento mais sublime e peremptório que existes, capaz de naufragar toda a frota de Pearl Harbor, e, sem dúvidas, habilitado para transformar cada gotícula de água em lágrimas que se perdem em meio a madrugadas pouco diligentes.
Infelizmente, não possuo tal plenitude. O motivo desta é justamente contar-lhe a respeito daquela que viestes a ser a maior de minhas inspirações, ao tempo que – sem a menor culpa – responsável por este coração confuso. Aquele sorriso, destaque entre outros mil, me lembra o fato dessa miserável vida ser mais do que uma simples corrida, mas tal como a neve, um momento gélido sempre resguardado pelo calor de um abraço sincero. Poderia, sem dúvidas, continuar essa carta só através de seu sorriso, porém, o objetivo desta é mais amplo.
Ainda que sejas única em meu pensamento, insisto em devaneios onde a perco, perco para mim mesmo, por ser alguém que não merece um único traço de bondade. Pois bem, isso é errado. Não só por um, mas por dois motivos. Cita-se, em primeiro lugar, o fato de um futuro nunca concebido ser a pior lembrança que uma pessoa no presente pode ter do passado, pois pense bem meu amigo, caso você não saiba controlar seus pensamentos, isso pode vir a se transformar em um mártir irremediavelmente doloroso. Em segundo lugar, o erro se acopla no fato de que eu penso, isso não deveria acontecer. Quando se pensa mais em suas questões e perde de vista tudo aquilo que a faz mal, torno-me desprezível, tal como aquele que habita o subsolo, um jovem homem morto pela culpa. Portanto, o espaço destinado para um deveria ser compartilhado por dois, ou por nenhum, a vida simplesmente é uma lunática forma de se desconstruir fronteiras, seja para permanecer, ou se perder novamente.
Essa, mais como um átopo socrático, se sente solitária, pois como eu e você, meu caro amigo, o passado destrói e fortifica muitas de nossas memórias, algo em si contraditório, contudo, extremamente doloroso. Só queria dizer para seu coração se acalmar, para que respire e sinta como em cada esquina sempre haverá uma flor, pois mesmo que a escuridão não lhe convém, o amanhã sempre vem, seja para chorar, ou para amar. É inexplicável o fato de possuir uma certeza absoluta sobre uma única coisa deste futuro que se apresenta de maneira estranha: nos anos vindouros, tua memória brilhará como estrela sobre minha vida solitária. Pensar-se-á sobre os momentos em que pela infelicidade fomos acometidos por um tempo nublado, onde nos perdemos em – pasme – nossa própria chuva, ainda que de um modo único, nos cobrimos com o sol que nos guia até este amanhã inóspito.
Ao falar sobre ela, mato então aquela saudade que causara certa angústia em meu peito, contudo, acaba de ser criada uma nova. Penso diariamente nessa sensação de que se distancias assim como um pôr-do-sol encoberto por nuvens de dúvida e lágrimas, mesmo assim, ainda há um espaço entre estas, é neste que gostaria de lhe segurar em meus braços, olhar para seu rosto, conectar nossos lábios afavelmente e, por fim, simplesmente dizer que te amo até o dia em que o sol será cortado em dois por memórias que a nós são indissociáveis.
Álvaro, por que sucumbistes a solidão? Por qual motivo não desce deste palanque invejável e venha até aqui sentir o vento que o faz humano? Se pensas que está protegido, muito se enganas, é no luto e em cada luz momentânea daquele farol distante onde os sentimentos se acalentam e transformam todo o seu redor em prosa, é justamente por amar que posso escrever, nada – incluso essa carta e isto que lhe conto – fora sonhado, entretanto, foi bem-vindo, e por fazer parte de um plano existencial controverso a minha existência, é que uma beleza inexorável contempla essas linhas e o brilho do olhar de quem estiver a ler esta carta inevitavelmente humana.
Oh, Álvaro! Como tenho medo de escrever e deixar as palavras tristes por conta do meu fracasso incessante, não me importo com o que virás a pensar a meu respeito, contudo, gostaria de ouvir das palavras que elas me aceitam, pois ainda preciso de mais algumas para descrever aquela mulher.
Certos detalhes não deveriam ser ditos, como quando estamos sós e simplesmente um novo perfume se cria. Conquanto, devo dizer que me apaixono todos os dias por coisas que nunca imaginei passar novamente, mas que atacaram e – provavelmente – permanecerão até o fim de meus dias. Sempre que me aproximo de seu rosto me aconchego no tempo e espero o destino nos unir, mas são nestes momentos que ela muda seu olhar mais rápido que uma estrela, é de tamanha elegância que me vejo como alguém sortudo. Ademais, sua voz, aquela incrível voz! Sua voz e respiração são meus sons preferidos, e mesmo que eu esqueça de viver, teu olhar ainda vai me lembrar de quem sou. Ultimamente tenho renegado simples palavras sobre ela, porém, a calmaria que me traz, o amor que vem, são motivos suficientes para acordar e sentar ao seu lado, ouvindo o canto que sai de seu coração. Álvaro, meu caro, nem devo dizer que ela ama seus poemas, pouco diz e – tenho certeza – pouco dirá sobre essa carta, mas ao ler suas poesias, um sorriso se prende em seu rosto. Não irei negar, lhe invejo por conseguir penetrar seu coração, queria ao menos uma vez ser capaz disto, todavia, não sou capaz de fazer suas palavras ecoarem, seja em linhas, ou em sua voz. Só preciso dizer mais uma coisa, meu caro amigo, prometo não me alongar.
Durante essa vida, sabes bem, fomos acometidos por pessoas e sentimentos distantes, ainda que lutemos e falemos sobre, o amor não foi gentil conosco. A vida é uma história que contam sobre nós, não uma história que escolhemos contar. Como diriam, o destino é inexorável e enquanto choro por estar longe, as malditas nornas continuam rindo ao tecer nossos fios. Reitero que dessa vez, no entanto, não aceitarei, desejo ser feliz ao lado daquela doce mulher até o fim de meus dias, e além.
Minha vida foi boa, foi quente; pensei no céu azul e em praias amplas e limpas, porém, ao mesmo tempo foi triste, faltava algum sentimento humano que eu desconhecia ou com o qual não sabia lidar. Até que – em um belo dia – conheci, ou melhor, reconheci este amor. Começa com Mar e termina com Ana, quase como Mariana. Ainda que venha a me perder como você, meu caro amigo, arrancarei todo o bom senso que me resta e continuarei ao seu lado, pois desde a última vez que nos vimos eu gostaria de recomeçar aquilo tudo que deixei de dizer antes dela viajar. Eu simplesmente a amo, até o fim, esperarei até o dia em que tudo estiver bem, sorrir contigo é muito mais do que mereço, não necessito de símbolos, só desejo seu abraço. Sinto falta todos os dias de seu coração, prometo me afastar enquanto se reconstrói, pois ao fim do dia, sempre terei uma memória contigo, pois ainda quero – por mais um rápido momento – ouvir as palavras que me fizeram debulhar em lágrimas. Eu te amo.

Kind
Kind
Enviado por Kind em 03/12/2019
Reeditado em 06/12/2019
Código do texto: T6809790
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Kind
Rancharia - São Paulo - Brasil, 19 anos
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