CARTA A ESTE INADMIRÁVEL MUNDO NOVO

Amores e afetos ficaram no vazio das vidas. Vidas que se foram sem despedidas. Sem notícias de antes. Nem de depois.

Medo e indiferença. Afeto negado. Coragem imperativa.

Aos profissionais da saúde as palavras de ordem: concentração e rapidez. Nas conversas enviesadas o murmúrio da dor é a pauta da vez.

O coração pede ar. O mesmo ar que aos pulmões não chega. Os olhos choram. As mãos se aninham. Uma na outra. Num único aperto permitido.

O frio, que nenhum cobertor aquece, chega nos braços e pernas. Estendidos em leitos de medo e incertezas.

Máscaras cobrem as curvas dos lábios tristes. Não protegem da dor. Nem do medo que os olhos vêem.

O antagonista reina impune. Desconhecidamente impune.

Na roleta russa. Ninguém sabe. E a tensão sedada e intubada. Sufoca e mata.

O opositor que não se vê. Lidera um mundo novo.

Atropela vidas. Isola mães e filhos. Fecha portas. De escolas. De comércios. De velórios.

Abre e escancara o início do fim. Nas perdas. Nas partidas. Das vidas que se foram. Sem despedidas.

Mírian Cerqueira Leite

Mileite
Enviado por Mileite em 12/05/2020
Código do texto: T6945416
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