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Carta aberta à minha mãe

   Oi mãe... quanto tempo, não é?
   Lembrei de escrever essa carta porque dia desses eu estava passando por nossa antiga rua e adivinha só, o Alex - aquele vizinho bagunceiro – se tornou pai, e conheci o filho dele quando o moleque esbarrou em mim com um sorvete. O pai logo veio socorrê-lo e ao invés da criança chorar pelo sorvete ou exigir outro, o pai olhou pra ele com “aqueles olhares” que só os pais e mães tem e, simplesmente disse “Desculpa, moça”. Desculpa! Dá pra acreditar?
 
   Por falar na nossa antiga rua... você lembra da Marina? Ela era uma ruivinha, toda simpática, super estudiosa... pois é, ela não foi morar fora como os pais dela queriam... fez 1 período do curso de psicologia, conheceu um rapaz de outra turma e os dois foram embora morar Deus sabe onde. Algumas ex-colegas de faculdade que mantém contato com ela dizem que eles vivem em um hostel e vendem miçangas na praia...

   Você deve estar se perguntando pela minha melhor amiga Marianne, não é? Ela apesar de ter sofrido toda nossa infância e adolescência por ter síndrome de Down (o que eu acho uma idiotice esse negócio de preconceito), hoje ela trabalha na empresa que sempre quis, é gerente e tudo. Nada passa pelas mãos dos outros sem ela consultar primeiro. Fora que o casamento dela com o João Vicente foi lindo. Parecem casal de capa de revista. Qualquer dia desses lhe mostro as fotos...

   E você como está mãezinha? Tenho uma novidade... pretendo tirar você daí. Logo. Asilo é pra quem não tem quem cuidar. E você tem! Por mais que a revista cubra bastante do meu tempo, você virá morar comigo e contratarei uma assistente pessoal pra me ajudar com suas coisas. Me desculpe, mas eu acho muita muita injustiça o que meus irmãos fizeram com a senhora. Tudo bem que coração de mãe sempre está pronto pra perdoar e etc., mas a senhora nunca foi a melhor opção pra eles.

   Agradeço por ter me tirado daquele buraco em que eu estava, ainda recém nascida, sem ter consciência do que de pior poderia acontecer. Eu sei, eu sei, que nem de longe eu fui aquilo que a senhora esperava de mim, que muito tempo fui apenas uma intrusa, a filha bastarda rejeitada pelos pais que me geriram, que meus irmãos não entendiam porque eu estava naquela casa...mas a vida é mutável, ninguém permanece pra sempre do jeito que um dia foi...

   Mãe, a senhora é a pessoa mais importante pra mim hoje! Embora a gente tenha tido nossas diferenças também sempre teve muito amor, e, embora a senhora possa pensar que não, é a única mãe que conheço e não poderia escolher pessoa melhor.

   Eu te perdoo mãe! Mas o importante é que você também faça isso por si mesma, combinado?... não adianta remoer acontecimentos do passado. Perdoe a si mesma! Nenhuma mãe ou pai são perfeitos porque tudo é aprendizado...

   Nossa, estou chorando aqui, e espero que não borre a folha. Sempre tivemos isso em comum, não é? Éramos duas “manteigas derretidas”.
...Enfim, peça para sua ajudante no asilo lhe preparar as malas que vou buscá-la mais tarde, às 20h.

   Sabia que comprei um carro novo? Eu não estou nada mal como jornalista, Dona Elídia (cof cof)... hoje vi que vai ser lua Nova, o céu provavelmente não vai estar tão estrelado como no sítio do Vovó Tonico mas é uma bela oportunidade de recomeçar, não acha?

Com amor,
Sua filha E.


Srta Lopez
Enviado por Srta Lopez em 23/06/2020
Reeditado em 24/07/2020
Código do texto: T6985846
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Srta Lopez
Viçosa do Ceará - Ceará - Brasil, 25 anos
21 textos (1711 leituras)
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Srta Lopez