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A ÚLTIMA CHAGA - O cair das máscaras

Existe uma frase motivacional que diz o seguinte: "Vai! E se der medo, vai com medo mesmo." Era a frase que me motivava a estar com Júnior em momentos de adversidade com os familiares do pai do meu filho. E para encarar essa outra grande "ida", havia uma outra frase que me motivava e que diz: "É melhor sofrer com a decepção e ter errado, do que com a dúvida de não ter tentado." Até o presente momento ainda não colhi os frutos e tão pouco provei dos néctares da minha grande bravura.

Enfim, viajamos eu e meu filho juntamente com o restante da nossa mudança. Passamos o natal na casa dos meus padrinhos e pais de criação, e no dia 28 chegamos na casa de Rafael. Já de início ele estava muito apreensivo e ansioso, e a metade da minha primeira mudança estava guardada em um quarto que seria o do meu filho. Eu teria muito trabalho pela frente e apesar de todos os desgastes, a esperança de ter dado um possível salto quântico me animava.

Fomos passar o Réveillon na casa da Marcela, a segunda irmã mais jovem de Rafael e na qual ele era mais chegado. Fui tratada muito bem por todos, passamos a virada do ano na piscina e no momento dos fogos, minha mente não saía das lembranças do ano anterior passado em Copacabana com Júnior e sua mãe. E pensava no quão deveria estar sendo difícil pra ele passar sem mim e sem o seu pai. Por melhor que estivesse sendo tratada, eu me sentia insegura e no meio de estranhos.

Passada a confraternização, nos deitamos na sala que era bem espaçosa, ficamos em um colchão colocado atrás do sofá onde a mãe de Rafael estava dormindo. Com meu filho ao meu lado, Rafael queria namorar e além de cansada minha mente estava longe. Ele não aceitava "não" como resposta nunca, tentou forçar uma relação sexual comigo, e me vendo relutante, sua mãe acordou e tossiu. Eu pedi que ele parasse com aquilo, pois iria acordar meu filho também. Bicudo que era a forma como ele sempre ficava, foi lá para fora ficar com outros que ainda estavam festejando e conversando. Os próximos dias foram bons, na manhã seguinte nada tinha mudado comparado à nossa relação virtual, ou seja, Rafael era um à noite e outro completamente diferente de dia, agindo sempre como se nada tivesse acontecido.

Meu filho ganhou um banco imobiliário, todos brincaram com ele, Rafael ensinou ele a nadar e essa parte eu fiquei muito feliz. Meu padrinho sempre tentava ensiná-lo, ele sempre chegava perto, mas foi Rafael quem conseguiu. Bem posteriormente também o ensinou finalmente a andar sozinho de bicicleta, algo que eu tentava há anos. Rafael tinha muito disso. Dias em que fazia eu admirá-lo e dias que fazia eu querer matá-lo. Mas, no geral despertava mais meus demônios... Ficamos mais dois dias e depois fomos embora.

De todo aquele ano eu não sei qual mês foi o pior, mas com certeza, os três primeiros estão entre eles. Haviam muitas caixas espalhadas pela casa e eu percebia um certo desconforto por parte da mãe de Rafael, por conta da sua lenta mobilidade, apesar de eu ter cuidado para que nenhuma ficasse no meio do caminho de forma que a atrapalhasse. Eu por minha vez, também arrumava conforme o meu ritmo, afinal de contas era verão. Tinham dias que o calor ficava insuportável, me impossibilitando de arrumar muitas coisas que ficavam fora do único cômodo que possuía ar condicionado, que era o meu quarto e de Rafael.

Outra fator que deixava a mãe de Rafael desconfortável era ter que dividir temporariamente o computador com o meu filho, visto que as minhas coisas ainda estavam encaixotadas e eu estava desocupando o quarto dele. Desocupado o quarto do meu filho, a nossa primeira discussão foi na montagem do guarda roupas. Estava muito quente, ele estava ficando agoniado por este motivo e porque a montagem era complicada também. A segunda discussão foi por conta de uma cortina da sala que eu troquei. Tirei a deles que estava e coloquei uma minha para tentar me sentir um pouco mais em casa. Ao chegar do trabalho ele reclamou por conta da claridade e retirou a minha cortina. Ali eu percebi que a casa não seria tão do meu jeito como ele prometera que seria.

As aulas só começariam em março e eu ainda estava pensando em qual escola matricularia meu filho, e logo no início de fevereiro meu filho completaria nove anos. Meu filho gostava de ver vídeos no you tube e de jogar jogos no computador e mãe de Rafael também jogava cartas no mesmo site onde seu filho me conheceu, aliás, ela era viciada naquilo. Das poucas vezes que não estava jogando, ficava no facebook, assistia novelas nos dias de semana e Silvio Santos aos domingos. Nunca a vi fazendo ou ouvindo uma oração, meditação ou qualquer outra coisa do gênero.

Em um dia qualquer e já anoitecendo, chegou um homem que já foi abrindo o portão e entrando quintal à dentro, perguntou se eu era a sobrinha dele que cuidava da sua mãe, eu respondi que não e então me pediu que eu chamasse o Rafael. Fiquei do lado de fora para ouvir a conversa, e era sobre uma dívida de aproximadamente uns quinhentos reais. Compras de materiais de construção que Rafael devia, e o cara inclusive, chegou a ameaçá-lo caso não pagasse. Posteriormente me vendo assustada com aquela surpresa, Rafael tentou amenizar a situação dizendo que o cara era amigo dele e da família, e que só havia feito aquilo porque estava bêbado. Podia até ter bebido sim, e foi o que na minha opinião, o encorajou a ir até lá para tirar satisfações, porém não aparentava estar embriagado.

Como sempre sendo a sua "salvadora" e cúmplice de seus atos na medida que acobertava os mesmos, a mãe de Rafael fez o refinanciamento de um empréstimo e conseguiu o dinheiro para ele pagar o rapaz e ainda sobraria. Não me lembro precisamente o valor do empréstimo, mas acredito ter sido cerca de uns dois mil reais. Rafael sabia que não podia ficar com dinheiro em mãos, pois era muito descontrolado, esbanjador e não conseguia dar prioridade ao que de fato era necessário. Não me recordo muito bem se o dia era uma sexta-feira, mas lembro que uma pequena parte do dinheiro havia sido depositado na conta e a outra parte sairia na segunda-feira. A quantia foi pouca, foi cerca de uns trezentos reais, onde boa parte ele gastou no mercado.

Lembro de anoitecer e de eu colocar um assado no forno, quando chegou Cleiton, um amigo de Rafael. Entrou, sentou, conversou um pouco e então Rafael disse que iria na casa de Cleiton, mas que voltaria logo para o jantar, pois não era nem 19h da noite. Eu nem imaginava que ali, começaria um período longo de águas turvas e agitadas em nossas vidas. Sempre intuí que passaria sim por períodos turbulentos, mas não tão cedo e tão pouco, de forma tão sequenciais.

Deu 22 horas e Rafael não chegava, jantamos sem ele e fomos nos deitar. Naquela altura eu já imaginava que ele tinha ido beber, pois Cleiton era parceiro de bebida e de outras coisas nada boas. Como Rafael nesta época já havia quebrado outro celular e estava sem, eu não tinha como entrar em contato com ele, e mesmo que tivesse, o celular dele estaria desligado, sendo um hábito que tinha ao sair para beber.

Às 3 h da madrugada, o telefone fixo que ficava no nosso quarto tocou, era Rafael ligando de uma delegacia, me perguntando se eu teria trinta reais para pagar o taxi que os levaria para casa. Eu disse que não tinha dinheiro em casa, e os serviços de taxi daquela região não aceitavam cartão. Ele sugeriu a ideia de pegar as moedas de um real do cofrinho do meu filho e lamentavelmente foi o que eu tive que fazer para ele ter como voltar para casa. Hoje eu teria deixado ele lá. Aliás, hoje eu teria deixado ele em muitos outros locais que serão brevemente aqui relatados.

Sempre relutante em dizer a verdade ou sempre dizendo meias, Rafael explicou que seu amigo Cleiton, havia pedido para buscar um material seu de trabalho em uma outra cidade que ficava próxima dali. E que pararam para beber sim, mas quem veio dirigindo era uma parente do Cleiton que foi parar na história não sei nem de que forma. O carro foi parado pela polícia e foi apreendido pela tal e suposta garota estar alcoolizada. Eu ainda era inocente apesar de tantas outras façanhas de Rafael, mas ele falava de uma forma tão eloquente e persuasiva que venderia até sapatos para quem não tem pés.

Depois, lógico a verdade como sempre veio à tona. Rafael quem estava no volante, se recusou a fazer o teste do bafômetro e recebeu uma multa nada mais, nada menos que três mil reais. Fora a apreensão do carro que era meu, mas que ainda estava no nome da sua irmã Vera, que havia viajado para a Itália. Ou seja, o dinheiro que ele havia pegado do empréstimo para pagar o rapaz que veio lhe cobrar, muito mal serviu para pagar para retirar o carro e deixá-lo regular. E o dinheiro para pagar a multa do carro deu pano para costurar manga durante aquele ano inteiro.

A partir daquele dia eu passei a desgostar do carro, que já tinha uma multa de mil reais e que então passaria a ser quatro. Mesmo vendo toda essa situação Vera disse que eu poderia pagar a primeira parcela só em abril. Sua irmã Marcela sendo procuradora da sua irmã Vera, a substabeleceu  para mim por um mês, para que eu conseguisse retirar o carro. Além da tamanha irresponsabilidade do seu irmão, elas ainda assim confiaram em mim, afinal a procuração substabelecida era de tudo que a Vera possuía e não apenas do carro. O ruim é que tudo tinha que ser resolvido pelo o meu celular, já que Rafael estava sem e aquilo até aquele momento ainda não me incomodava tanto.

Sempre repreendia a forma grosseira e impaciente que Rafael trava a sua mãe que pedia auxílio com a TV e com o computador. Certo dia, eu estava ainda ajeitando as coisas da mudança, ele me destratou na frente de sua mãe e do meu filho, dizendo que eu não dava pra ele porque ainda gostava do derrotado do Júnior. Eu fiquei muito enfurecida, porque além de nem estar tendo contato com Júnior, não achava que ele merecia ser rotulado daquela maneira. Falei que derrotado era ele que não conseguia acordar sozinho para ir trabalhar se a mamãe não batesse quatro vezes na porta do quarto para despertá-lo pela manhã. Também disse à ela que colocasse os seus outros filhos a par do que estava acontecendo dentro daquela casa, inclusive, as grosserias dele para com ela.

Ela ficou muda e como não agiu, mas eu sim. Passei um WhatsApp para o seu segundo irmão mais velho o qual ele tinha como pai, dizendo que ele não parecia estar muito bem. Pois havia tirado a sua mãe do ar condicionado para ir jogar banco imobiliário com ele num calor infernal que estava fazendo na sala. Apesar de morar longe mas por estar passando por aquela região, seu disse que passaria lá. Chegando, sentando e perguntando se estava tudo bem, Rafael ria com a cara mais cínica do mundo como se nada tivesse acontecendo, com aquele jeito psicopata dele de enganar os outros. Olhei para a cara da mãe dele que fez o mesmo. Eu quis desmascarar Rafael, mas fiquei imobilizada ao perceber que sua mãe também usava máscara...

(Continua...)

 
Anne Jansen
Enviado por Anne Jansen em 12/01/2021
Código do texto: T7157838
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre a autora
Anne Jansen
Yakage - Okayama - Japão
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Anne Jansen