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Ao primeiro

(Sonhei contigo como tantas vezes.)
 Já faz tanto tempo desde que soltamos os dedos pouco a pouco. Que te vi ir embora pela janela do trem. E fiquei chorando na estação. Como se arrancasse um pedaço de mim. Conscientemente arrancado.
Às vezes madrugada me dói tão fundo que parece insuportável ausência. Como se a cada instante pudesse abrir os olhos e estar a seu lado, na cama. E virias com um chá quente. A televisão ligada. Eu reclamaria da luz acesa ou de qualquer coisa. Farias o possivel para que eu não despertasse. Preparariamos o jantar. Discutiriamos aos berros. Terminariamos abraçados. Como sempre. Comos seria para sempre até que não foi. Tantas vezes ameaçado, mas sempre voltado. Sempre adormecia assim, em seus braços. Uma noite não mais. Dormistes na cama ao lado. Eu, como que impotente diante do inevitavel. (Jamais acreditastes que eu seria capaz. Mas fui. Jamais acreditei que eu seria capaz. Ainda hoje não creio. Como se a qualquer momento pudesse acordar ao teu lado. Como se jamais pudesse me sentir tão protegida. Como quando se está com medo no escuro e o quarto dos pais parece tão seguro. Você, meu porto-seguro. O qual sabia não poder mais ancorar. Sem volta. Como realidades paralelas que nunca mais se encontrarão.) (Como é estranho que o amor não baste!)
Você com todos os defeitos, irritantemente querido, assumidamente insuportável, tão amado, sempre re-lembrado. Cada dia. Cada noite. Eternamente raio teu. Exemplo maior de todo e qualquer amor seguro, inteiro, sem reservas. Ainda com todos as faltas, com toda a incompatibilidade do senso de beleza. Terrivelmente Romântico, mal-do-século pessimista. Lembro-me ainda das lágrimas no escuro, dos cabelos lisos, da pele branca e macia. Das mãos mais belas que já vi. Dos braços fortes. De como gostava de mirá-lo apoiar-se neles quando por sobre mim. Das costas largas, firmes. De como gostava de agarrar-me nelas com toda força puxando-o contra mim. Do olhar de menino. Do ohar de ódio. Do olhar de desprezo. Da bondade. Do sarcasmo. Da frieza. Das respostas secas e curtas. Da falta de palavras. Do jogo de adivinhar.
Ninguém jamais vai conhece-lo tão bem quanto eu que vi a pureza da alma. Que senti a imensa raiva. Que provei do maior amor que jamais sentira. A primeira. O primeiro. Eternamente. Sempre lembrado.  Sempre chorado. Sempre amado.
Elle Henriques
Enviado por Elle Henriques em 17/11/2007
Código do texto: T740370
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Sobre a autora
Elle Henriques
São Paulo - São Paulo - Brasil, 32 anos
48 textos (2741 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 18/12/17 09:33)
Elle Henriques