AMIGO DA ONÇA

O tempo não pára; a vida não pára. Tudo funciona como o andar de bicicleta: se parar, cai. Então, comprei uma farinha boa, contratei um motorista ruim e lancei-me na estrada. Carregamos o caminhão em Santo Antônio de Lisboa e jantamos em Jaicós, a menos de 100 quilômetros dali. Alimentado, o motorista declarou-se sonolento e impossibilitado de dirigir.

- A estrada é ruim, e não gosto de viajar com o estômago cheio. Vamos dormir por aqui. Sairemos de madrugada.

- Não! De madrugada já quero estar na divisa com Pernambuco. Dê-me o volante, e eu mesmo dirijo.

O motorista dormia enquanto eu enfrentava as dificuldades da estrada - buracos, atoleiros e subidas quase impossíveis de serem vencidas por um caminhão pesado. Num aclive medonho, faltou força motriz para subir; forcei muito a máquina e estourei os parafusos flutuantes. Uma roda traseira ficou livre e não recebia impulsos para rodar. O caminhão despencou de ré ladeira a baixo. Pensei em saltar, mas não podia fazer isso. Meu companheiro estava dormindo; era preciso acordá-lo e não havia tempo para tantas ações simultâneas: controlar o carro, acordá-lo e saltar se não conseguisse outra saída melhor. Por ser uma reta, consegui acionar os freios e manter-me na estrada. O carro parou. Não é fácil segurar um caminhão pesado. É como parar de supetão um cavalo em desembestada apenas puxando as rédeas. Meu motorista desceu da cabine, coçou os olhos e reverberou um insulto.

- Bem-feito! Eu não disse que não deveria viajar à noite?! Agora, cadê sua chegada cedo a Petrolina?

Disse isso e subiu na carga. Dormiu até ser acordado pelo sol, já com o dia claro. Como profissional, ele bem sabia que, viajando-se à noite, há menor desgaste dos pneus e evita-se o superaquecimento do motor, além de ser menor o trânsito de veículos pequenos, tornando a estrada mais livre, menos congestionada e, conseqüentemente, menos perigosa.

- Sr. Isidório, o sol já está alto? Precisamos procurar recursos.

Indiferente, de cima da carga mesmo, ele respondeu:

- Nessa chapada erma, sem água e sem gente?! Não desço daqui até que passe alguém para me dar uma carona.

- Pois eu vou procurar alguma coisa para comer!

- Ah! Ah! Ah! Vai procurar almoço? Vai achar é uma gata para almoçar você.

Andei, andei uns três quilômetros e encontrei uma casa de tijolos, bem coberta e conservada. Havia uma enorme varanda e, ao lado, um curral grande e um aprisco – sinal de que não era uma casa abandonada. Quem morava ali, vivia razoavelmente bem. Bati palmas e gritei: “Ô de casa!” Duas jovens saíram, meio desconfiadas.

- Nosso pai não está aqui. Não damos rancho a ninguém!

- Não vim pedir rancho. Estou com um caminhão quebrado. Quero que me vendam um prato de comida.

- O senhor espere um pouco. Meu pai está na horta. Vou gritar por ele.

Uma das moças deu alguns passos, subiu no chiqueiro dos bodes e gritou: “Papai! Papai!...” Em poucos minutos, chegou um homem de uns 40 anos.

- O que o senhor deseja?

- Café acompanhado de alguma coisa. Estou com um caminhão quebrado na estrada. Não como desde ontem.

- Se o senhor comer comida de pobre, entre!

Sentou-se e ofereceu-me um tamborete. Sentei-me também, e conversamos sobre as dificuldades de se viajar em estradas de chão e o prejuízo que nos causam. Falamos de agricultura, e disse-lhe que eu era um homem do campo, acostumado a puxar enxada e a outros serviços braçais. Disse isso para ficarmos mais próximos, porque, naquele tempo, quem tinha um caminhão era tido como rico. Mas eu não estava mentindo; sou de origem humilde, acostumado com as lides do campo.

- O café tá pronto. – disse a mulher, mostrando apenas a cabeça.

- Ponha na mesa. – disse o dono da casa.

A mulher trouxe um prato esmaltado cheio de cuscuz, outro com quatro ovos fritos e um bule de café. Quem não conhece cuscuz pode não gostar, mas é meu alimento predileto no desjejum. Aproveitei uma oportunidade na conversa para comunicar que não estava sozinho; meu motorista ficara no caminhão e gostaria de levar algo para ele comer. Imediatamente o homem mandou que a mulher repetisse a operação na cozinha. Saí levando uma cabaça d’água e uma tigela de cuscuz, coberta com um pano de prato amarrado com três nós formando uma trouxa.

- Tá aqui; leve para seu companheiro e volte para almoçar.

Durante dois dias foi assim: tomava café e almoçava. Finalmente, depois de trazer as peças e um mecânico de Petrolina, saímos do prego. Perguntei a meu hospedeiro quanto lhe devia.

- O senhor não me deve nada. Quando passar por aqui, se quiser encostar para comer de nosso feijão, não se acanhe.

Fiquei envergonhado pelo fato de não me cobrar nada. Então, peguei um maço vazio de cigarros, coloquei o valor correspondente a duas diárias do Hotel Padilha, em Recife, e pus na mão de uma criança. Agradeci e fui embora.

Descarregamos o caminhão em Feira de Santana e rumamos para Salvador, onde deveria comprar uma carrada de arame farpado para vender em Picos. Tudo parecia pronto para o retorno. Tomamos a estrada e, logo na divisa de Pernambuco com Piauí, o motorista disse:

- Enquanto os fiscais conferem as notas e liberam o carro, vou tirar um cochilo.

- Tudo bem!

Passaram-se quase duas horas e, quando as notas foram carimbadas, abri a cabine; meu empregado roncava alto.

- Vamos, amigo!

Ele apenas virou para o outro lado e embrulhou-se dos pés à cabeça.

- O mundo não vai acabar hoje, não. Vou dormir; amanhã de madrugada pegamos a estrada.

- Companheiro, preciso chegar em Picos a tempo de pegar o movimento da feira e vender minha mercadoria.

- Pois dirija, se quiser.

Peguei o volante e consegui chegar ao destino dentro do prazo previsto. No dia seguinte, ele procurou-me.

- Me dê a chave; vou mandar fazer a revisão.

- A chave, não; as contas. Venha mais tarde receber seu saldo e assinar a papelada.

Demiti o motorista e passei a viajar sozinho por esse mundo de meu Deus. Certa noite, já chegando em Picos, dormi ao volante e sonhei que estava caindo numa cratera enorme. A cratera realmente existia; ficava nas imediações do 3º Batalhão de Engenharia e Construção, na chegada da cidade. Acordei com o barulho do caminhão quase desgovernado e saindo da estrada. Com muita dificuldade, consegui retornar à pista e completar a viagem em paz. O susto foi grande! E, naquele dia, tomei a decisão de abandonar a vida de caminhoneiro.

LIMA,Adaberto;SILVA, Francisco de Assis. Fagulhas e Lampejos.