O “PRETO VÉIO” E O “BUGUELO” (HIST. DO BIDÚ 12)

A força de nossos pensamentos e sentimentos se desgasta e se extingue após se manifestar concretamente em coisas e fatos a nosso redor e em nosso próprio corpo.

Foi pensando e agindo dessa forma, que Paulina, visionária e empreendedora como ela mesma, lutou bravamente e quebrou a resistência de Bidu, que era o seu oposto, conseguindo uma casa na cidade, para que as crianças pudessem estudar. Ela não queria ver seus filhos “puxando cobra para os pés”, isto é, trabalhando na roça, queria-os “doutores”.

Na época da ditadura militar, 1964, mudamos da roça para a cidade – Rua Olavo Batista, 319, Itajuípe, Bahia.

Bidu esbravejou de todas as formas, praticou todos os tipos de terrorismo, dizia que ia morrer de solidão, coisa e tal, e como é que ia ficar longe da sua “véia”, e quem iria “queimar feijão” pra ele, etc. e tal. Mas não teve jeito, acabou cedendo aos encantos de sua “veinha” e comprou a casa. Mudamos, mamãe e nós, e já na primeira semana foi uma confusão danada. O Exército tomou a cidade em busca de um terrorista, vasculharam tudo e prenderam o Zé do Rádio e o Mané Alfaiate, que eram do PCB.

Como nunca havíamos visto nada parecido, ficamos assombrados e trancafiados em casa. Quando meu pai chegou da roça, na sexta-feira, minha mãe fez um verdadeiro relatório, ele demonstrou um pouco de preocupação, mas mesmo assim se mandou para a rua do Cacau.

Com o passar do tempo, as coisas foram se ajeitando. Nós na cidade estudando e Bidu, na fazenda, trabalhando. Na realidade, mandando. Ele gostava de mandar, e mandava gritando; quem estivesse afastado, imaginava que estava esganando alguém.

Como tudo que muda, muda tudo na vida. Nossa vida começou a se modificar e nosso costume da roça foi-se exaurindo. Tudo era estranho e muito diferente do que tínhamos vivido e aprendido até então. O leite não se tirava mais da cabra, agora era de vaca, e quem dava o leite não era a vaca, a gente nem a via, era um tal Joani; as frutas e verduras não eram mais colhidas no pé, não sabíamos nem de onde vinham. Lá na roça, quando a gente queria uma fruta, era só pegar no pé e, quando não dava pra subir, a gente usava o podão. Aqui nem podão tinha! Também não precisava, não tinha pé de pau na cidade! Tudo aquilo que usávamos na roça foi substituído pelo dinheiro. O canto da mata, o barulho dos bichos foram substituídos por uma boca grande que tinha nos postes de luz e era chamado de alto-falante. O nome estava certo, porque era alto mesmo e falava pra caramba. Quando o homem começava de manhã, ele dia: “Senhoras e Senhores, meu cordial bom dia! No ar o serviço de alto-falantes, a voz de Itajuípe, transmitindo do edifício Isaac Costa, primeiro andar, sala 4, para os principais pontos da cidade”. Antes ele tocava uma música, um prefixo, até bonita, parecendo aquelas como quando alguém morre. À tarde, ele tocava uma de bêbado: “Eu sou ébrio da bebida...”, de Vicente Celestino.

Gente! Era tudo diferente. Lá na roça quem cantava pra gente eram os sabiás, os pássaros-pretos, os curiós, os tucanos, tinha até um bichinho que a gente chamava de garrincha, que também cantava desafinaaaado! Mas cantava do jeitão dele, é lógico, cantava e pulava também, dava uns pulinhos esquisitos.

Voltando ao que dizia, na cidade era tudo estranho, até as doenças eram diferentes, como também, diferentes eram os remédios, o Tonhão da Loca foi substituído pelo senhor João Adry e pelo doutor Montival. Eles eram bonitos, bem barrigudos e com bochechas grandes e vermelhas, todos lindamente vestidos, de branco, as suas auxiliares também de branco, pareciam os anjos sobre os quais mamãe nos contava.

Lá na fazenda, a gente nunca ficava doente, quando muito era uma dorzinha de barriga por ter comido muita jaca. E quando era coisa mais séria, mais séria que sarampo, varíola e catapora, Tonhão da Loca curava a gente. Essas outras coisas eram curadas com ervas naturais. Minha mãe tinha seu canteiro de mato, como a gente chamava. Tinha ervas para cada tipo de doença, melissa para curar infecções, mastruz com leite para osso quebrado, artemija com fumo de rolo para picada de cobra; varíola, catapora e sarampo eram curados com sabugueiro e erva de santa Maria. O açapeixe e o pau-d’arco eram usados para doenças internas e de natureza desconhecida. O capim santo era usado como calmante; a erva-cidreira era o chá das comadres; quebra-pedra, para os rins; a papeira, caxumba, era curada com casa de marimbondo e de joão-de-barro – fazia-se uma papa e colocava-se embaixo da papada do indivíduo por sete dias. Ah! Tinha também a cura para íngua. Pegava-se um tição e fazia-se uma cruz na sola do pé e outra na virilha, daí a três dias, puf! batata! A íngua tinha desaparecido.

Sem querer sair do assunto e já saindo, quando o quadro se apresentava com maiores complicações, o meu pai ia buscar o Tonhão da Loca de pedra. Nossa! Quando isso ocorria era uma labuta danada, ele tinha muito medo de ir à Loca de Pedra do Quebra - bundas. Dizia que era mal assombrada, que tinha caipora, zumbi encantado, mula-de- padre, uma espécie de minotauro, metade mulher, metade mula. Ele dizia ter visto, em certa ocasião, uma mula-de-padre dar uma mijada, que queimou o pé de jaca todinho. E era assim. Ele relutava até não poder mais e quando via que o filho estava à beira da morte, acabava indo.

Preguiçoso que nem Bidu, na região, não existia. Além de preguiçoso, era medroso, muito medroso. Para ir até a Loca de pedra, Bidu só ia acompanhado de uma comitiva, tinha que convocar alguns trabalhadores, além de se fazer acompanhar da sua matilha, com exceção, é claro de Veludo Preto, nele Bidu não mandava. Todas as vezes era um deus nos acuda, melhor dizendo, deus me acuda, porque sempre sobrava para mim, isto é, se fosse de dia.

Quando Tonhão vinha, fazia umas coisas estranhas com rabo de cobra, defumação com pêlos de animais, cantigas inaudíveis, danças esquisitas, muito mato e fitas coloridas. Seu Tonhão rezador era bom mesmo. Pouco tempo depois, o doente já estava quase curado, só não ficava bom na hora, porque tinha que comer pirão de parida com galinha branca.

Seu Tonhão e Abel, seu filho, eram negrões de olhos vermelhos e tinham os pés bem grandes. Lembro como se fosse agora, aqueles pés enormes, cheios de espinhos e aquelas unhas compridonas assim, parecendo unhas de tamamduá. Eles eram gente boa, mas eram muito feios. Nossa! Como eram. Eles também não tomavam banho e suas roupas esfarrapadas não cobriam a totalidade de seus corpos, pareciam espantalhos enegrecidos. Bidu tinha muito medo deles, ficava sempre afastado, e quando o homem pedia um mato, ele tratava logo de mandar pegar.

Voltando, né! Isso foi só um fervor.

Na cidade, dona Paulina foi acometida de uma patologia desconhecida. Os homens de branco, após labutarem em vão, encaminharam-na para um centro mais desenvolvido, Cidade de Itabuna. Lá a peleja continuou, exames pra cá e pra lá, até chegarem a um diagnóstico, era um cisto.

Informaram-na, na linguagem técnica, do que se tratava. Ela absorveu uns dois por cento da informação. Como o hospital de Itabuna não tinha condições técnicas para realizar a operação de extração do cisto, prepararam a documentação, encaminhando-a ao HC - Hospital das Clínicas - de Salvador. Imediatamente ela convocou Bidu e passou-lhe sua problemática. Correria pra lá e pra cá e depois de aparadas todas as arestas, os preparativos da viagem iniciou-se. Dona Paulina embarcou rumo a Salvador, levando na bagagem a incerteza, a inexperiência e a saudade, muita saudade.

Dois dias depois do embarque, chegou a notícia bombástica, o ônibus da viação Sulba (Viação Sul - Bahia), prefixo tal, havia caído na Ladeira do Maçal e não havia sobrevivido ninguém. Todos os ocupantes do veículo haviam morrido, inclusive o motorista, e como o local era de difícil acesso, vários passageiros estavam desaparecidos. Foi uma correria danada. A minha irmã Dega (Mara) desmaiou na calçada e, enquanto os vizinhos tentavam arrastar o seu corpo para dentro de casa, as pessoas da rua que se achegavam, imaginaram que aquele corpo era de minha mãe. Aí o panavueiro se estalou de vez.

Quando os ânimos se amainaram, despacharam alguém para a fazenda em busca de Bidu que, ao chegar, já veio chorando. Embocou-se na casa e imediatamente fez uma rodilha dos filhos, juntou todos a seu redor e se agigantando, abraçou todos ao mesmo tempo.

Como ele era bem conceituado na cidade, em pouco tempo nossa casa ficou cheia de gente, aquele converseiro, aquela gritaria danada, um verdadeiro caos. Meu Deus! Só de lembrar, morro de dó de meu pai. Ele ali, agarrado com a gente, completamente perdido no meio de tanta gente e sozinho ao mesmo tempo, transtornado, gritando e cuspindo todos os seus sentimentos, em lampejo de lucidez e loucura.

De repente, deixando prevalecer mais a loucura, desmanchou a rodilha de meninos e partiu que nem touro bufento casa adentro, indo direto para a cisterna lá no quintal. Todos acorreram para lá também, e encontraram-no debruçado na boca do poço, todo descabelado, esfarrapado por dentro e por fora, xingando todos os palavrões que conhecia misturados com versos sacros e lamentações, e no afã de seu desespero, dizia: - Vou me matar! Como posso viver sem a minha véia e ainda com essa cagedada de criança, meu Deus! E fazia todos os trejeitos possíveis, típicos dos desesperados. O nariz escorria e ele limpava com a manga da camisa; assoava o nariz e limpava de novo. E assim, continuou por algum tempo. Deitava na beira do poço, olhava para seu interior, levantava e dava seu show, até que um doido daqueles presentes e um pouco mais lúcido que ele, foi buscar dona Josepha Bernardino. A dona Josepha era para ele um tipo de mãe. Ela entrou casa adentro e foi logo dizendo: - Bidu, vamos acabar com essas coisas. Se a sua mulher morreu, quem tem que criar os meninos é você. Então, vamos parar!- Bidu imediatamente obedeceu, limpou o nariz na manga da camisa e deixou a beira do poço.

Acho que naquelas emborcadas que deu na cisterna, percebeu que o tombo seria doloroso e dolorido, então acatou as ordens da sua mãe veia, como ele a chamava e não pulou no poço.

Conversa vai e conversa vem, a notícia já tinha se espalhado pela pequena cidade e pessoas com mentes mais desanuviadas surgiram para auxiliar e, dentre elas, Sr. Lafayete, que se prontificou a desvendar os fatos.

Com o seu fusquinha bege, foi até a cidade de Itabuna. Naquela época, não existia telefone na região, então ele foi beber da água na própria fonte, e assim o fez. Na garagem da empresa de ônibus, veio a confirmação da desagradável notícia. Realmente havia ocorrido o acidente, e o nome de dona Paulina Calixto dos Santos constava na relação de embarque. Dois ou três dias depois, veio a pior notícia: dos trinta e tantos passageiros acidentados, uma quantidade considerável não havia sido localizada, pois o local do acidente era de difícil acesso, uma pirambeira. Nossa! O choque era terrível! E se ela não tivesse morrido na hora? Se estivesse enganchada numa árvore ou cipó e sofrendo de fome, sede e dor?

Em resumo, coisa de uma semana depois, as buscas cessaram e foi baixada uma lista geral e definitiva, na qual o nome de uma passageira foi grifado com lápis vermelho, e à frente se lia: “desaparecido”.

Aí a cuia entornou de vez. O coitado do Bidu, desesperado, sem saber qual o rumo tomar, abandonou os afazeres na fazenda e ficou na cidade com todos nós, e passo-a-passo o quadro foi se agravando. Se na roça ele já era o que era, imagine na cidade, onde os papéis se invertiam, pois para ele a cidade era a selva e ele se perdia com facilidade, não sabia o que fazer nem que rumo tomar. Mas como tudo na vida, em determinado momento tem uma solução, a solução que Bidu encontrou foi tirar todos os meninos da escola e levá-los de volta para a fazenda. Dizia ele que lugar de pinto era embaixo da asa da galinha e que agora ele era galo e galinha. Chorava e nos agarrava, o nariz escorria, passava os dedos pelos seus lindos e escorridos cabelos e demonstrando que realmente não era somente o galo, dava banho em alguns de nós e preparava a comida – era uma dificuldade tremenda. O banho era tomado com canequinha e o fogão, no qual se esquentava a água, era alimentado com carvão vegetal.

E quando estava nos preparativos de mudança para a fazenda, eis que emboca casa a dentro a “morta”, foi uma gritaria, um corre-corre danado, até que as coisas se assentaram e puderam ouvir dona Paulina. Eis o relato:

No dia do embarque, a lotação que a conduziu até a rodoviária de Itabuna teve um pneu furado e como a chave de roda do veículo estava gasta, o motorista não conseguiu trocar o pneu. Ficou labutando pra lá e pra cá, até que conseguiu parar uma outra camioneta e substituir o pneu furado. Quando chegaram a rodoviária, o ônibus já tinha partido. Ela entrou em desespero e chorando em bicas, foi socorrida por um fiscal de linha que a conduziu até a administração e lá se ajeitaram no sentido de colocá-la no ônibus que partiria naquele mesmo dia, às dezenove horas.

Chegando a Salvador, com muito sacrifício, foi se encontrar com dona Julieta, uma ex-empregada da fazenda que havia se prontificado, via carta, em ajudá-la com acomodações nesse momento tão difícil de sua vida. E assim ela foi, com um terço na mão e o papelzinho com o endereço da mulher.

Resumindo, dona Paulina, chegou no dia seguinte ao embarque, na casa da tal mulher, uma favela localizada no bairro de Pau Miúdo, tendo como cicerone uma das filhas da anfitriã, que a conduziu até o Hospital das Clínicas, onde foi efetuada nova bateria de exames e ao final confirmado o maligno cisto.

Na última vez em que saiu do hospital, minha mãe, em completo estado depressivo, pois a operação se realizaria daí a três dias, foi acalentada pela menina que lhe fez um pergunta até certa altura inconveniente.

- Dona Paulina, nóis já tá aqui mermo, vamo dá um pulo ali?

- Ali onde? - perguntou Dona Paulina.

- Ali numa roça.

- Mas que Roça é essa se aqui é cidade?

– É um terreiro de candomblé. Mas a senhora num pode falar não. Senão a minha mãe me mata. Ela é crente, a senhora sabe, né?

Dona Paulina pensou, pensou e depois perguntou:

- É longe?

- Não! É aqui mesmo no Pau miúdo.

- Então, vamos.

E foram. Lá chegando, foram recepcionadas e recambiadas para uma anti-sala. A menina ficou esperando e minha mãe foi levada para um quartinho.

Quando ela entrou, assustada, olhou para todos os lados e imediatamente localizou num cantinho um senhor de idade avançada e da raça negra, que fez sinal pra ela se aproximar e mandou-a sentar-se num tamborete. Ficou algum tempo calado, com a cabeça abaixada e quando falou, falou na linguagem dos “Pais-pretos” (entidade espiritual afro-brasileira) e disse:

- Zifia, uncê num tem nada não, uncê num tem doença de branco, não! Vá lá e dismanche o que o home de capa branca mandou fazê, pruquê, zifia, tu tá esperando buguelo! E tem mais, viu zifia, corre pra casa, pruquê os otro buguelo tá correndo perigo. Agora pode ir, zifia!

Quando ela quis se levantar, ele disse:

- Pera aí, zifia.

Levantou-se com certa dificuldade, foi até uma mesinha de “santo” e voltou trazendo um patuá, que foi colocado na alça esquerda de seu sutiã e ainda lhe deu uma imagem da mamãe Oxum, Nossa Senhora, e um saquinho de pó de pemba, que era para derramar em casa, e uma espécie de sabonete, pois segundo ele as crianças estavam sob efeito de feitiço.

Dona Paulina saiu toda cheia de desconfiança e medo, mas resolveu fazer o que ele havia mandado. No dia seguinte, logo cedinho, pegaram o ônibus e foram até o Hospital das Clinicas. Lá, após muita labuta, conseguiu que fosse realizada nova bateria de exames, e qual não foi a sua surpresa quando saiu o resultado. Ela realmente não estava doente, estava sim, esperando uma criança, o tal buguelo, e munida de toda documentação, tratou logo de comprar a passagem de retorno, e quando chegou à sua casa, na cidade de Itajuípe foi toda aquela confusão, já narrada acima. O tal buguelo, como nasceu enrolado, também se chamaria Raimundo. Como já existia outro Raimundo, resolveram botar-lhe o nome de Luís Raimundo.

RAYSAN DE SOUZA
Enviado por RAYSAN DE SOUZA em 28/10/2008
Reeditado em 16/01/2011
Código do texto: T1252413
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