SEMÂNTICA ARREVESADA

O dia era de festa, na casa provinciana das Irmãs de Jesus Crucificado, em Parnaíba. Razões suficientes para o clima de alto astral, ali reinante, pois era a data de posse da madre superiora, que estava a inaugurar uma residência das irmãs, naquela cidade.

Convidado de honra, o bispo diocesano, D. Paulo Hipólito, da Capital, fora assistir à solenidade de posse da gestora que ia pegar o novo pepino do lar das religiosas.

Missa, orações, breve recital de poemas e mais números artísticos. Tudo isto com os aplausos do distinto público da sociedade local, que se fez presente à cerimônia simples, porém bem organizada e concorrida.

Findos os atos de praxe, apenas um grupo seleto de freiras e o bispo foram para o lauto almoço.

Conversas informais à mesa, lá pelas tantas uma freira quis realçar ainda mais as qualidades da empossada e atacou, mesmo assim, de semântica arrevesada:

– Aqui, D. Paulo, todo mundo acredita no grande trabalho que nossa comunidade vai fazer, na ‘gestação’ da madre Maria Luísa.

Aí, nesse exato ponto do papo, e ainda de mesa farta, mais de vinte olhos se cruzaram, todos admirados e já medindo o estrago verbal da distraída, que proferira – tão eloquentemente – tamanha elocução.

Ao fim da sentença da irmãzinha, cerca de minuto e meio de silêncio. Foi, daí, que o bondoso bispo, fazendo vez de bombeiro, achou uma solução pragmática e, pigarreando baixo, queixou-se do calor escaldante que fazia, por aquela época, no Piauí.

Fort., 30/04/2009.

Gomes da Silveira
Enviado por Gomes da Silveira em 30/04/2009
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