TRÊS LATINO-AMERICANOS

O dia de luar mais branco que passei em minha vida deu-se precisamente, uma vez, quando, fazendo noite histórica no País, estive homiziado num infecto calabouço. Infrator, eu, pulha ou falsário, para lá cair no fojo e ver a Lua quadrada? Apenas preso político-ideológico, ou, como diria mais tarde o Dias Gomes, num título de livro, “Apenas um subversivo”.

Três vizinhos meus, hóspedes da suíte em frente, eram latino-americanos, todos eles usuários da língua hispânica. Entre as duas celas, havia um pátio ao ar livre, que nos delimitava as fronteiras. Da solitária em que me aboletara, durante o dia todo eu examinava com atenção redobrada o movimento dos rapazes de nacionalidades diferentes.

De início, imaginei-os ‘chicos’ de Havana, mesmo porque a guerrilha do Araguaia estava em pleno curso. Não sendo preso comum, mas pomposamente chamado de “prisioneiro político”, eu não podia usufruir do privilégio de ter companhia. A cela defronte, portanto, habitada pelos três estrangeiros, é que era festiva, boa para nela quebrar-se a monotonia do confinamento.

Um dos rapazes, marmanjão viciado em drogas, era muito neurastênico. A todo instante, amarrava peças de roupa a fim de poder pescar coxias de cigarro, no ‘hall’ que nos dividia. E parecia impaciente como o frangote que festeja a carijó, pela primeira vez, antes do seu alpinismo. Nascera em Lima, no Peru, e era ‘hippie’. Quando o peruano não conseguia o seu intento, ou seja, alcançar as baganas do pátio, então esmurrava a grade do cárcere, com animalesca agressividade. Nunca me encarou, lá do seu cubículo, tampouco jamais me dirigiu palavra. Era um abúlico do convívio humano, a olho nu, senão um neurótico integral.

Outro inquilino da masmorra, à margem do poluído riacho Pajeú, bastante recatado, dizia ser de nacionalidade argentina. Ressalte-se que 1973 era um ano marcado por violentas perseguições políticas, na América Latina, em especial na Argentina, Chile, Uruguai e no Brasil. O varão argentino era alto, atlético, loiro e, como se costuma classificar camaradas assim, uma figura bem-apessoada. Polido nos modos e calmo nas ações. Chamava-se Jimmy, mas, quem sabe, talvez esta graça fosse um pseudônimo.

Jimmy estudara Sociologia, na Universidade de Buenos Aires, todavia, sem concluir o curso – segundo revelou, quando me fui embora –, pretendera “fazer uma experiência ‘hippie’” na América do Sul. Ao sair da gaiola, à noite, com muito prazer, servi-lhe de mensageiro, pois, tal me solicitara o obséquio, prontamente passei telefonema para a residência, na Aldeota, lá onde o galego bonitão constituíra uma namorada.

– A mãe do Jimmy ligou, hoje, à tarde, de Buenos Aires, chorando convulsivamente, e num espanhol que ninguém entende – disse-me, ao fone, a voz da jovem da Aldeota.

O terceiro ‘hippie’, com quem travei maiores contatos, num clima amistoso e até solidário, foi o Vicente. Uruguaio de origem, e, conforme segredou, quase aos sussurros, fora marinheiro e militante dos “Tupamaros”, um grupo guerrilheiro lá deles, que atuara com relevo no seio das organizações da esquerda uruguaia. Cansado de sua pátria, também debaixo do ferrolho de uma ditadura, lá um dia, ele abdicou da farda e da “subversão”, ganhando novos caminhos pela América Latina, agora desfraldando a bandeira dos ‘hippies’. Dos três, com jeitão de líder, Vicente devia ser o mais anoso.

Um “flashback” que se faz necessário: demos um pulo ao primeiro parágrafo destas linhas. Era madrugada alta, argêntea como um prato de louça muito alva. Acordei, e foi então que se levantou do catre imundo a minha pessoa. Da grade em frente, já o rosto de Vicente contemplava o alvor da Lua, que ia rente à torre da Sé. Foi, portanto, no ar do silêncio grande que o estrangeiro e eu entabulamos conversa.

Vicente quis saber de mim, o que eu andara fazendo, mas me fechei em caracol. Na verdade, nada fizera de mal a ninguém. Contudo, a burra ditadura via comunas até na sombra das árvores e prendia e batia e torturava, a torto e a direito. Até que nesse frenesi da corda que os ianques davam aos generais de plantão, no Poder, muita gente embarcou para não mais voltar. Isto é funestamente verídico; aconteceu, e no Brasil brasileiro.

Ora, eu não me ia abrir fácil com aquele gajo, de modo algum. Na dúvida, podia ser que ele fosse um agente da CIA. Então um provocador que se infiltrara no recinto dos presos políticos, querendo colher frutas maduras. Mas tanta a intuição do ex-tupamaro que ele não tardou em descobrir o verdadeiro motivo pelo qual também estava ali engaiolado.

Pessoa sensível, o Vicente. Onde andará ele, ao ensejo em que garatujo esta garranchada de letras? Prometeu-me alguns poemas de famosos do Uruguai, sua pátria, também do Neruda, lógico que tudo em espanhol. E logo que raiou o amanhecer, cumpriu com a promessa. Porém, ao ser arremessado o bolinho de papel com os escritos, o “tira” do plantão noturno receptou o despacho e o embargou no ato. Ainda disse que iria olhar e devolveria. Não o fez, nem mais o vimos. O meganha Mendes deve ter ido bisbilhotar ou tentar traduzir a perigosa mensagem vermelha e mostrá-la para o mandachuva delegado.

De um dos ‘tiras’, quando fui recambiado para um andar de cima do prédio, ouvi que os três tipos estrangeiros ali estavam para purgar sua culpa de tarados. Num xadrez coletivo da Polícia Marítima, lá para as bandas da praia, onde permaneciam, até dias antes, eles quiserem currar uma companheira peruana. A pobre quase traçada pela voracidade dos canibais infratores. Cheguei a ver a moça, baixota sem grandes cabedais no corpo e, de rosto, bem à feição das nossas silvícolas da Amazônia. Bem feito: quiseram avançar na companheira também ‘hippie’ e o resultado foi os carinhas irem dar com os costados na sede da PF, onde o espaço vital era mais ancho.

Diacho é que perdi a leitura dos versos enviados pelo Vicente, que se me quedava à distância. E porque o gentil envio não me chegou às mãos, uma vez que não manjo quase o espanhol, estou certo de que a literatura hispano-americana não perdeu muito em matéria de divulgação.

Fort., 23/11/2009.

Gomes da Silveira
Enviado por Gomes da Silveira em 23/11/2009
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