Vida BREVE

Há dezoito mil seiscentos e cinqüenta e cinco sóis, minha mãe ardia em dores essa hora. O motivo?Em Yapei, nascia mais uma indiazinha. A guerreira Manizezé daria luz a uma menina que nasceria antes do sol a pino. Sim, com dores de parto, minha mãe foi atendida por Dona Irozita, a parteira chamada às pressas para, adentrando as escarpas, pisando as pedras, deglutindo saliva e despejando água pelos poros, proceder ao corte umbilical. Quando finalmente fui separada da placenta, minha mãe provavelmente deve ter chorado comigo, que já chorara, pois nasci sem auxílio, enquanto esperávamos as mãos sábias de Dona Irozita. Além disso, a cama quebrara ante as tentativas frustradas de esconder-me, pois advinha o que ocorreria. Minha mãe teve uma desilusão, meu pai outra. Era mais uma menina num sítio onde havia carência de curumins guerreiros. Creio que a placenta foi enterrada junto com o desejo desse menino esperado. Pois é comprovadamente improvável que a placenta tenha sobrevivido, embora eu teime em crer assim...
Há dezoito mil trezentos e sessenta e algumas luas eu fui desmamada, nascia mais outra indiazinha. Dessa vez Dona Irozita foi preterida por outra, já estava quase cega. Essa foi aparada por dona Ilda a Terramacaquense, afamada por suas aparadas em meninos.
A outra de pele alva, banhou de lua o coração de meus pais, e inexplicavelmente, não lembro de ter ouvido tanta lamentação. Eu a olhava sossegada em sua cadeira de descanso, enquanto minha mãe trabalhava. Achava-a uma primorosa criação e era muito quietinha...Silenciosamente observando!
Há dezoito mil seiscentos e cinqüenta e cinco sóis, Yapei era denomina da Belém lá em nossa aldeia...Ouvíamos muitas vezes as caravanas ao descerem para registrar um novo curumim ou uma “tupi” indesejada: - “Quer alguma coisa de Belém?”.Enfim assisto, aos dezoito mil seiscentos e cinqüenta e cinco sóis, que nunca houve indígenas nessa terra.
É uma história de estigmatização da realidade das guerreiras amazonas e do menino que foi enterrado...Uma lenda sem pé nem cabeça contada por gente maliciosa que nada entende de morte de uma língua...
Há dezoito mil seiscentos e cinqüenta e cinco sóis dou graças a meu pai e minha mãe, pelo privilégio em ter sido alimentada, no seio de minha família, embora as promessas Getúlio, que incentivava a procriação, através do salário família não tenham seguido o curso das despesas e tenhamos eu e minha gente, filhos do mesmo pai, sofrido com essa inconsequência.
Há dezoito mil seiscentos e cinqüenta e cinco sóis...Somos sustentados com trabalho e decência...Muito choro, muita lamentação e muita gratidão ao Deus que criou céu e terra, mar e tudo que nele habita.

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Escrito em 05-02-2010 quando alua ia alta e o sol quase despontava***
INEZTEVES
Enviado por INEZTEVES em 08/02/2010
Reeditado em 16/08/2011
Código do texto: T2076709
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