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A VISAGEM PELADA.

 

A VISAGEM PELADA.

A vida na sua totalidade era uma rotina de dar dó. Não havia nada a fazer senão escutar o que os mais velhos contavam. Eram contos repetidos e chatos.
Sim e como eram chatos.
Aos domingos a missa com os mesmos sermões e as mesmas cantorias.
Moças, moçoilas, rapazes e rapagões, viviam a se olhar de enviesado. Alguns até se atreviam a olhar mais direto, o que deixava as donzelas meio tontas. Um puritanismo meio abrasileirado. Vestidos longos, mangas com punhos fechados. Meias grossas e sapatos que cobriam todo o tornozelo. Um flerte aqui outro que lá e assim era a vida.
Certo dia apareceu na pataca cidade uma moça. Moça? Era muito mais do que se poderia imaginar. Era um furacão em forma de mulher. Esbelta, loira, lábios finos, queixo delicado, busto suave, cintura delgada, andar firme e pecaminoso.
O filho mais velho de seu Pepinho, um bananeiro que também vendia rapadura, melancias, laranjas e ervas ficou encarregado de levar as malas e as sacolas da dita criatura, até a casa do pároco. Uma mulher na casa do padre? Aquela que anda sacudindo as ancas? Não acredito. E se o padre se engraçar com ela? Ora, não sabe? Nasce uma mula sem cabeça. Cruz credo.
Mistério desfeito. Era irmã mais nova do padre.  E o filho do seu Pepinho daquele momento em diante ficou encarregado de levar as frutas, as verduras, ovos e tudo mais que irmã do religioso pedia. Um dia seu Pepinho que além ser vendedor de bananas e outras coisas mais, sumiu da cidade. Não se alarmaram porque tinha uma mania de procurar ouro e diamante. E então quem tomava conta dos negócios era o filho do seu Pepinho. Que por sinal se chamava Pepão. Alto, moreno de olhos azuis. Quando tirava a camisa e deixava a amostra seu tórax peludo e musculoso, as beatas desmaiavam e as beatinhas então...
A demora de seu Pepinho, já começara a incomodar. Dois dias, três dias era normal. Mas se passara dez dias e nada do bananeiro voltar. A noite escura como um breu. Não havia um rastro de luz. A batida na janela e aquela voz: Acorda Pepão. Acorda Pepão. Sou eu seu pai. Acendeu o candeeiro e abriu a porta. Era o velho pai. Os olhos brilhavam de uma forma diferente. Na mesa da cozinha, por sinal a única, o velho pai abriu o embornal e despejou pepitas e pepitas de ouro. A balança de prato serviu para pesar. Quatro quilos de ouro. Pai do céu. Donde veio toda esta ourama? Ora de onde virá mais. Você alevanta tábua do assoalho do quarto, debaixo da cama e guarda a ourama dentro de um saco de couro. Eu volto daqui uns dias. Fica pai. Fica senão o povo vai pensar que o senhor morreu. Cruz credo. Então eu fico. Vamos alevantar a tábua e guardar o nosso ouro. Impaciente. Não dormia direito. Uma semana depois já estava na lida do ouro. Voltou. Madrugada chuvosa. Agora não eram quatro quilos, mas 11 quilos de ouro. Pai do céu. E se alguém descobre? Só se você falar mais que boca. No final de um ano, o assoalho mais rico do mundo era o da casa do seu Pepinho. Morreu. Morreu? Mas como morreu? Dizem que foi de congestão. Comeu banana verde. Além de ser meio maluco com este negócio de ouro, era guloso que só. Ficou o Pepão com as vendas de banana, mamão, laranja, melancia e rapadura.
Não acredito. Ela vai casar com o Pepão? E o vigário o que é que diz? Ora quem vai casar é ela e não padre. Casaram. Pepão reformou a casa. Montou um armazém de secos e molhados. Mas não dava bandeira do que era dono. E a vida continuou na sua marcha. Construiu casa nova. Comprou mais duas vendas, que as transformou em armazém. Progredia a olhos vistos. O cunhado então não se cansava de elogiar Pepão. Também já batizara oito filhos. Pepão era o homem que mais compadre tinha na cidade. Morreu? De parto? Morreu. Simplesmente morreu. Coitado do Pepão. Gostava tanto da mulher. As más línguas diziam que morreu de tanto fazer filho e quando não tava esperando, mandava a criança brincar na praça. Nos dias de chuva então, mandava a filharada para a casa do tio e ficava na cama com Pepão, até não poder mais.
Cumpadre. Me escuita uma coisa. A não haverá de ser que dita finada, deu de me aparecer todas as noites. Cruz credo, Ave Maria. Mas como cumpadre? Como assim? Pois é como é que finada da comadre deu de aparecer? Não rezou a missa de sétimo dia? Rezei de sétimo dia, de trinta dias e todo o mês no dia do passamento, o cunhado padre reza missa na intenção da irmã.
Mas cumpadre, o que vou lhe contá, por favor, pelo amor de Deus, não fala com ninguém. Nem com a sua mulher, minha comadre. Promete? Então faz o sinal da cruz em cima da boca.
Me conta de uma vez e não me deixa com a barriga roncando de curiosidade. Pois então escute. A finada tem aparecido pelada.
Pelada? Fala baixo. Isto mesmo nua em pelo. E vou lhe contar mais uma coisa. Em todos estes anos de casado, eu nunca via a minha mulher pelada. Nem no dia do casamento? Não. E depois? Também não. Não acredito. Oito filhos e não viu a mulher pelada? E nas tarde de chuva? Ora ela fechava tudo e punha pano preto. E depois de certo tempo, ela me punha uma venda nos olhos. E eu nunca via minha mulher pelada.
Agora ela aparece de lado, de frente, de costas, de tudo que é jeito. Me deixa suando frio. Numa noite destas ela apareceu e ficou ajoelhada na cama com as mãos pra frente, apoiadas no colchão. Parecia uma cachorrinha. Eu já não sei o que fazer. De primeiro pensava que era sonho. Mas não era. Era aparição. É pura visagem.
Os dias passavam. Pepão já não dormia direito. Ficava ansioso para que a finada aparecesse. E aparecesse pelada. Quando aparecia, era um momento de transe total. Cabelos caídos por cima dos seios. Provocante e fascinante.
E então cumpadre? A finada comadre tem aparecido? Tem.
Me conta aqui no pé do ouvido. Pois fiquei meio surdo dos ouvidos. O doido do homem que veio fazer poço lá em casa, explodiu uma dinamite no quintal, que fez um estrago que dava dó. Não ficou um vidro das janelas, inteiros. Morreu mais de 30 galinhas de susto. As vacas cortaram o leite. Por isso cumpadre é que eu não estou escuitando direito.
Me conta no pé dou ouvido, mas não fala muito perto, que eu me arrepio tudinho. De uns tempo pra cá, depois que fiquei meio surdo, quando alguém fala muito perto dos meus ouvidos, eu ficou tudinho arrepiadinho, arrepiadinho...
E então Pepão contou. Agora dera para aparecer quando tomava banho. Quando trocava de roupa e dera agora de sentar à beira da cama. Sentada? Pelada? Não acredito. Cumpadre chega pra mais longe, que estou ficando arrepiado. Arrepiado por caso de visagem? Não é que o compadre fica muito pertinho dos meus ouvidos.
Mas me diga uma coisa, cumpadre. Tem certeza que era a finada comadre? Duvida? Quem sou eu para duvidar. Mas me diga uma coisa. Assim, na coxa direita da finada comadre, aparece uma mancha preta redonda?
Aparece. Mas escuta aqui. Como é que o cumpadre sabe disto? Desta mancha preta redonda?
Nunca mais se falaram. Pepão casou de novo. Mas fez questão de falar para a futura mulher, que só casava com ela, na condição dela ficar pelada na frente dele.

Agora Pepão, enxerga todas as noites a finada pelada com a mancha na coxa e a mulher de carne e osso.
Quanto ao ouro, só Pepão sabe sobre qual tábua do assoalho do quarto de dormir que ela se encontra.

 Romão Miranda Vidal.

ROMÃO MIRANDA VIDAL
Enviado por ROMÃO MIRANDA VIDAL em 26/01/2007
Código do texto: T359118

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Sobre o autor
ROMÃO MIRANDA VIDAL
Curitiba - Paraná - Brasil
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