O ZECA E O SEU RIVAL

Zeca, o meu Primo do caso abaixo, “São João Cura”, era bem alto, moreno bronzeado pelo sol nas labutas da roça, bonitão, segundo as meninas que eram caídas por ele. Mas era meio bagunceiro, bebia suas pingas e não recusava uma briga e mesmo sendo muito respeitador, trabalhador e correto com seus compromissos aos pais não agradava a idéia de suas filhas se apaixonarem por ele.

Ele sempre aprontava alguma. Certa vez ele andava meio “caído” por uma moça filha de um fazendeiro lá pelas bandas das terras da sua família. Começou a visitar a família cada vez mais freqüente e a Dorinha gostava, mas a família não.

De repente o Zeca descobre que surgira um concorrente! Era um moço um pouco mais novo do que o Zeca, simples, direito, muito trabalhador e tantas outras qualidades semelhantes às dele, mas sem os seus defeitos como diziam as más línguas. O Zeca não gostou da História. Um dia ele comentava o assunto com o meu pai, a quem ele chamava de “meu padrinho”, por consideração. Acho que pelos bons conselhos que ele sempre ouvia. Dizia que estava estudando um jeito de tirar o rival do caminho da moça, ou seja, do seu caminho. Uma maneira que ele pensara seria dar uma boa surra no danado e avisar que caso ele voltasse a procurar a Dorinha a surra seria dobrada. Mas pensou melhor porque ela poderia não gostar e considerá-lo violento o que mulher não gosta. Afirmou que iria “ajeitar” uma boa para ele, era questão de tempo.

Numa tarde de domingo, abriu um sol muito bonito depois de muitos dias de chuva. O Zeca deu vontade de ir ver a Dorinha mesmo sabendo que o Vicente seu rival estava caindo no agrado da moça e de toda a família. Fez a barba, passou um perfume caro, vestiu umas roupas bonitas e montou o seu cavalo que tinha fama de ser dos melhores da redondeza. Ia pela estrada ainda lamacenta quando avistou bem à frente uma pessoa indo na mesma direção e quanto mais se aproximava mais ele tinha certeza que se tratava do “marvado” do Vicente. Assim que ele fora alcançado o Zeca muito sorridente o cumprimentou cordialmente e foi logo estabelecendo o diálogo:

- Garanto que ocê tá indo prá casa da Dorinha!

- Tô.

- É uma boa moça. Parece que ocês tão num namorinho?

-É.

Aí o Zeca notou que ele não estava muito à vontade na sua companhia e deduziu que já sabia do seu interesse pela mesma moça. Então teve uma ideia e foi logo dizendo:

- Mas ocê vai assim a pé e sem levar nenhum agrado? Moça bonita tem que ser bem tratada e até mimada. Vamo fazê o siguinte, empresto o meu cavalo, pode até falar que está me comprando ele, limpa o barro dos pé, munta nele e entra aqui no cerrado e panha uns articum, (araticum), bem maduro e coloca no bornal que tá aqui no arreio do cavalo. Pega um mais maduro e esfrega bem no bornal prá ficá mais cheroso e leva de agrado prá ela. O home tem que discubri o que a moça gosta se não ela arruma outro.

Ele escutou tudo em silêncio e achou que o Zeca estava com a razão e aceitou a sua oferta. Montou no belo animal, encheu o bornal com as frutas mais bonitas que viu, esmagou uma e esfregou bastante no bornal espalhando o forte cheiro que podia ser sentido à distância e se dirigiu à casa da menina dos seus sonhos. Ao chegar deixou a porteira bater para chamar a atenção e a moça chegou à janela e o viu montado no cavalo mais famoso da região e ela e outros da família foram até a porta para recebê-lo como era de costume na região. O Vicente então chama a Dorinha para mais perto do animal, ela vai se aproximando enquanto ele tirava o bornal que se encontrava preso ao arreio. Ele todo sorridente entrega a ela o bornal cheio de araticum e úmido do que ele esfregara no mesmo. Quando a moça ia receber o presente sentiu o forte e característico cheiro tão conhecido, deu um baita pulo para trás e fazendo vômitos saiu correndo para dentro. O pai que estava próximo balançou a cabeça e explicou que desde menina ela não suportava aquele cheiro. O pobre todo sem graça aceitou o convite para entrar e a Dorinha nunca mais quis aparecer para ele.

Um pouco mais tarde chega o Zeca todo sorridente e dando suas inconfundíveis gargalhadas. O Vicente o olhava de lado e não demorou, se despediu e disse ao Zeca:

- Tô ino simbora, seu cavalo num me interessa, ele e o dono fede articum. Aproximando mais ele disse só para o Zeca:

Ocê ainda me paga seu fedazunha. Nunca vô isquecê essa!

O Zeca continuava dando suas gargalhadas por ter espantado o rival e por saber que a Dorinha gostava tanto de ouvi-las. Tomou todo o cuidado para não se aproximar do bornal que se encontrava nas proximidades e foi todo dengoso “consolar” a moça.

Daquele dia em diante se alguém queria boas gargalhadas era só falar o nome da fruta perto do Zeca, mas se falasse perto do Vicente a confusão estava feita.

JFerreirinha
Enviado por JFerreirinha em 04/11/2013
Reeditado em 03/07/2014
Código do texto: T4556270
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