A boca de sapo

A BOCA DO SAPO

Rosemeri, menina de dez anos desesperava. Precisava entregar no dia seguinte, seu trabalho na aula de Artes (trabalhos manuais), mas não achava um pedaço de tecido vermelho, que servisse de boca para o sapo que tinha preparado. Com a ajuda de sua mãe, unira as partes do sapo com uma costura, depois fez os olhos o nariz, mas faltava a boca.

Correu na vizinha, na casa da tia, nada de encontrar o pedaço de tecido vermelho. Olhou para a máquina de costura de sua mãe e teve um lampejo era tudo o que precisava. Esperou a mãe ir dormir e no escuro ela cortou com a tesourinha de unhas um pedaço da capa da máquina. Costurou do seu jeito o tecido vermelho no sapo de tecido e algodão. Escondeu dentro de uma bolsa grande de mercado e na manhã seguinte tratou de escapulir com a bolsa para a escola sem comentar com a mãe o jeito que dera para o sapo ter uma boca.

A professora não gostou muito do sapo, disse que a boca estava torta, mas deu um sete. Rosemeri ficou desapontada. Esperava uma nota maior. Voltou para casa desanimada. Tivera tanto trabalho e chegara a sacrificar a capa da máquina de costura de sua mãe. Em sua cabeçinha tentava entender o que fazia uma professora desconsiderar todo o trabalho que tivera e lhe dar um sete. Por outro lado, sentia-se decepcionada com a falta de consideração de sua mãe. Achava que ela podia ter dado mais atenção ao seu sapo, e poderia ter cortado uma parte do tecido vermelho da capa de sua máquina de costura. Se ela tivesse dado sinal verde, e ela mesma cortasse o pedaço de tecido que a menina precisava talvez a boca do sapo não tivesse ficado torta. Talvez? E também a capa da máquina não estaria perdida com um tremendo buraco bem no meio.

Quando olhou para a sua mãe, já sabia que havia algo errado. Ela a esperava com um fio de ferro dobrado e começou a disparar golpes na pequena Rosemeri. A menina ficou toda marcada. Sua genitora descarregava toda a sua raiva na menina e ia gritandao como uma louca. Quando seus braços estavam cansados ela parou. Rosemeri nem chorar podia, estava tão desesperada que nem sabia ao certo o que estava acontecendo. Jamais tinha levado uma surra daquelas. Algumas vezes levara uns beliscões; Ficou sentada lá no chão perto da máquina de costura, não tinha ânimo para nada. Estava machucada, marcada, cagada e mijada. O pânico fez com que ela ficasse ali parada por muito tempo.

Naquela tarde ela descobriu como uma mãe pode ser cruel e má, quando suas leis são desobedecidas e o castigo uma verdadeira tortura traumatizante. Alguma coisa infantil se quebrou dentro dela para sempre. Ela percebeu que não podia fazer tudo o que queria para alcançar seus objetivos e aprendeu também a conversar consigo mesma e refletir sobre o universo que a rodeava além daquele quarto, daquela máquina de costura, acima do velho telhado que cobria sua cabeça.

Morria a menina que acreditava ser sua mãe sua melhor amiga. Nascia além do horizonte escuro uma alma perdida, que começou a vagar pelos cantos da casa, e a assombrar todas as pessoas que lá moravam.

Esquecida num canto qualquer ficou a almofada de sapo com a boca torta, enquanto o irmão mais velho saiu correndo porta a fora, para procurar alguém e pedir que viesse ver o que estava acontecendo com sua irmã. A mãe não estava ,tinha saído para entregar algumas costuras. A vizinha Dona Alda veio correndo pelo comprido corredor, entrou,e sentiu um arrepio de pavor, ao ver a menina ali sentada imóvel. Seus olhos estavam arregalados,e guardavam em sua memória as últimas cenas de violência, que sofrera ao ser espancada pela mãe. Os vizinhos chamaram a polícia.

Em seu sonho pós morte, Rosemeri enxergava milhares de sapos e bocas avermelhadas que tentavam lhe devorar, tudo estava escuro. Ela gritava, mas sentia que não seria ouvida. Estaria no inferno? Parecia que a jornada não tinha sido tão longa. Estranhou que não sentia tanto calor como pensava que existisse no inferno. Estava gelada, mal conseguia sentir os pés ao pisar no chão. Travou muitos combates com os seres não iluminados. Cada vez que sentia um deles tentar possui-la, lutava com todas as armas para não cair nas armadilhas do Destino. Lembrava-se das lições de catecismo que tivera com a professora Irani. Rezou baixinho, muitas vezes até que o frio passou. As lembranças horríveis de sua passagem foram apagadas num simples gesto vindo das mãos do mentor da menina. Ela ficou serena e acordou numa espécie de hospital improvisado no meio de um local que parecia mais uma floresta. De sua cama escutava o canto de vários pássaros anunciando um novo amanhecer.

Rosemeri ficou um bom tempo sob supervisão dos médicos astrais; Acordava, dormia, acordava, tornava a dormir. Até que foi se acostumando com sua nova vida, e aos poucos adaptando-se a sua nova morada em outra dimensão.

Minha sincera homenagem a todos os que lutam pela defesa das crianças para livrá-las da pancada e maus tratos. Que todas as crianças do mundo possam ser felizes cercadas de amor carinho e muita paz.

Aradia Rhianon
Enviado por Aradia Rhianon em 18/10/2014
Código do texto: T5003488
Classificação de conteúdo: seguro
Copyright © 2014. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.