Amor pelo Dentista

Dentre as manifestações de amor, existe uma que consiste em total estranheza para a maioria das pessoas. É o amor do paciente pelo dentista, como conseqüência do tratamento dentário feito por amor e prazer.

Muitos de vocês perguntarão:

_O quê? Prazer em ir ao dentista?!

Isto mesmo: den-tis-ta! Para eles, a odontologia é considerada uma das mais sensuais profissões e o dentista, por si só, um objeto de amor e prazer. Porém, ele (ou ela) tem que estar dentro de um consultório, vestido a caráter e com um instrumento odontológico ao seu alcance, ou seja, uma pinça, uma broca, um raio-X, etc. O tom de seus gestos, vai dar a idéia da intensidade da relação para esses curtidores “oro-dentais”. A atração começa na observação do odonto-profissional logo nas primeiras consultas: a forma de segurar a lâmpada e direcioná-la à boca; o modo descontraído de segurar a pinça e olhar os dentes; a forma de segurar os maxilares, de tocar nos lábios e, principalmente, o brilho em seus olhos denotando prazer no que faz.

De grande parte das pessoas, escuta-se sempre as mesmas coisas:

_Tratamento dentário? Cruz credo, Deus me livre! Tenho horror à dentista! E aquele barulhinho da broca?

Há, no entanto, quem tenha guardado boas recordações de seus dentistas e de sua relação amorosa com eles. Recordam com certo carinho destas relações - como diria? – “buco-erótico-oro-dental”, a despeito da incompreensão dos amigos, como uma das coisas que mais gera prazer em suas vidas.

Há quem pergunte como alguém, em sã consciência, pode sentir prazer numa cadeira de dentista. Explica-se que este prazer singular começa, exatamente, por esta peça básica que não pode faltar no mobiliário do consultório. Não existe cadeira nenhuma mais confortável. Totalmente anatômica, deixa o corpo completamente relaxado para o ato em si.

_ Aaato?! - vocês poderiam perguntar, perplexos. Sim, a começar pela proximidade dos corpos, as respirações, os olhos nos olhos, as bocas intimamente próximas, e o hálito, mormente cálido, do dentista. Há dentistas que, independente do seu gênero sexual, têm uma imensa capacidade sedutora de fazerem o cliente abrir a boca. A proximidade dos rostos e a posição dos corpos dão-lhes um enorme poder de sedução que nem a todos é permitido. O perscrutar de seus olhos na intimidade do rosto do cliente, devassando cada linha de sua face, dá-lhes um poder de captura da alma, e tem sido justamente nestes momentos que os clientes se rendem, passivamente, à vontade deles.

Houve uma mulher, acreditem, que amava tanto seu dentista, que em determinada época chegou a acreditar que aquelas histórias maliciosas sobre mulheres que desapareciam à tarde e voltavam satisfeitas dizendo aos maridos terem “ido ao dentista”, eram verdadeiras. Afinal de contas, ela também ia ao dentista e voltava para casa literalmente satisfeita com o seu tratamento dentário. Para ela, o ato de ir ao dentista, sempre foi um ato de prazer.

Contou, certa vez, que o toque dos dedos do profissional em seus lábios era apenas a preliminar de uma promessa maior e detalhou como seu dentista sabia fazer isto muito bem. Primeiro, ele a cumprimentava formalmente no adentrar a sala, como faz um bom profissional. Delicadamente, mandava-a deitar-se na cadeira e pedia a sua auxiliar para prepará-la para o sagrado momento. Isto consistia em vesti-la num avental muito alvo, colocar uma touca prendendo seus cabelos e dar-lhe um lenço de papel para que ela retirasse o batom – coisa que sempre caprichava especialmente para aquelas ocasiões. Gostava de estar com os lábios sempre bem delineados de uma cor rubra e sensual e de retirar o batom na cadeira do dentista, como quem retira uma peça íntima, de modo um tanto recatado, porém com um quê de sensualidade.

Achava que seu dentista aprovava aquela ação, pois na hora de tal ato ele, discretamente, e para deixá-la mais à vontade, desviava o olhar. Como um cavalheiro, ele também, discretamente, se preparava para o intercurso da relação. Sentava-se ao seu lado portando uma touca branca e uma máscara, levemente caída de modo que ainda podiam se insinuar os seus lábios. As mãos, muito bem higienizadas e ainda sem luvas, começavam a tocar seus maxilares de modo a lhe fornecer todas as informações a respeito de seu tratamento e os procedimentos que deveria tomar em relação ao seu caso. Olhava-a dentro dos olhos e parecia brincar com sua face e lábios antes de iniciar o tratamento. Falava de sua anatomia dentária com intimidade e amorosidade e parecia conhecer mais sobre cada um daqueles dentes do que ela mesma. Mostrava-lhe os raios X e desvendava cada raiz que ela não conhecia.

Ficou sabendo, através dele, que seu último dente, o siso, era especial e extremamente “nervoso” pois, o fato de não ter nascido seu par inferior, deixara-o sem uma função específica na arcada dentária. Isto o tornava cheio de “sensibilidades”. Aconselhou-a muita paciência na hora da escovação, pois precisava conciliá-lo com a gengiva que, por já não suportar excessos, vivia querendo expulsá-lo.

Explicou-lhe também sobre seu “bruxismo” noturno e sua conseqüência para as raízes. Falava sobre aquelas singularidades de sua boca com tanto carinho que ela, entre rubor e suspiros, ia se entregando àquelas intimidades cada vez maiores.

_ Só mesmo um dentista para descobrir até nossas bruxinhas internas! - dizia.

Contou ainda que, enquanto falava, os dedos dele deslizavam por sua face ao redor de seus lábios prometendo um prazer cada vez maior. Depois de uma extensa preliminar cheia de explicações e justificações, parecia saber o exato momento para vestir suas luvas. Seu olhar decidido confirmava aquilo que ela já sabia: a certeza de que não se oporia àquele tratamento.

_ Está pronta? Abra a boca, por favor!

Não era preciso repetir. Lá estava ela entregue aos seus desejos.

_ Arrim?

_Vou te dar uma anestesia rápida. Nem vai doer, só uma picadinha ... Pronto! Doeu?

_ Não, foi ótimo.

_ Vou massagear a área para que o efeito seja mais rápido.

_ Humm ...

_ Já começou a fazer efeito?

_ Sim, não pare ...

_Agora, vou te pedir para abrir a boca de novo.

_ Arrim ?

_Não, um pouco mais.

_ E a-ho-a?

_ Tente abrir um pouco mais ...

_ Á hom a-ho-a?

_ O dente é o último superior molar e vou mexer na parte do vestibular. Abra mais! – sussurrava.

_ Aiix ?

_Mais, mais .. Arreganha de uma vez, vai!

_ Ahhhhh....

_ Ótimo! Perfeito! Fica bem quietinha agora. Humm! A visão está ótima ... vou direto ao ponto, bem devagarinho...

_ Huumm ...

_ Se doer, levanta a mãozinha esquerda, ta bem? Não quero te machucar ...

_ Um-hum ...

_ Dona Glória, me ajuda aqui, estou escorregando na saliva dela. Segura o lábio dela deste lado e suga do lado de cá, para eu poder prosseguir. Não fecha a boquinha, tá bem?

_ Uum-huuummm .....

_ Está quase... quase ...mais um pouquinho e, .... aháá! Pronto, consegui! Perfeito! “Gol de placa”!

_ Hummmm...

_ Vamos fechar tudo agora. Dona Glória faz aquele preparado bem geladinho, do jeito que gosto. Doeu?

_ Ão...

_ Ótimo! Pode relaxar agora e cuspir.

_ Acabou?

_ Por hoje, sim. Da próxima vez, vamos mexer naquela raiz do canto esquerdo. Será um pouquinho mais demorado, mas se você colaborar ....

_Ora, para mim será um prazer ...

_ E hoje, foi tudo bem para você?

_ Foi muito bom. Foi bom para você também?

Depois daquelas sessões odontológicas, ela voltava pra casa sentindo-se muito relaxada e, se encontrasse alguma amiga pelo caminho, invariavelmente, dava sempre a mesma resposta para aquele seu ar de completude e felicidade:

_ É que fui ao dentista!

As amigas riam dando-lhe tapinhas nas costas e perguntavam se ele era bom mesmo e outras perguntas maliciosas. Ela, porém, apenas sabia que seu prazer, único e singular, não podia ser compartilhado com a maioria. Assim, apenas sorria e guardava para si o seu caso de amor, até a próxima consulta ou dor de dente.

Rio, julho/05