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Cotó descobre a liberdade

Num canto esquecido no quintal da minha vó, atrás das bananeiras, agitava-se Cotó. Amarrado com uma corda de varal no chiqueiro, ele latia desesperado, suplicando atenção, uma mão para afagá-lo.
Mas nós não chegávamos perto, e nem era por causa das sarnas e carrapatos, ou da baba constante a escorrer, ou das demais perebas que não víamos, era apenas para não sujar a roupa limpinha, que Cotó insistia em macular com suas patas avermelhadas de terra.
Eu até gostaria de brincar com ele, desatar-lhe o nó que feria sua garganta e vê-lo correndo livre pelo quintal, latindo de felicidade, não a mendigar carinho, mas vovó não deixava. Nossa obrigação era apenas jogar a vasilha com angu diante de Cotó e voltar pra casa.
À noite, Cotó chorava. Eu não podia vê-lo pela janela, mas escutá-lo era uma dor no coração. Revoltei-me, deixei a casa de pijamas, no escuro, e fui até o cativeiro de Cotó, ousei me aproximar e recebi patadas na altura do peito e lambidas na cara, acarinhei-lhe o pescoço e o desprendi da amarra. Cotó ficou como que paralisado, nunca havia sido livre antes, não entendia o significado disto; a ausência de laço o amedrontava.
— Vai, Cotó, vai embora!
Mas o burro do cachorro apenas me olhava, pedindo carinho.
Foi quando tive a brilhante idéia, apanhei um pedaço de pau e mostrei a Cotó:
— Pega, Cotó! — e arremessei o pau, o mais longe que pude. Instintivamente, Cotó se precipitou atrás do brinquedo. Segundos depois, retornava, objeto na boca, toco de rabo abanando.
— Vai, Cotó, pega! — e, com mais força, lancei a madeira, que desapareceu na escuridão. Esperei alguns minutos, mas Cotó não voltava. Finalmente, ele havia sentido o gosto da liberdade e fugira pelo mundo afora, descobrindo coisas que nunca havia imaginado.
Na manhã seguinte, ouvi minha vó conversando com alguém na cozinha:
— Era um cachorro desgramado mesmo!
Foi quando descobri que Cotó, na noite anterior, ao encalçar o pau, havia corrido para a rua e acabou atropelado por um Fusca.
De libertador, passei a assassino. Daquele dia em diante, comecer a entender Robespierres, Napoleões, Che Guevaras e Cristos; o fardo da liberdade é grande.
Henry Alfred Bugalho
Enviado por Henry Alfred Bugalho em 31/07/2007
Reeditado em 31/07/2007
Código do texto: T587435
Classificação de conteúdo: seguro


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Sobre o autor
Henry Alfred Bugalho
Estados Unidos, 40 anos
293 textos (73705 leituras)
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Henry Alfred Bugalho