CARRO ROUBADO.
Eu tinha sonhado para ele a carreira de médico, achava que ele tinha o dom da cura, de ser paciente, de ouvir mais do que falar.
Porém, homem pensa com a cabeça de baixo, ao invés de pensar com a cabeça de cima, e aos 16 anos, acabou me dando o primeiro neto, pessoa que adoro, mas que vive em outro mundo.
André, sempre foi o meu companheiro de jornadas, futebol de campo, futebol de salão, vôlei, fosse onde fosse lá estava ele do meu lado.
Com muito esforço o coloquei no colégio objetivo, e sempre foi excelente aluno, passando sem nenhum problema pelo primeiro, segundo colegial, porém no terceiro se enroscou em um rabo de saia e tudo foi por água abaixo.
Parou de estudar durante certo tempo, tentamos organizar algum tipo de trabalho que se adequasse a sua personalidade, mas apanhamos bastante, até que hoje finalmente parece que tudo está querendo dar certo.
A história que vou contar é realística, apesar de muita gente não acreditar.
Eu estava iniciando a faculdade e para me sustentar vendia carros, então sempre tinha alguns veículos para a venda.
O primogênito resolveu voltar a estudar, e queria fazer algo apenas que preenchesse o seu currículo, portanto, fez administração que para a sua capacidade era um diploma fácil de tirar, como foi.
Certa noite ele pediu um carro emprestado, disse que tinha prova e que depois queria comemorar com os amigos o resultado, como já tinha carta, eu o deixei pegar um dos carros da garagem, na verdade lhe dei o mais barato, um fusca amarelo.
Por volta das 21.30 o meu telefone tocou.
--- pai, eu fui assaltado, levaram o carro. –
--- esta brincando filho acabei de comprar o fusca e já tinha cliente certo para ele.
--- é verdade pai, eu não tive culpa, foi um assalto. – parei um instante para pensar.
--- tudo bem, como você está?
--- bem, eles só levaram o carro.
--- onde você está?
--- na casa da tia Salete.
--- tudo bem eu vou te buscar.
Naquela época de vacas magras o prejuízo seria quase catastrófico, mas que culpa ele teria, pensei. Nenhum.
Fui buscá-lo e voltamos calados. Ele sabia que eu estava irritado, e apesar de eu ser uma pessoa calma, quando nervoso eu perco o raciocínio lógico.
Entramos em casa e cada um foi para o seu quarto.
As semanas se passaram o carro nunca mais foi encontrado, provavelmente deveria ter sido desmanchado e as peças vendidas como sucatas.
Deus me proveu. Ganhei dinheiro, e continuei fazendo a faculdade, e vendendo carros no feirão ou então para alguns conhecidos.
Certa noite estava eu sentado no sofá, estudando quando o André se aproximou com cuidado, puxou conversa sobre futebol, malandro, sabia como deixar o pai aos seus pés.
Comentou sobre o jogo de sábado, disse que eu joguei muito bem. Eu só fiquei esperando o seu pedido, depois de muitos elogios lá veio ele.
--- pai... Poderia me emprestar um carro.
Olhei-o pelos cantos dos olhos. Minha expressão fisionômica não deveria ter sido das melhores.
--- vou sair com uma menina, e sabe como é a pé não dá.
Eu tinha acabado de comprar uma perua da Chevrolet, que agora me falta à memória o modelo. Porém, era antiga, não tinha um valor alto, para ser verdade tinha sido um mau negócio que tinha entrado em uma troca, mas o preço tinha ficado muito abaixo da tabela, eu iria queimá-la por qualquer preço, essa é a gíria que os vendedores de carro usam quando querem ficar livres de um carro ruim.
--- tudo bem filho, pode pegar a perua branca.
--- não pode ser outro pai, a perua parece uma ambulância.
Olhei novamente com aquele olhar de braveza que às vezes eu tenho.
--- tudo bem pai, mais vale um cavalo velho branco, do que uma mula empacada.
Sorri. E lhe dei as chaves.
Lá se foi meu filho André em busca de uma nova aventura.
Eu tinha prova no dia seguinte e continuei estudando.
Novamente, no mesmo horário, no mesmo bate canal o meu celular tocou.
--- pai. Pai.
A voz do meu filho estava entrecortada, nervosa.
--- o que aconteceu desta vez filho foi assaltado novamente. – já fui falando esperando o pior.
--- quase pai. Quase. Roubaram o carro na porta da faculdade.
--- não acredito filho, desse jeito eu vou à falência, tem certeza, não colocou o carro estacionado em outro local.
--- não pai, estou aqui bem em frente onde ele estava, foi roubado mesmo. Quero ir para casa, sei que o senhor está magoado, mas não tive culpa.
Desliguei o telefone, antes mesmo que ele tivesse terminado a frase. Puta que pariu, não era possível tanto azar.
Entrei no meu carro, abri a garagem, meus cachorros me davam a garantia com suas presenças de que ninguém se aproximaria. O local onde nós morávamos era ermo, e muito perigoso.
Sai dirigindo com velocidade, subi o morro, entrei na Avenida JK, e estava contornando para passar ao lado da Santa Terezinha, quando eu vi a perua branca, batida em uma árvore. Fiquei puto da vida, o garoto tinha batido o carro e estava escondendo a realidade do ocorrido, isso eu não podia aceitar.
Fui encontrá-lo na casa da mesma tia que no assalto o tinha recebido, disse do carro furioso.
--- largue de ser mentiroso filho, você sabe que não aceito isso, você bateu o carro.
Ele tomou a água com açúcar que a tia lhe tinha dado.
--- não pai, eu juro, roubaram o carro.
--- cacete que roubaram, entra ai, e eu vou lhe mostrar. – nem percebi que ele estava acompanhado por uma garota. Eu estava enfurecido.
Saímos da casa da tia, e fomos até o posto Shell na esquina da santa Terezinha, lá estava o carro batido, ou aparentemente batido em uma árvore. Neste momento a polícia já estava ao lado do carro. Aproximamos.
--- boa noite policial, esse carro é meu. – disse mostrando-lhe o documento, original, pois eu sempre deixava dentro do carro somente cópia.
--- foi o senhor que bateu. – perguntou o sargento, pegando o documento de minha mão.
Olhei para o Andre.
--- não ele foi roubado em frente a minha faculdade na quatro de março.
André era franzino.
--- você tem carta.
--- tenho. – disse o meu filho, retirando o documento e mostrando para o policial.
Fui olhar o carro, ele não estava batido, como foi feito a ligação direta, a direção travou e antes de se chocar com a arvore o ladrão brecou, saiu do carro e fugiu.
--- pois bem, então você deve estar com as chaves do carro. – disse o policial, já devolvendo o documento para meu filho.
--- sim.
--- então retire o carro da avenida que está atrapalhando o transito e tenha uma boa noite.
André entrou destravou o carro. Folgado como sempre foi.
--- pai posso levar a minha namorada para casa.
Não precisei dar a resposta. Meus olhos crispavam fagulhas.
--- Onde ela mora.
--- um pouco acima de nossa casa.
--- eu levo você vai para casa quando chegarmos conversamos.
Ele se foi olhando pelo retrovisor.
A menina entrou no carro.
--- o senhor está bravo. – perguntou.
--- o que acha.
--- sim está.
--- tudo bem, não se preocupe ele só vai ficar um bom tempo sem dirigir. Sorrimos.
Eu precisava estudar.