- Dr. Vinícius, o que coloco no B.O.? 
- Não é homicídio. 
- Que tal crime passional?
- Incitação ao suicídio!
E antes que o escrivão anotasse a prancheta voou. Como se alguém a tivesse lançado. Mas não! Os agentes se entreolharam assustados e continuaram o trajeto.

Policiais em ação isolando área. Peritos no chão e a filha do Vicente, aos prantos. - Como pode morrer assim, papito? Vestido de noivo, com uma rosa na mão, morreu ele, atropelado por um carro que descia a ladeira, bem de frente com uma escola. A menina eufórica tentava explicar aos policiais que aquele era o dia mais feliz da vida dele, que iria se casar, depois de anos a fio. Desde que sua mãe falecera, há mais de 14, nunca tinha se envolvido com alguém, até começar a namorar esta moça que ela nunca tinha visto, disse ele que só a apresentaria quando se unissem em matrimônio, e era hoje. Não sabia onde a noiva morava e nem o que fazia. Conhecia apenas sua alma, descrita em poesias, as quais mantinha reunidas dentro de baú, debaixo da cama. De tudo, essa era a única pista da tragédia. De posse dos poemas, o delegado começou a ficar intrigado com um enigma: 
“Todo amor do mundo/ Guardado no meu coração/ Embora seja muito profundo/ Jamais te encontrará na razão/ vou salvá-la do fundo do poço/ pegá-la-ei pela mão/ depois do último suspiro te encontrarei, minha missão/ de fazê-la feliz em tudo/ Mesmo na contramão/ De lavar seu vestido sujo e fazer dele nosso laço/ Amar-te até o fim, sem prendê-la no abraço./ Já estou a caminho, não me demoro/ Atendo hoje seu pedido de outrora/ Te encontro de smoking e levo flores/ noiva não pode atrasar. Me perdoe, filha, se eu não voltar, encontrei o amor e não posso arriscar.”

O delegado vasculhou a casa e nada, foi até o local onde o corpo foi encontrado e começou a investigar os acontecimentos. Soube que Vicente, desde dezembro (já era outubro do seguinte), frequentava aquela região. Sempre muito bem vestido, trazia perfumes, flores, bebidas, às quais eram encontradas no dia seguinte pelas garis, sempre intactas. O que levaria alguém a deixar os presentes no banco da praça? Ou o amor era proibido ou era passional. - Vamos ver se ele apresentava problemas psicológicos - disse o delegado. Pesquisaram tudo e não descobriram nada, nenhuma visita ao psiquiatra, nenhuma denúncia de atos incomuns, ele era o pai perfeito. Mas alguma coisa estava ficando pra trás. Volta a equipe para a casa. Lá, encontram debaixo da cama, várias fotos de uma noiva. Jornais velhos, sem cor, recortados milimetricamente. Mas o que estaria ele fazendo naquela praça? Que noiva era esta?
E o delegado pegou mais uma poesia:
”Te encontro no mundo dos sonhos, depois da meia noite, carinho necessário para nosso amor não morrer, atenderei seu pedido, correrei para os seus braços na corrida pela morte, você pediu e vou. A forma que escolheu não me faz feliz, mas não se preocupe sou esse chafariz, aprendendo a fazer correr a água do amor.”
 
O lance era procurar o chafariz. Na escola, local frente ao acidente, tinha um chafariz. E naquele dia, em especial, a polícia havia sido chamada para uma ocorrência, arrombaram as portas e no banheiro havia uma cena intrigante, um altar, uma bíblia, muitos enfeites e três cadeiras. Sobre uma delas, um vestido de noiva rasgado, amarelado. E logo perceberam os policiais que aquele era o local do casamento. Mas onde estaria a noiva? Se só seu vestido ali se encontrava?
Parecia cena de filme de suspense. Como era sábado. Era preciso esperar a segunda, para enfim, descobrir a noiva misteriosa.
Professores e funcionários intimados, eis pois, que a diretora vem logo dizendo que sentia muito a morte do porteiro, o acidente foi uma fatalidade.
O delegado ficou surpreso, a filha não havia dito isso e nem os vizinhos. Então o enigma estava montado. Apaixonou-se por uma aluna. Amor impossível. Fez tudo escondido. Mas quem era a menina que o havia incitado à morte? Seria Julieta?

Perguntada sobre o vestido, a diretora logo alertou: trata-se de uma peça do museu que guarda uma história lendária de uma noiva que foi deixada no altar e vive no banheiro da escola. - Dizem que a história é real, ocorreu no tempo em que a escola era um seminário. Então guardamos a lenda em forma de símbolos.

O delegado já tinha montado a cena do crime, mas faltava o mais importante, o porteiro não tinha problemas mentais, como foi enganado assim? Não estaria alguém se passando pela moça? Como brincadeira juvenil?

E lá no canto do banquinho, um diário, ao pegá-lo, percebeu uma letra pequena cheia de traços desenhados, abarrotadas de declarações de amor, a última dizia que não podiam ficar juntos, era um amor proibido, que embora não estivesse em outro campo, como imaginava, ela jamais poderia viver aquele amor. Disse que quando morressem, quem sabe?

A diretora chamou a professora de português e rapidinho foi possível encontrar a noiva que aos 17 anos apresentava sinais de bipolaridade, psicoses e outros, sendo tratada por psiquiatra e com acompanhamento de psicólogos. Ao ser abordada, a menina sorriu e disse: Que horas vai ser o enterro? Tenho que levar as flores, os perfumes, a comida. Eu prometi. Ela foi encaminhada para um centro de menores e a filha do Vicente para um orfanato.


(Conto Inspirado na Lenda da Noiva do banheiro da Fortunata que se baseou na lenda original cujo link descritivo segue 
https://super.abril.com.br/mundo-estranho/qual-e-a-origem-da-lenda-da-loira-do-banheiro/)
Mônica Cordeiro
Enviado por Mônica Cordeiro em 02/05/2019
Reeditado em 03/05/2019
Código do texto: T6637263
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