RAIO DE RETARDO

(Continuação de A CHEIA DO RIO BAETA)

A cheia do Rio Baeta não chegou nem na metade da calamidade que o povo esteve espalhando que ela faria.

Foi aquela história de quem conta um conto aumenta um ponto que fez a maior parte dos estragos, mas as nuvens negras permaneciam muito baixas, anunciando que ainda viria muita chuva grossa.

Talvez por causa do calor que fez durante o dia, ao cair da tarde junto com a chuva fininha, todos os raios que tinham se acumulado começaram a cair quase ao mesmo tempo, emendando um trovão no outro.

O filho de seu Rufino levou o pai para casa, morrendo de bêbado, mas seu Olegário, talvez por ter almoçado como gente grande, apesar das cervejas que tomava desde que chegou ao bilhar de Tota Medrado, ainda estava mantendo a conversa aprumada.

Por trás do balcão e de costas para seu Olegário, Marculino com o propósito declarado de estimular seu Olegário a contar mais uma mentira, comentou em voz alta.

- Ói seu Tota, eu tenho um medo danado que um raio desse me pegue...

Tota Medrado estava sentado num dos bancos altos do lado de fora do balcão e fuzilou o empregado com os olhos como quem diz: mais tarde eu te pego...

- Pois não devia ter medo não, viu Marculino.

- Ôxe seu Olegário, raio é bicho brabo que não tem no mundo quem consiga domar ele não.

- Menino, nem diga isso. Eu mesmo não tenho medo e olhe que já peguei umas paradas boas com eles.

- Foi mesmo foi seu Olegário?

- Marculino! (Tota Medrado rosnou entre os dentes)

Seu Olegário recostou-se na cadeira, olhos perdidos por cima das portas, como se estivesse vendo um filme, cofiou o queixo, bebeu mais um gole da cerveja e começou a contar com a maior convicção:

- Olhe Marculino, você nem sonhava de nascer.

Eu tinha uma propriedade lá para os lados de Camocim de São Felix e botei um gadinho para engordar.

Época de chuva, o pasto estava uma beleza, mas não tinha canto para os bichos se proteger do sereno.

Aí eu comprei o material para fazer uma latada mode eles não adoecer. Ia ser coisa para durar pouco.

(Gesticulando para dar mais ênfase à descrição) Terra matumbada com a patrol numa área de 5 por 3, dessa altura mais ou menos, uma parede de taipa de dois metros e meio de um lado só e o ripado para colocar a cobertura de palha, partindo da parede e morrendo com dois metros de altura em cima de três pilastras de tronco de Sucupira nas pontas e uma no meio.

Coisa muito simples, mas que dá bem para abrigar os bichos porque quebra o vento e não deixa chover dentro.

Pois bem, o serviço já quase pronto e eu estava descarregando as palhas da caminhonete quando começou uma saraivada de raio, Zé Pirraia era assim que nem você, ficou com medo e quis sair correndo.

Eu disse a ele.

Fique aqui junto de mim que raio não faz mal a quem sabe lidar com ele.

Nessa hora deu um clarão dos grandes, aí eu gritei para Zé Pirraia, fique num pé só.

Foi só o tempo dele levantar o pé, a descarga passou por nós deixando os cabelos de pé, mas sem ofender, porque eu sabia que era daqueles raios que retardam feito espingarda soca-soca.

Tem um tempo maior entre o clarão, a descarga chegar no chão e o trovão destambocar no oco do mundo.

- Eu queria ser sabido assim que nem o senhor, seu Olegário...

- Marculino você hoje não me escapa viu?

- Deixe o menino Tota, eu gosto dele. Olhe meu filho, isso não foi nada. Eu estava aqui, vendo essa chuva e me lembrando de quando a barragem quase estourou...

- Por Nossa Senhora, conte como foi isso, seu Olegário. Disse Marculino sentando na cadeira em frente ao velho mentiroso.

(Continua em BARRAGEM QUASE ESTOURADA)

GLOSSÁRIO

Matumbada = amontoada, acumulada.

Patrol = designação regional de máquina de terraplenagem.

Sucupira = Pterodon polygalaeflorus