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MELHOR LER A BULA!
 


Era um dedicado e estudioso estudante de economia em Recife, modéstia à parte. Morando fora de casa, não tinha muitas opções de lazer... e nem dinheiro para diversões. Assim, o foco se restringia tão somente em minha formação profissional..

Nessa época, com 20 anos, raramente conseguia vencer a excessiva timidez que me acompanhara por toda a vida. Mas, por ser o mais novo da classe e pelas “notas” nas disciplinas mais complicadas, tinha um certo prestígio com a turma.

Assim, não fiquei surpreso, quando recebi o convite de uma colega para passar o fim-de-semana em seu apartamento. Tínhamos que fazer um trabalho em dupla, cuja apresentação seria exatamente na segunda-feira, primeira aula da semana.

Pensei em recusar, pois, nunca gostei de estar em “casa alheia” ... como se diz em minha terra. Mas, os argumentos utilizados pela amiga foram mais fortes. Irresistíveis.

Em seu apartamento teríamos melhor alimentação, conforto e... condicionador de ar. Estava fazendo um "calor brabo", mesmo para um piauiense legítimo como eu, nascido na abrasiva e adorada Teresina.

Tinham outro detalhe importante que me impedia de dizer “não” à Mariinha... Ela mesmo! Apesar do diminutivo carinhoso, a "fera" tinha mais de 1,80m, nascida em Serra Talhada, terra de Lampião. Pior de tudo... herdara toda a zanga do “Rei do Cangaço”.  

Eu já tinha testemunhado uma discussão entre ela e um professor de matemática financeira. A mãe do “teacher” foi devidamente homenageada, durante toda a altercação. Depois disso, aquela senhora merecia ser canonizada.

Bem... inutilmete, sugeri que cada um de nós, individualmente, fizesse sua parte. E, alguns minutos antes da aula nos reuniríamos para os ajustes e combinarmos a apresentação.

Mariinha retrucou de imediato: “Deixa de tanto GAGUEJAR... acaba com essa FRESCURA... FAREMOS O TRABALHO EM MEU APARTAMENTO!”. Esse argumento,  em tom “suave”, convenceu-me plenamente.


Amanheci o sábado com a garganta inflamada. Senti logo aquela rouquidão incomodativa. Tive receio. Sempre que estava assim, minhas crises eram intensas... me deixavam “mole”.

Resolvi ligar para Mariinha... “não era possível que não entendesse a situação”, pensei em voz alta. Procurei um orelhão que ficava próximo ao meu apartamento e lhe comuniquei meu estado de animus.

Mal terminei a explanação e já fui ouvindo: “NÃO SABIA QUE PIAUIENSE ERA FROUXO... QUE SE BORRAVA NAS CALÇAS, POR CAUSA DE SIMPLES DOR DE GANGANTA... DEIXA DISSO CABRA... TE ESPERO EM MEIA HORA!”.

Antes do prazo concedido, ansioso, toquei no interfone do apartamento de minha convincente colega de faculdade.

Nem bem cheguei e já recebi uma tarefa urgente: ir à farmácia comprar absorvente. Mariinha ficara menstruada há instantes.


Eu, de fato, nunca tinha recebido uma incumbência tão desafiadora. Mas, indo comprar o “tal absorvente”, procuraria remédio para o incômodo da garganta.

Lembro de ter dito inocentemente: “Mariinha... e qual a marca do teu remédio mesmo?”.

Ela retrucou: “Olha Piauí, não tem nada de remédio... quero é a porra dum absorvente... lá tem umas promoções mais em conta..., me pega algum bom... tamanho grande... fala com as vendedoras, rapaz!”.


Assim, fui para o sacrifício... e aí começou meu suplício. Entrei na farmácia... e cadê coragem de pedir orientação sobre absorventes? Olhei alguns..., fiquei em dúvida. Aliás, a única coisa que não me faltava, ali, era a dúvida!!!

Saí da farmácia e fui novamente até o prédio de Mariinha. Como o apartamento ficasse no segundo andar e tinha uma sacadinha externa, gritei com a voz que ainda restava, até ela aparecer.

E, lá de cima mesmo, a "fera" despejou seu vozeirão: “Ainda não comprou? Não sabe dizer que quer um absorvente... Eita cabra FROUXO e ENROLADO!”.


Puto da vida, voltei à farmácia. Diante da primeira vendedora, fui logo dizendo: “Olha quero um absorvente feminino... que seja bom, bonito e barato... e não é para mim... viu?”.

A garota sorriu na minha cara: “Imagino que não seja mesmo para o senhor... mas, vou lhe mostrar alguns!”.

Percorri alguns passos e logo vi uma prateleira com um produto, em cuja embalagem estava escrito “FLOGOROSA”. Assobiei alegremente.
"Resolvido o meu problema!!!", vaticinei naquele instante.

Lembrei-me que minha mãe sempre indicava “FLOGORAL” para gargarejar, quando estava com crise de garganta. Certamente, aquele “FLOGOROSA” teria o mesmo princípio ativo.

Peguei o tal remédio (para mim, óbvio!) e escolhi um absorvente para Mariinha. Entreguei-os à vendedora. Ouvi bem quando ela disse, de forma jocosa: “Esse FLOGOROSA também não é para você, suponho!”.

Respondi-lhe na lata: “Claro que é... estou muito precisado... ora bolas!”.

A vendedora me olhou ironicamente e disse: “Imagino a sua precisão... tadinho!”.
Fiquei desconcertado com tamanha insolência. Tive vontade de lhe mandar à "PQP"...

Paguei a conta. Rapidamente estava à porta de Mariinha. Ao entrar, entreguei-lhe o absorvente. Perguntei-lhe, em seguida, onde era o banheiro.

Antes de me dirigir ao recinto, ainda, deu para ouvir: “PORRA PIAUÍ... tu num sabe mesmo comprar a merda dum absorvente... mas, vou usar essa BOSTA mesmo!”.


Entrei e me despi. Ia tomar banho para matar o calor. Também, fazer a assepsia com o tal “FLOGOROSA”. Assim, tirei o vidro da caixa, desatarraxei a tampa e virei direto na boca... enchi toda de uma vez e comecei a gargarejar. Foi quando senti uma comichão como nunca vira nada igual.

Parece que era o “fogo do inferno” que entrara em minha boca e, ao mesmo tempo saia pelas narinas, olhos e ouvidos... queimando tudo... a língua, garganta, faringe, laringe, esôfago... possivelmente até o reto... imaginei naquele instante.

Comecei a tossir. Meus olhos se encheram d’água. Tentei dizer algo e nada consegui. Abri a porta e sai do jeito que Deus me mandou ao mundo.

Reuni toda a coragem que me apareceu e, com voz sumida, baixinho supliquei: “Pelo bem que quer a sua mãe, me traz água gelada... gelo... se puder traz o Corpo de Bombeiros... estou pegando fogo por dentro”.  

Mariinha... vendo-me naquele estado deplorável, correu ao banheiro. Voltou com uma toalha na mão... logo me entregou. E, na outra, o frasco do tal “FLOGOROSA”.

Olhou-me zombeteiramente e desabou no chão de tanto gargalhar: “Seu louco... você fez gargarejo com solução vaginal? Vai gostar de XOXOTA assim lá no Piauí!”.


Simplificando... voltei novamente à farmácia. Agora, a procura de remédio para aliviar o ardor do corpo todo.

Nada mais de estudo. Cheguei em meu apartamento afônico e maltratado. Passei um dos piores fins de semana na vida. Quanto ao trabalho... que tirasse ZERO!


Segunda de manhã, cheguei atrasado na aula... quase não dormira nos dois últimos dias. Estava realmente mal da garganta... também, psicologicamente abalado.

Lembrei-me que, antes de sair do apartamento de Mariinha, havia pego uma caneta e um pedaço de papel. Escrevi em desespero: “Apelo pela nossa amizade... não conte nada a ninguém, na turma!!!”.


Mas, ao entrar na sala, vi caras irônicas e sorrisinhos debochados...

Alguém me fez sinal para olhar o quadro de acrílico... e lá estava escrito: “Não haverá apresentação de trabalhos hoje, professor está com a garganta inflamada. Avisou que virá na próxima aula. Já está devidamente medicado. Ele sabe ler BULA !!!”.

 
 
Post Scriptum
 

“Flogo-Rosa é destinado ao tratamento da vulvovaginite aguda (inflamação dos tecidos da vulva e vagina) associada a sintomas de dor, ardor, prurido e corrimento e doença inflamatória do colo do útero de qualquer tipo ou origem; como auxiliar no tratamento de candidíase (um tipo de micose) e tricomoníase (doença sexualmente transmissível causada por um parasita); como preventivo, no pré e pós-operatório de cirurgia vaginal e na higiene íntima do pós-parto. A administração vulvar e vaginal da benzidamina assegura rápido alívio dos sinais e sintomas de vulvovaginite, rápida melhora do inchaço local e atividade antimicrobiana (contra as bactérias) efetiva, preservando a flora vaginal normal e facilitando a restauração da normalidade da vagina”


Obs: Esse texto já havia sido postado, quando usava outro perfil!
 


 
Aluízio A C Amorim
Enviado por Aluízio A C Amorim em 30/09/2019
Reeditado em 02/10/2019
Código do texto: T6757635
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Aluízio A C Amorim
Teresina - Piauí - Brasil
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Aluízio A C Amorim