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Inesperanças (14.11.2016)

É estranho e, ao mesmo tempo, gratificante quando saímos da rotina. Mais estranho ainda é quando essa desrotinação acontece sem que a gente programe e, ainda mais, da forma como me ocorreu.

Havia um aglomerado de gente em frente ao prédio onde eu trabalhava. Reconheci o José, meu colega de escritório, e fui até ele perguntar o que estava acontecendo. Como ele gostava de frases impactantes, respondeu-me assim:

- Veja você mesma e tire suas próprias conclusões - e apontou para cima, para um dos últimos andares do prédio.

Um homem queria se atirar do parapeito de uma das janelas, pelo que entendi e, assim como há nos filmes, muitos curiosos se juntavam lá embaixo, alguém chamou os bombeiros e era fácil ouvir coisas como:

- Será que ele vai mesmo pular?

- Vou gravar e colocar na internet pra ganhar uma grana.

- Quem é aquele maluco?

- Será que hoje ainda vai ter trabalho?

Esse último foi o José, ao meu lado. Mas não respondi... Acho que alguma coisa muito estranha aconteceu em meu consciente e, acho também, no meu coração...

Quando percebi José olhando para cima, me afastei discretamente e procurei alguma porta ou janela térrea para entrar no prédio. Torci para que ninguém me percebesse fazendo aquilo e, ao mesmo tempo, cogitava seriamente acabar logo com aquela loucura e voltar para perto de José, inventando uma desculpa qualquer que justificasse meu sumiço.

Só que, acho, demorei demais para decidir e, quando me dei conta, já estava no dito cujo andar e acho que escutei o homem falando sozinho.

- Olá? - Chamei e, só depois, me dei conta de que meu chamado poderia assustá-lo e causar o que várias pessoas lá embaixo estavam esperando que acontecesse.

Corri até a sala onde sabia que estava _a_ janela, aflita. Ele ainda estava lá e isso me fez suspirar aliviada. Só percebi que ele perguntara "Quem está aí?" depois que meus ouvidos pararam de zumbir.

- Ér... - Eu realmente não sabia o que falar.

- Quem é você?

- Fátima. Trabalho nesse prédio e, quando cheguei, vi a confusão... - Nisso, eu já estava dentro da sala, com uma das mãos apoiada na moldura da janela. Acho que alguma coisa dentro de mim me dizia para fazê-lo desistir daquilo. - Por que você quer fazer isso?

- Não aguento mais minha vida. - Escutei alguém me chamando lá embaixo, mas continuei ouvindo o “moço suicida” falar: - Todo dia nesse escritório, é muito estressante, não aguento mais.

- Mas isso não é motivo para se matar - comecei. - É só trocar de emprego, se for o caso. Você acha que vai resolver tudo tirando sua vida? O que a sua família vai pensar? Tenho certeza de que eles vão ficar muito tristes se você fizer isso. Você vai acabar com seus problemas e criar vários outros, você tá pensando só em você por ter subido aí! Sei muito bem que é bastante caro enterrar uma pessoa, você vai dar esse prejuízo para a sua família? Deixá-los tristes e ainda fazê-los gastar um dinheiro que talvez não tenham... Quando poderia ter evitado isso não sendo tão egoísta! Desculpe ser tão dura com você, não sei pelo que você passa na sua vida pessoal, mas por favor saia daí que eu até posso ajudar você de um jeito melhor... Essa não é a solução...

Percebi que ele começou a se arrastar para perto da janela e estendi a mão para lhe ajudar. Vi a expressão de reconhecimento tomar seu rosto e, por um momento, notei como ele era bonito...

Pisquei forte uma vez, tentando me concentrar em tirar ele dali. Não consegui me conformar com o fato de que um rapaz, pouco mais velho que eu, quisesse tirar a própria vida. Acho que suas pernas ainda estavam bambas por causa da altura, então deixei que ele se apoiasse em mim para conseguir andar sem cair.

Fomos recebidos com aplausos ao chegar no térreo e os bombeiros o tiraram da minha responsabilidade. Vieram me perguntar como eu tivera coragem de fazer aquilo e não consegui explicar.

- Você ficou maluca? - Escutei vagamente a voz de José me perguntar.

Depois que arranjaram uma cadeira para mim, me entregaram um café e, quando me sentei, conseguia ver claramente a parte de trás do caminhão dos bombeiros, onde colocaram meu amigo meio suicida sentado e faziam nele alguns exames básicos.

Quando ele olhou para mim, senti algo que há muito não acontecia comigo. Minhas bochechas ficaram quentes e não consegui conter o reflexo de baixar os olhos e sorrir.

O que era aquilo?

Somente depois que tudo se acalmou um pouco, nosso chefe reuniu todos do escritório para avisar que teríamos o resto daquele dia de folga e o dia seguinte também, para que os bombeiros fizessem uma vistoria no prédio. Procedimento de praxe.

Fomos dispensados e, quando eu já estava pegando minhas coisas para ir embora, olhei novamente pro carro dos bombeiros e voltei a sorrir ao ver dentes brancos e lindos direcionados pra mim.


Paulia Barreto
Paulia Barreto
Enviado por Paulia Barreto em 29/06/2020
Reeditado em 10/07/2020
Código do texto: T6991537
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Paulia Barreto
Fortaleza - Ceará - Brasil, 21 anos
57 textos (425 leituras)
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Paulia Barreto