O DESAFIO DA MONTANHA

O DESAFIO DO MORRO GRANDE

Na roça do meu avô o terreno tinha duas partes mais planas, uma abaixo e a outra acima de um morro muito íngreme parecendo um paredão. Quem vinha do povoado e passava pela estrada que se situava acima do morro grande avistava a casa lá embaixo. Por causa dessa visão da estrada tinha-se a impressão que a casa estava situado em um buraco. Daí surgiu o nome da propriedade como sendo a FAZENDA DO BURACO. Tivemos muitos momentos inesquecíveis ali.

Bem no pé do morro brotava uma água de excelente qualidade que fora aproveitada construindo um pequeno açude para elevar o nível e a quantidade. Cavaram um canal, que ainda é denominado de rego d’água, para ser conduzida pela gravidade até a casa para o uso doméstico e distribuída nos bebedouros dos animais.

Aquele morrão era o meu desafio. Desde pequenino eu o olhava e ficava imaginando subir por aquele “paredão” onde via os animais pastando, andando de lado e mudando de nível com muita dificuldade. Mas a pastagem era muito atrativa.

Sempre pensava que um dia eu subiria o morrão. Com meus dez anos de idade resolvi que já era hora. Falei para minha avó que iria lá no açude para ver os peixinhos. Fui e fiquei por uns instantes olhando as acrobacias dos lambaris e olhei para cima, o morro mais parecia um paredão intransponível e pensei que se as vacas e os cavalos subiam eu também daria conta.

O sol estava muito quente mas decidi e passei sob a cerca de arames farpados e encarei o desafio. Abracei uma moita de capim e comecei a subir. Soltava uma e pegava outra. Era como se estivesse subindo por uma escada com degraus enormes e exigia muito esforço. Quando pensei que já havia vencido a metade da subida olhei para baixo. Decepção. Havia subido uns poucos metros. Olhei para cima e não consegui ver o fim do paredão.

Começava a suar e o calor castigava. Pensei em desistir e esperar mais um ou dois anos para crescer e me fortalecer um pouco mais. Senti medo e vergonha ao mesmo tempo. Respirei fundo pensando que é assim que a gente cresce, enfrentando e não subindo poucos metros e correr de volta. Reiniciei a subida e sentia os matos arranhando meus braços, as pernas e as vezes o rosto que ardia e suor já escorria molhando a camisa.

Quando cheguei a uma altura maior olhei para baixo e pensei que já estava próximo do fim mas era só a metade. Parei sob uma árvore de pequeno porte me sentindo muito cansado e tive medo de não chegar ao topo e não conseguir voltar pois a decida também era complicada.

Olhei para o céu e pensei: Deus está muito mais alto porque Ele é maior e poderoso. Ele teve que subir muito até chegar lá e Ele vai ajudar a subir o morro que para Ele é tão pequeno. Reiniciei a subida parando de vez em quando para recobrar as forças e fui até o topo.

Exausto deitei sob uma árvore frondosa, vi um horizonte jamais imaginado, um céu muito azul e fui sendo tomado por uma alegria nova e poderosa. Pus-me de pé, voltei à beira do paredão e olhei para baixo extasiado. Abri os braços e gritei: Venci o morro grande! E dominando a emoção falei mais baixo: Sou maior do que você Morro do Buraco. E ainda vou crescer e subir aqui quando eu quiser. Nunca mais vou ter medo de você!

Não voltei por onde subi. Fui até a estrada e retornei dando a volta. Fui à bica d’água e me lavei sentindo o frescor da água que nascia ao pé do morro. Meu corpo foi esfriando e voltei a olhar para o morro, agora com grande superioridade. Contemplei, olhei a água cristalina correndo pela bica e voltei o olhar para o morro e imaginei que sob o mesmo estava guardada a água da chuva que delicadamente era liberada aos poucos para tudo que ali precisava. E era a mesma água que molhava as raízes das plantas que serviam de pastagens para os animais.

Em minha tenra idade fui despertando por uma imensa gratidão e um admirável respeito ao morro que até pouco antes representava o meu maior desafio.

Nunca mais tive vontade de subir pelo morro, nunca mais o vi como um desafio e sim como um grande depósito da abençoada água tão pura que dali jorrava.

Tempos depois meu avô já idoso vendeu a propriedade e se mudou para o arraial mais próximo.

Nunca mais tive coragem de retornar à Fazenda do Buraco.

DIVINÓPOLIS

10-03-2021

JFerreirinha
Enviado por JFerreirinha em 11/03/2021
Código do texto: T7204347
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