SAUDADE E ESPERANÇA


Dez anos atrás eu estava correndo de um lado para outro tentando encontrar um médico, ou um tratamento qualquer que pudesse curar minha mulher de um câncer no intestino. Ela se tratava com o Dr. José Aristodemo Pinotti, mas o tratamento não estava funcionando.
Recomendaram-me que a levasse a um médico em São José dos Campos. Ele fazia um tratamento alternativo, que segundo o informante, era muito eficiente. Levei duas semanas para conseguir uma consulta. O homem tinha uma agenda muito complicada. Atendia pessoas do país inteiro e até do exterior. A consulta custava uma nota preta.
Chegamos lá ás nove da manhã e fomos atendidos ás três da tarde. Havia pelo menos umas cinquenta pessoas na fila de espera para o atendimento.
Finalmente chegou a nossa vez e nós entramos na sala do médico. Não havia maca, nem aparelhos. Ele não usava estetoscópio nem qualquer outro instrumento que nós estamos acostumados a encontrar nos consultórios médicos.
Minha esposa sentou-se na cadeira em frente à mesa dele e esperou. O sujeito não lhe perguntou nada. Olhou detidamente a ficha que a secretária havia passado para ele. Depois puxou de dentro de uma gaveta um pêndulo de cristal e balançou-o repetidamente em frente do rosto dela enquanto ia anotando umas coisas numa folha de papel. Se falou duas ou três palavras foi muito.
No fim da consulta, que durou cerca de dez minutos, saímos de lá com uma receita e um endereço de farmácia. Fomos lá e compramos todos os medicamentos indicados na receita. Eram umas panaceias preparadas por uma farmácia de manipulação, ali mesmo em São José dos Campos, e custava uma fortuna.
Minha esposa tomou todos os remédios direitinho. Não houve nenhuma melhora. Voltamos lá umas duas ou três vezes e o tratamento prescrito era sempre o mesmo. Uma pá de remédios comprados na mesma farmácia. Depois de um tempo desistimos.
Se a forma como faz não está dando o resultado que você espera, mude o jeito de fazer. Esse é um preceito que eu sempre levei ao pé da letra. Ouvimos falar de um médico argentino que dava consultas numa clínica no Alto de Pinheiros, em São Paulo. Diziam maravilhas do cara. Tinha um método novo para o tratamento do câncer.
Fomos lá. Era um médico homeopata. Seu consultório era decorado com uma estranha mandala, onde uma gravura do homem vitruviano, aquele desenho de Leonardo da Vinci, combinava com nomes de ervas, fármacos e os signos do Zodíaco. Ele traçava estranhas equações matemáticas e desenhava fórmulas químicas numa folha de papel enquanto conversava com o paciente. Parecia mais um alquimista do que um médico. “Será talvezu ma reencarnação de Paracelso,” pensei?
“Bem, isso é o de menos”, concluí. “Se funcionar, que Deus o abençoe.” Depois da consulta ele me deu uma receita enorme, com cinco ou seis produtos, que eu deveria aviar numa determinada farmácia ali perto. Custou-me cerca de mil e quinhentos reais o resultado daquelas garatujas que ele desenhou na receita. Curioso, fui pesquisar os ingredientes que ele misturara na sua estranha alquimia. Encontrei alguns nomes que eu já vira antes em algum lugar. Bryonnia, Allium Sativum, Beladona, Phosphorus, Aconnitun, Arnica, etc. Espertinho, pensei. Minha mãe já usava esses produtos para me fazer chás quando eu tinha dor de barriga, dor de cabeça, febre, etc.
Numa farmácia homeopática comum essa panaceia toda não custaria mais de cinquenta reais. Mas receita de médico precisa ser respeitada e eu comprei tudo que ele mandou. Mais tarde descobri que a farmácia era propriedade dele também.
Minha mulher tomou todos os remédios que ele receitou e nada de melhorar.
Mude, pensei. Ofereça a si mesmo outras alternativas. Essa sempre foi a minha filosofia. Não insistir com ações que não geram os resultados esperados.
Falaram-me de um sujeito em Perús, que diziam ser capaz de verdadeiros milagres. Quem me contou foi um japonês, amigo meu de longa data. Ele tinha um câncer na garganta e estava se tratando com esse cara há algum tempo. Seu depoimento era de quem tinha muita esperança.
Se até um japonês como o meu amigo (racionalista até o último fio de cabelo), acreditava, por que não? Afirmavam que o tal sujeito era capaz de curar tudo. De sarampo a câncer. Até Aids.
O tratamento que ele utilizava era uma coisa bem bizarra. Colocava as pessoas em baixo de uma pirâmide feita de varetas de alumínio e as deixava ali deitadas por uns trinta, quarenta minutos. Havia gente que até dormia.
―Esta é uma pirâmide orientada rigorosamente para o norte magnético ―, disse o sujeito. ―Ela capta a energia cósmica e a canaliza pelos pontos do organismo onde a doença se manifesta.
Eu já tinha ouvido falar daquele negócio. Energia radiônica, capturada pela pirâmide, devido à sua forma geométrica. Eu até já tivera uma em casa. Nunca funcionou para mim. Talvez eu não estivesse sabendo como utilizá-la, pensei. Aliás, eu nem tinha muita certeza onde era o tal norte magnético.
“ Hum, Deus nos ajude que funcione”, concluí.
Vinha gente de todo lugar para ficar durante quarenta minutos em baixo da tal pirâmide. “Se tanta gente acredita, deve haver algum mérito nesse negócio”, pensei.
Custava oitenta reais para a pessoa ficar durante quarenta minutos em baixo da coisa, mas o sujeito dizia que aquele tratamento era gratuito. Os oitentinha que ele cobrava eram para uma instituição de caridade que ele mantinha. Fui ver a tal instituição. A mulher dele era a presidente e os dois filhos os únicos funcionários. Não consegui descobrir que diabo de serviço a tal instituição prestava.
Mas também, o que importava saber disso? Minha mulher era especialista em câncer. Não como médica, que ela não era, mas como hospedeira do maldito. Teve um no útero aos 39 anos. Tirou, fez quimioterapia e sobreviveu por mais dez anos. Teve outro na mama aos 50. Tirou, tratou e viveu mais nove anos. Finalmente teve outro no intestino. Tirou, mas o danado voltou. Tirou de novo e ele voltou. Morreu com 58 anos.
Pouco antes de eu levá-la para o hospital Nove de Julho para mais uma cirurgia, que iria ser feita pela equipe do Dr. Aristodemo Pinotti, ela me disse: “ Se essa cirurgia também não der certo, meu bem, não se aborreça. E não fique bravo com esses caras. Eles não estão enganando ninguém. Todo esse tempo nós temos perseguido a Esperança. E ela sempre esteve nesses lugares onde fomos porque nós a levávamos conosco. Esperança não é uma coisa que alguém tenha para vender. Nós a temos ou não. O resto é só ritual. Aconteça o que acontecer, nunca deixe que ela se perca.”

Ela morreu no dia 19 de novembro de 2000, dois dias antes de fazer a esperada cirurgia. Deixou para mim e minhas filhas dois sentimentos que acalentamos todos os dias: Saudade e Esperança.


João Anatalino
Enviado por João Anatalino em 09/01/2011
Reeditado em 09/01/2011
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