UMA HISTÓRIA DE CARNAVAL

ENCONTRO COM A ESPERANÇA NUMA SEXTA-FEIRA ‘GORDA’

O dia acorda nublado, escondendo o Cristo, que nos dias de sol ele enxerga do alto da sua pequena, mas acolhedora cobertura, numa das ruas de Copa. O mesmo Cristo que o acompanha por entre plantas e papéis, tentando escrever o seu romance e terminar a letra para uma marchinha de carnaval, nessa sexta-feira gorda que está apenas começando, mas fazendo já adivinhar a chuva que se avizinha...

É o primeiro carnaval que passa sozinho e está odiando...

Após dezessete anos de casado, está sem a companhia daquela que ele pensara ser o seu amor eterno.

Já há meses, vinha observando o comportamento, algo estranho, da sua amada, companheira de bons e maus momentos... Bem, na realidade mais os bons, pois os maus, quase não existiam. Pelo menos era assim que ele sempre pensara.

Eram ambos saudáveis, não ficavam doentes e discussões não existiam, pois estavam sempre de acordo...

De repente, ela começou a se desculpar com dores de cabeça... cansaços inusitados sem razão aparente, principalmente na hora de deitar ou nos dias em que ele a convidava pra irem até à Pedra da Gávea ou ao Jardim Botânico, lugares que sempre frequentaram juntos para namorar e que o ajudavam a se inspirar nas letras para as suas canções ou nos cenários para o romance que andava escrevendo. Ela sempre fora com ele... Ela era o seu amor... a sua musa! Mas de repente... Tudo ruiu!

Durante todos os anos de casamento, nada parecia abalar a feliz união, por isso quando ela fez as malas, lhe anunciou que iria embora e queria a separação, foi como que se lhe tivesse jogado um balde de água fria... NÃO! Um balde de água fria é muito pouco para descrever a terrível sensação que teve... Foi antes uma tempestade de granizo que caiu em cima da sua cabeça! Não queria acreditar que isso estivesse acontecendo com eles... Não era possível! Ainda por cima ela não quisera dar uma explicação plausível nem outra chance para o casamento.

Dissera apenas que estava cansada da vidinha que levara até então, que o excesso de concórdia entre os dois atrapalhava a necessidade de ter uma vida própria, ter uma identidade própria... E a falta de filhos, também contribuíra para o seu cansaço... Para a sua insatisfação...

Nossa! Que mulher não ambicionava ter uma vida como a dela? Uma vida como eles sempre tiveram? Não acreditava, que para nada serviram os dezessete anos juntos, sempre em harmoniosa felicidade. Como pudera ser tão cego?

Nos primeiros cinco anos tentaram um filho, mas depois desistiram e se concentraram em passar o resto da vida vivendo um para o outro, para o seu amor, as canções, os romances e a poesia, viajando aos fins de semana e por vezes também no meio da semana iam dar palestras, fazer o lançamento de algum dos seus romances ou muito simplesmente, curtir o seu amor...

De repente, nada mais tinha sentido... Ela queria apenas e simplesmente: - a separação!

Estava sem inspiração para terminar a letra da marchinha de carnaval, para continuar o enredo do seu romance, para viver o seu dia a dia sem o seu amor...

Quando estavam juntos nada disso sucedia, ela era a sua musa inspiradora... Tudo fluía como por encanto... Agora estava naquele desânimo todo e logo na sexta-feira gorda, primeiro dia de desfiles no Sambódromo e ele tinha convites para o camarote de imprensa, para todos os dias de carnaval. Não sabia ainda o que faria. Estava sem disposição para nada e muito menos com vontade de convidar alguém para assistir com ele aos desfiles, pois todos os seus amigos já tinham planos para se divertirem nos dias de folia.

Teve um súbito ataque de fúria e jogou tudo pro alto, aliás, pro chão...

Não sabia o que fazer. Levantou-se da cadeira, deixou os papéis espalhados e resolveu sair para dar uma volta pela praia... Estava quase chovendo, quem sabe se a chuva não refrescaria as suas idéias tão vazias... a sua mente estava tão adormecida e inerte...

Pegou na carteira, nas chaves, fechou a porta e olhou com desdém para o ponteiro do elevador que indicava que se encontrava no térreo e dirigiu-se para as escadas. Então galgou os dezesseis andares que o separavam da rua.

Uma ‘chusma’ de gente apressada, inundava a calçada, desejando que o dia passasse rápido para irem rolar os corpos ao ritmo frenético das músicas de carnaval...

Todos os anos eram sempre a mesma coisa, uma rotina gostosa, pra quem pode: - trabalhar o ano inteiro, para ter quatro dias e cinco noites de folia e descontração, beijar‘mouito’ e achar um amor que dure, pelo menos, o resto do ano.

Caminhou cabisbaixo, por entre a gente apressada, até ao calçadão, descalçou as ‘havaianas’ e calcou com os pés, a areia fria, pra sentir a natureza inundar-lhe as entranhas. Era como que um lenitivo pra reanimar a sua parca auto-estima do momento. Respirou fundo começando a caminhar na direção à beira-mar.

Foi olhando a praia quase sem banhistas, pois o lusco-fusco do dia, com nuvens negras carregadíssimas, estava pressionando a chuva a se desencadear.

À beira-mar, algumas pessoas caminham absorvendo o ar do mar e querendo armazenar as energias do dia para pular o Carnaval.

Se junta aos demais, pensando como seria difícil ter que enfrentar a solidão...

Bruscamente a esperada chuva de verão, invade a praia com força, interrompendo os seus pensamentos. Começou a correr. E o que faria agora? Continuaria a correr na areia, fustigado pela chuva, que talvez lhe refrescasse as idéias ou iria até ao quiosque mais próximo beber água de coco e esperar que a chuva desse uma trégua?

Continuou correndo, remoendo estas divagações e nem repara que vindo na sua direção uma moça que, também correndo, estava alheia a tudo e a todos, como se pertencesse a outro planeta, como se fosse um ET e de olhos fixos na areia, parecia chorando... E o inevitável aconteceu: esbarraram um contra o outro.

- Desculpe-me! – pediu ele sem graça, amparando-a para que não caísse – estava no mundo da lua e por tal erro imperdoável, não a vi.

- Me desculpe você! – pediu ela num fio de voz – estava tão distraída, que não reparei quem estava na minha frente.

- Vejo que está chorando, se machucou? Posso ajudar em alguma coisa? – retornou ele.

- Não se preocupe, não estou machucada com o choque, estou machucada na alma – respondeu ela, quase em prantos.

Ele ficou visivelmente perturbado, com aquela moça, que embora não fosse nenhuma garotinha, era uma mulher ainda jovem, muito interessante, bastante atraente, algo de beleza exótica. Coincidentemente também ele estava com a alma machucada, só não conseguia chorar.

- Vá tenha calma. Eu a entendo. Precisamente no momento da nossa colisão, estava pensando em ir me sentar num quiosque para beber uma água de coco e esperar que a chuva amainasse. Quer me fazer companhia e poderemos conversar? Quem sabe não possa desabafar um pouco, enquanto faz uma hidratação natural com água de coco – tentou ele dar um ar informal ao convite.

- Eu hein? Eu não o conheço, nem tão pouco costumo contar os meus problemas a desconhecidos – respondeu ela com certa agressividade na voz apesar de um pouco trêmula.

Ele tartamudeou e estendendo a mão, disse meio sem graça:

- Perdoe a minha indelicadeza, esqueci de me apresentar. Meu nome é André, sou escritor, por vezes compositor e poeta. Moro aqui em Copa e também estou numa fase menos legal da minha vida, pois minha mulher se separou de mim... saiu de casa há uma semana, depois de dezessete anos de casamento e... – não concluiu a frase, dito isso, baixou a cabeça, visivelmente emocionado.

Ela olhou, pela primeira vez, direto nos olhos dele, apertando-lhe a mão e tentando achar as palavras certas para se desculpar e ser mais delicada.

- Desculpe, fui um tanto ríspida com vc. Espero que me perdoe. Meu nome é Adriana, sou professora de música. Também gosto de escrever poesia, mas dou aulas de piano e violão. Acabei de ter uma terrível decepção. Estou muito magoada com os homens... Ou seja, neste momento é com um só, mas já fui magoada em outras vezes, por uma súcia de malandros...

Ele sorriu ‘amarelo’, mas tentou um ar descontraído.

- Pelo pouco que falou, deduzo que temos algo em comum: Estamos magoados com alguém do sexo oposto...

Que tal sairmos da chuva e irmo-nos sentar para relaxar um pouco – e fez um gesto apontando na direção dos modernos quiosques da orla de Copa.

- Está bem. Tem razão, aceito. – respondeu ela – Estou precisando mesmo relaxar, porque estou cansada de pensar. Acho até que meu cérebro está quase explodindo.

Lado a lado se dirigiram apressados, correndo das fortes bátegas, para um dos novos quiosques, tendo como cenário, dum lado, o magnífico Copacabana Palace e do outro o celebérrimo e disputado calçadão, a maravilhosa praia, nesse momento, coberta de nuvens e a ‘doce’ chuva de verão.

Um cenário bem romântico e perfeito, para o encontro de duas almas, momentaneamente solitárias e infelizes.

- Dois cocos e dois canudinhos, por favor – pede ele ao garçom.

O empregado muito prontamente satisfaz o pedido.

- Então, – começa ele – está mais calma? Se quiser falar do seu problema, fique à vontade, eu escutá-la-ei em silêncio, pois não é bom a gente aguentar sozinho todas as vicissitudes que a vida nos confronta...

- Estou mais calma sim! – retorquiu ela – Talvez que as suas palavras de conforto e a sua delicadeza, me tenham ajudado um pouco a desanuviar a minha tensão. Muito obrigada...

É uma situação tão desagradável a que estou vivendo neste momento que não sei se será bom envolvê-lo na minha história. Mas também sei que se não falar com alguém, vou acabar explodindo de dor, me sinto rejeitada, injustiçada e terrivelmente incompreendida.

Baixou novamente os olhos e as lágrimas começaram caindo no colo.

Ele com um gesto carinhoso e gentil levantou-lhe o queixo oferecendo um guardanapo de papel.

- Tome, limpe as lágrimas. Gostaria de poder oferecer-lhe um fino lenço para enxugar seus belos olhos, mas saí às pressas de casa sem lenço nem documento, vim tal qual estava. Por esse motivo peço-lhe as minhas humildes desculpas e faça de conta que este modesto guardanapo de papel é um fino lenço da mais pura‘cambraia’.

Dito isto, levantou-se e fez uma engraçadíssima reverência.

Ela rendeu-se à simpatia de André e deu um sorriso tímido, por entre os olhos marejados de lágrimas e falou com uma voz que pretendia aparentar a calma que naquele momento não sentia.

- Muito obrigada pelo seu carinho. Sinto-me envergonhada por tê-lo tratado rispidamente há pouco e por este meu desânimo e vc que neste momento também deve estar sofrendo está tentando me animar. Realmente acredito que como dizem, nem todos os homens são iguais e este nosso encontro ou mais propriamente o nosso ‘encontrão’ não foi à toa!

Ele sorriu.

- Claro que foi um senhor‘encontrão’, mas será que nós não nos teríamos já cruzado pelas ruas do bairro? Sabe, eu acredito que a vida é muito caricata e ao mesmo tempo sábia, nos coloca em situações de confronto para que acordemos para o que se passa à nossa volta. De coração lhe digo que sinto já a conhecer a algum tempo e tenho vontade de lhe expressar a minha solidariedade. Será que posso tratá-la por Drica?

Ela retribuiu o sorriso e o rosto se iluminou um pouco.

- Claro que pode. Meus amigos me tratam assim. Também sinto que posso confiar em vc e talvez, que neste momento, possa estar a nascer entre nós uma boa amizade. Realmente eu também acredito que a vida nos reserva momentos e encontros inusitados e nós temos mais é que os desfrutar.

André pegou-lhe na mão e levou-a aos lábios.

- Que bom ver o sorriso iluminar esse belo rosto, que não deve estar, de modo nenhum, tão contraído. Não lhe fica bem essa expressão contristada. Muito menos hoje que começa a época mais alegre do ano.

Ela ouvia-o em silêncio, bebendo-lhe cada palavra, tornando-se mais tranqüila e confiante.

Ele continuou falando, tentando também expulsar seus próprios medos e os tristes pensamentos que o apoquentavam.

- Li certa vez um livro, sobre o Budismo, onde uma frase ficou marcada na minha mente e que diz: - Que a tempestade de ferozes emoções com que a pessoa se enfurece, causa a sua própria ruína.

Então, nada melhor que desabafar o problema que a aflige e não carregar as ‘ferozes emoções’, com o risco de que a angústia lhe possa tirar aos poucos o lado bom e positivo que vc possui e começar a se sentir amarga, insegura e descrente dos bons sentimentos que existem à sua volta.

Estou à disposição. Apesar de também as minhas emoções estarem conturbadas, mas me sentirei bem melhor se com a minha despretensiosa amizade, puder contribuir para aliviar o seu sofrimento. Creia que estou falando sinceramente, de coração.

- Acho que agora vou chorar, mas de comoção. Pois ao escutar essas sábias palavras elas me transmitem a paz, que há muito não sentia e estava tão necessitada. Até me atrevo a perguntar se vc existe, se vc é mesmo real?

Drica estava com os olhos brilhando de maneira diferente e entre eles começou a criar-se um clima de empatia.

- Claro que sou mesmo real, pode me beliscar se quiser, mas devagar para que não fique nenhuma marca roxa, senão meus amigos podem pensar que fui ‘molestado’.

Espontaneamente, ambos soltam duas sonoras gargalhadas. Ela falou em primeiro lugar:

- Parece-me... Aliás, tenho certeza, que não vou querer estragar este clima tão legal que está entre nós, falando agora dum problema que pode ficar mais algum tempo no‘armário’ do meu cérebro, pois está ficando tão pequeno comparado com este agradável momento que vc me está proporcionando.

A filosofia budista é sábia mesmo e eu também sou fã de pensamentos e dos seguidores de Buda. Vc foi muito feliz em ter-me apresentado a frase que traduzia o meu estado de espírito antes de termos começado a conversar.

Então é mais um elo que nos está unindo. Não tenho palavras para poder exprimir como lhe estou grata, porque neste momento eu prefiro falar de outras coisas. No entanto estou à sua disposição se vc quiser falar da sua separação...

Ele cortou-a em tom carinhoso, mas incisivo:

- Mas de jeito nenhum! Sinto-me tão bem na sua companhia que parece nos conhecermos há um tempão e falar da minha separação, não tem nada a ver com o presente momento... Se vc estiver de acordo falaremos de nós dois, como pessoas e amigos que estamos a nos descobrir e vou atrever-me a fazer-lhe um convite, esperando que não leve a mal, nem me ache precipitado, mas é meu coração quem está mandando: - Você aceita ser minha convidada e me acompanhar de hoje até terça-feira, para assistir aos desfiles das Escolas de Samba no camarote de Imprensa do Sambódromo?... Diga sim, diga, por favor, senão vou morrer de tristeza.

Ele fez uma cara tão cômica, parecia um moleque pedindo o doce proibido que ela não resistiu começou rindo a‘bandeiras despregadas’.

- Ah, ah, ah! Vc é tão moleque e ao mesmo tempo irresistível! Aceito, sim. Com esse jeitinho, jamais conseguiria resistir a um pedido seu e que pedido! Há quanto tempo sonho em assistir aos desfiles no Sambódromo, vendo aquele espetáculo maravilhoso de camarote. É tudo de bom! Há tempo que não vou à ‘Sapucaí’. E demais agora estou de férias, só começo a dar aulas, daqui a duas semanas. Então‘tamos nessa!’ Foi Deus mesmo que fez este encontro acontecer...

- Oba, oba, oba! ‘Tou feliz mesmo! – ele fez nova cara cômica. – realmente estou-me sentindo como um moleque! Quem diria que esta manhã estava odiando o carnaval? Vc me trouxe uma alma nova e a esperança que o novo amanhã existe. Agora é a minha vez de lhe agradecer por este momento, em que me devolveu, na sexta-feira gorda, a esperança de poder voltar a sonhar... Espero que vc não se arrependa nunca, por este dia e por muitos que possam vir ainda nas nossas vidas.

By@

Anna D’Castro

Anna DCastro
Enviado por Anna DCastro em 27/03/2011
Código do texto: T2872984
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