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DIÁRIO DE UMA GORDINHA - Cap. 7

Cheguei em casa, tomei banho e me empanturrei de macarronada. Puro nervosismo. Depois ainda devorei o pudim de leite condensado que estava na geladeira. Saciada, sentei-me para assistir a novela. Minha barriga explodia debaixo do tecido fininho do pijama. E eu não tinha sequer um chá de boldo para dar aquela aliviada.Aírton... Se eu continuasse comendo feito uma porca por causa dele, iria explodir antes de o final de semana chegar.

Ele não gostava de gordinhas...

Fui para a cama e tive um sonho erótico. Não preciso dizer com quem. Estávamos em uma praia deserta (eu sei que é clichê), nus e na areia. Senti aquele corpo quente sobre o meu, me lambendo de alto a baixo. Gemi e me contorci debaixo do Aírton, abraçando-o cada vez mais forte. Ele retribuiu e romanticamente rolamos pela areia com as ondas molhando nossos pés...

TUM!

Acordei no chão, com o despertador berrando. Da minha cama, meu gato angorá Saddam me olhava atentamente. Não levou muito tempo para que eu descobrisse quem tinha me lambido todinha.

— Saddam, seu cretino - meu gato estava desaparecido desde sábado. — Posso trocar seu nome para Aírton?

Levantei-me capenga e dolorida pela queda. Louca de fome também. Tomei um banho rápido e quando saí enrolada na toalha, o Saddam estava na porta me esperando, carente. Éramos dois. Além de carente, eu já estava nervosa aquela altura da manhã. Fiquei imaginando como faria para encarar o Aírton depois daquela conferida no final da reunião. Certamente ele estava se sentindo “o” gostoso. Com razão. A mulherada da empresa só faltava tirar a calcinha acenando para ele. Bando de trouxas.

Acho que comi um pouco demais no café da manhã. Eu e Saddam dividimos três pãezinhos com geléia de goiaba e mais um pedaço do bolo de cenoura com cobertura de doce de leite que roubei da minha mãe no fim de semana. Quando vesti uma blusinha um pouco mais justa, a surpresa negativa: minha barriga parecia ter aumentado uns dez centímetros por conta da comilança.

— Saddam! E agora?
— Miau - esta foi a resposta do meu gato que estava se lixando para a minha gordura.

Nunca. Nunca mesmo que eu apareceria na empresa com a barriga marcando daquele jeito. Nunca na frente do Aírton. Em estado de histeria, abri o guarda-roupa tentando catar alguma blusinha que disfarçasse aquela pança. Até alguns dias atrás eu mandaria tudo à merda. Mas não agora. Não com o advento do Aírton.

Consegui achar uma bata que não usava há uns três anos. Estava socada no fundo do armário completamente abandonada. Era uma graça. Colorida, parecia um arco-íris brilhante. Me enfiei numa calça cotton preta, calcei as sandálias e mais a bata. Penteei o cabelo e passei o batom rosa. O resultado até que foi bom.

— E aí, Saddam? Estou gostosa?
— Miau.

Sim, eu estava. Peguei a bolsa, recomendei ao gato que não fugisse de novo e saí. No caminho da empresa, dentro do carro, pensei em algumas frases de efeito para surpreender o Aírton. Fiz caras e bocas, treinando minha sedução. Se daria certo, não sei. Só não podia bancar a ridícula.

Pus em prática meu plano de sedução assim que saí do carro na garagem da empresa. Peguei a bolsa e caminhei sexy até o elevador. Deixei a franja cair sobre um dos olhos para dar uma aparência de mulher fatal. Bem, eu não cruzei com ninguém durante o trajeto, mas pelo menos serviu para ensaio. Quando cheguei na minha sala, o Aírton ainda não havia aparecido.

—Oiê!

Mal tinha largado a bolsa na mesa e a Cássia entrou atrás de mim. Na verdade, eu sabia muito bem de quem ela estava no pé.

— Oi, Cássia - tentei sorrir enquanto ela olhava para todos os lados procurando o Aírton. — Tudo bem?
— Tudo ótimo. Ei, que bata linda!

Dei uma voltinha.

— Você acha? Nem lembrava mais que tinha.
— Ui, amiga! Adorei! Vai fazer o maior sucesso!
— Jura?

“Será que o Aírton vai gostar?”.

— Bom dia, meninas!

Aírton chegou, assim de repente. Aliás, o perfume veio na frente. Quase tonteei com aquela fileira de dentes branquinhos. Se respondi alguma coisa, não sei. Mas com certeza Cássia fez por mim.

—Ooooiiii, Aírton!

Ele deixou o casaco do terno cair em uma cadeira. Eu não sabia bem para onde olhar quando me lembrei do flagra pós-reunião.

— Tudo bem, Gisele?

Cruzes. Ele tinha se dirigido a mim. Tentei não ficar vermelha.

— Tudo. E você?

Percebi quando Aírton olhou para minha bata. Pronto. Ele tinha gostado. Vai me elogiar, eu sei que vai.

— Esta bata caiu muito bem em você. Aliás, este tipo de roupa fica ótima em mulheres grávidas.

Silêncio. Engoli em seco. Cássia ficou muda. Olhei para aquele bosta e nos encaramos por um tempo. Sorte dele que não havia nenhuma metralhadora por perto.

— Não estou grávida. Estou gorda. GOR-DA.

Cássia riu. Vergonha alheia total. Ela deve ter percebido que eu estava a meio segundo de me atracar na jugular do Aírton. Minha colega parou ao meu lado e ajeitou a bata, puxando para baixo, tentando desamassar o que estava bem lisinho.

— Uau! A minha amiga Gisele é super engraçada. Sabe, Aírton? Ela é a piadista da empresa.

Se Aírton pretendia dizer alguma coisa, foi impedido pela entrada intempestiva da Virgínia. Quando minha colega viu o Aírton, soltou todas as suas penas.

— Olá, Aírton!
— Oi, tudo bem… Qual é seu nome mesmo?

Bem feito, pensei eu, ainda virada em uma jararaca. O Aírton tinha esquecido o nome dela.

— Virgínia - respondeu ela com uma cara de cu que logo foi disfarçada por um sorriso escancarado como se aquilo não tivesse importância. — Vim convidar vocês para almoçarem hoje! Vamos? Vamos, meninas? Aírton?

Ele pensou um pouco. Era óbvio que estava se fazendo de gostoso. — Pode ser. Onde? Tem algum lugar bom por aqui?

— O Baratex! - quase berraram Virgínia e Cássia juntas.

Tive vontade de me esconder debaixo da mesa. Um cara do nível do Aírton ir parar no Baratex? Meu Deus! Era lógico que ele diria um “não” com todas as letras.

— Gostei. Eu vou sim.

Patrícia da Fonseca
Enviado por Patrícia da Fonseca em 30/09/2015
Reeditado em 30/09/2015
Código do texto: T5399623
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Patrícia da Fonseca
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 49 anos
646 textos (48888 leituras)
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Patrícia da Fonseca