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Av. Afonso Pena

Vou-me embora... vou-me embora hoje, nesse domingo. Embora por conta desses pássaros pretos esvoaçantes, embora pelas senhoras que peregrinam à missa, embora pelo insípido do chá que tomo, quanto mentira, quantas idas falaciosas. Vou-me embora por conta dela, do seu tato que não larga o meu, do teu odor que não me deixa, do teu olhar que não me solta e não permite que eu vá ver os pássaros, as senhoras, sinta o chá e faça deles motivos da minha ida.

A visão dela era brilhosa, a fala excitada, ficaríamos juntos tão logo. E ela me amava, e eu a amava. Teu beijo repreendia os outros tantos, tuas unhas, laços que me amalgamavam em nós irreparáveis, e eu a amava, e ficaríamos juntos. Dei-lhe a notícia, perdeu o ar, as vistas, as pernas, mas a boca me beijou, as mãos me apalparam, a voz comprimiu seu eu te amo eterno num sussurro frouxo. Depois eu precisava ir embora, não no meu embora de agora, desse domingo, mas no embora daquela noite de quarta-feira, instantâneo e temporário; esmurrando o chão com os pés, perdendo-me nas minhas gargalhadas e em último nas ruas ensopadas de poças d'água da chuva, e respirava o ar intenso da umidade, e ria, e raspava o pé no chão, ficarei com ela, ela minha e eu dela, para sempre. E numa esquina, numa rua nomeada de estado, com os pés prontos para darem um murro na avenida Afonso Pena, estanquei, não poderia pisar na avenida, tampouco esmurra-la com meus entusiasmos e risos. Não poderia ficar com ela... por que lhe propusera a eternidade? As poças não me cristalizavam o contrário? O asfalto pisado não guardava a verdade que era outra? E a cidade inteira já gritava há muito e sua voz só foi me aparecer por ali, naquela esquina, onde não havia ninguém àquela hora de quarta-feira para indagar se também escutava aquele urro que me negava a ela. Trinta e quatro anos nos separavam, que pensava eu quando me meti com ela, seu amor, sua carne? Naquela quarta eu era seu amor, numa, daqui a dez anos, tornar-me-ia seu velho, talvez seu inválido, seu moribundo, e ela jovem, trinta e poucos anos, chegando tarde em casa sem satisfações a dar-me, já me dava coisa demais, dava-me um casório, que pudesse ela se divertir com outros, com os rapazes a quem negou para entregar-me sua juventude. Eu ouviria a tudo na cadeira de balanço, choraria quando ela se trancasse no quarto com seu hálito e perfume de cânfora, iria embora da forma como vou nesse domingo.

Noutra quarta reapareci para ela, ela triste, ela perguntadora, por onde estivestes? Não podemos ficar juntos. Que besteira é essa? E como lhe explicaria o que só teria razão daqui a uma década? Calei-me de justificavas, disse que lhe amava simplesmente. Num som profundo tragou o choro, fungou, soprou o ar, as mãos, as lágrimas. Que houve? Que aconteceu? Nada, nada, eu lhe amo simplesmente. Há outra? Nunca haverá outra, e eu lhe provaria com os anos seguintes de solidão. Vá, lhe pedi, seja feliz, conheça um bom rapaz e não se impeça de ter vida boa com ele, és maravilhosa.

E ela foi e eu fiquei. Antes mandou-me duas dúzias de cartas, antes bateu em minha porta seis vezes, antes procurou-me no trabalho, antes correu atrás de mim pela rua, e eu fugi, ela indo e eu ficando.

Num domingo não muito distante desse de hoje eu a reencontrei com vinte e cinco anos, casada com um frangote daqueles que eu quis que ela passasse a vida e envelhecesse ao lado, tinha até um bebê, que estava em casa, meio adoentado. Sozinhos, confessou-me que estava infeliz, que talvez seria essa sua condição pelo resto da vida, perguntei-lhe o que se passava, respondeu-me que me amava simplesmente, que não me tinha, que não me via, que fora largada. Pedi que se calasse, pois também a amava, confessei-lhe em seguida que evitava lavar a boca com receio que o gosto dela escapasse, pois eu a queria muito. Riu em sua infelicidade, silenciamo-nos, seus olhos lacrimejando e seu nariz fungando. Meu gosto será sempre teu, garantiu sem me olhar, aprumando os anéis nos dedos macios, como quem comentasse uma coisa boba que se passara e de que se tinha certa vergonha. Derreei-me sobre sua fragilidade e lhe beijei, ela afagou-me, começou a encher a boca de superlativos enquanto devolvia a mim o gosto dela que seria sempre meu. Amava-me muitíssimo, meu toque era sensibilíssimo, meu beijo amabilíssimo. Quando seus superlativos se esgotassem e seu fôlego se exaurisse ela voltaria a ser doutro, ser mãe de um filho, ser a mulher que se tornara longe de mim.

Ajeitou o cabelo que se desprendia, reafirmou seu amor, beijou-me a mão. Seria sempre eu, disse, sempre, por toda a vida.

Europa Sanzio
Enviado por Europa Sanzio em 07/12/2017
Código do texto: T6192810
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre a autora
Europa Sanzio
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 17 anos
72 textos (873 leituras)
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