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QUEM TEM MEDO DO FIM DO MUNDO?


Se razão e emoção devem andar juntas, ela era razão e sensibilidade. Acostumara-se a exercitar o raciocínio unindo os fatos aos seus conteúdos ocultos e simbólicos. Não queria se deixar levar pelo desânimo, mas não podia parar de pensar que o Fim do Mundo estava próximo, mesmo que fosse uma mera fantasia. Afinal estava no ano de 2012 e a mídia enfatizava as Profecias Maias uma temática que envolvia o desconhecido, as catástrofes e as profecias que antecedem o fim dos finais.
Cabisbaixa, parecia ruminar “os homens que cruzaram o seu caminho eram bem confusos, não valiam mesmo atenção de sua parte, mas desconfiava que fosse atravessar a data fatídica do apocalipse, sozinha, sem realizar o sonho oculto de toda a vida – ter um xodó do seu jeito, com as tais afinidades eletivas. Ah! Deixa pra lá, são poucos os que conseguem essa realização amorosa. Não estou predestinada ao amor genuíno”.
Neste período de incerteza desandou a sonhar com borboletas, casulos e voos mais altos. Estava cismada com isso e quase foi aprender a voar de asa delta no morro da Pedra Bonita: “não queria ver a vida passar esperando que acabasse o mundo”. Queria agir e movimentar-se com as mudanças que viriam. Nunca se tem certeza de nada, só mesmo da morte que leva todo mundo.
Mas as surpresas ou as peças que a vida prega na gente, podem ser mais fascinantes que ver o Rio de Janeiro flanando do alto. Um dia o telefone tocou e uma voz masculina, firme, cordial e alegre diz ter o nome de Zenon e ser primo de umas amigas suas, gaúchas de Porto Alegre. O primeiro contato provou que alguma química poderia surgir entre os dois. Voltou a lembrar-se dos sonhos: casulo, metamorfose. Em resumo, toda a crisálida tem seu dia de borboleta ou, como no conto de Guimarães Rosa, cada um tem a sua vez e a sua hora.
Consultou sobre Zenon, nome de origem espanhola e foi um filósofo pré-socrático nascido na Itália. Aristóteles o considerava o criador da dialética. Buscava os paradoxos das teses sem refutá-las, pois para ele eram ilusórias. O atual, este que acabara de conhecer, era uma simpatia – o cara – arqueólogo e gemologista, profundo conhecedor das pedras preciosas. Sempre viajando para as terras longínquas e figura conhecida nos simpósios internacionais. Um Indiana Jones do século XXI, vulgo Mister Z,o aventureiro , um dos maiores pesquisadores do diamante negro, os chamados diamantes carbonados que não se originaram na terra mas do espaço exterior, formados em explosões de estrelas chamadas supernovas .
Supersticiosa, pegou as informações e concluiu que estava tudo “antenado” com o começo e o fim. Seus sonhos foram premonitórios. Ela estava em estado de graça e a toda hora se beliscava para ter certeza de que era real tudo que estava acontecendo. Como pessoa com um pé no racional e outro no destino traçado começou a jogar com a hipótese que Zenon seria o terceiro vértice do triângulo isóscele o que tem lados congruentes, mas só um ponto culminante. “El Hombre”, agora tinha certeza. As afinidades eram tão intensas que não hesitou em aceitar um convite de viagem para Londres, onde o arqueólogo faria palestra para os aficionados e especialistas em diamantes. Não tinham mais tempo a perder, ficariam juntos em todos os momentos que ainda podiam dispor caso o mundo acabasse.
O casal pensou sobre todas as mensagens apocalípticas e concluíram que o mundo podia acabar qualquer dia desses, como podia acabar com a morte de cada pessoa. Mas e se o fim do mundo tão decantado nada mais fosse que um mito da humanidade um mito que se reproduzia de século em século? Ambos concordaram que não entrariam em pânico e deveriam se afastar dos medos, pois para viver bem temos que ter coragem.
Feliz como não se sentia há muito tempo ela nem se preocupava com os maus augúrios dos profetas que se multiplicavam à medida que a data fatídica do fim se aproximava. As correntes científicas divergiam dos esotéricos afirmando que a terra não tinha esgotado os seus recursos e que não havia ameaças vindas do espaço sideral. As várias religiões  concordavam com os cientistas e apelavam para a justiça cósmica, confiantes em Deus ou Allah para adiarem o Juízo Final.
Tantas opiniões desencontradas deixavam-na confiante para apostar na permanência do mundo. Foi com este estado de ânimo que resolveu fazer uma “fezinha” no Jogo do Bicho. Triangulando borboleta, águia e pavão quem sabe não ganharia uma bolada de dinheiro para gastar em Londres? A sorte estava lançada.
ISABELA BANDERAS
Enviado por ISABELA BANDERAS em 12/01/2019
Código do texto: T6549444
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Sobre a autora
ISABELA BANDERAS
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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