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Chegando bem pertinho de sua casa, ela dirigiu mais devagar tentando observar se havia alguém por ali e, por segurança, deu mais uma volta no quarteirão. Certificando-se não haver mesmo ninguém no entorno da casa, ela acionou o controle do portão e entrou. Evitou acender as luzes, passou pela sala e, subindo os degraus que levavam ao segundo piso, foi direto ao seu closet, onde colocou apenas o essencial numa maleta. Em seguida, abriu o fundo falso da sapateira especial que escondia o cofre da casa e retirou uma boa quantia em dinheiro. Vendo que isto era tudo que precisava, fechou rapidamente a casa e entrou em seu carro. Logo, o belo Mustang preto deslizava pelas ruas de São Paulo rumo ao Aeroporto de Congonhas.
 
Lá, usando o cartão de credito como Fernandes a orientara, ela comprou uma passagem para o Rio e, em pouco menos de duas horas, já estava aterrissando na cidade maravilhosa. Comprou, em seguida, uma passagem para MachuPicchu, no Peru. Depois procurou a cadeira mais afastada da multidão e se sentou para esperar o seu contato. Para não demonstrar algum tipo de nervosismo que a denunciasse, ela pegou um guia de viagem folheando-o como se estivesse lendo um romance policial eletrizante de John D McDonald. Enquanto passava o tempo e fingia estar absorta em sua leitura, alguém parou a sua frente e disse:
 
- Boa tarde!
 
Aquela voz soou tão positiva e viril que fez Rosângela estremecer. Ela sentiu um tremendo arrepio percorrer lhe toda a coluna sem saber de quem se tratava ainda, se um policial ou a pessoa que ela esperava. Por pura precaução, ela ergueu lentamente a cabeça até poder ver melhor o rosto do seu interlocutor. Foi então que ficou ainda mais surpresa, pois se tratava de um homem de trinta e poucos anos, alto, elegante, loiro com os olhos muito azuis, quase da cor do mar.
 
- Boa tarde – respondeu ela meio desconcertada, mas já esboçando seu belo sorriso.
 
- Você é Rosângela Gaspar?
 
- Sim, sou eu!
 
- Siga-me discretamente – disse ele – eu sou Rafael, amigo do Dr. Fernandes Godoy e tenho um jatinho esperando para levá-la até São José.
 
Ao passar perto das cabines telefônicas, ele disse:
 
- Vá comprar um livro ou revista, enquanto faço uma ligação aqui.
 
- Tudo bem.
 
Rafael pegou um cartão telefônico no bolso e o introduziu no aparelho, digitou os números do escritório de Fernandes e aguardou.
 
- Godoy & Associados, Mayara boa tarde.
 
- Boa tarde, Mayara, transfira para o Dr. Fernandes, por favor.
          
- A quem devo anunciar?
 
- Rafael Monteiro.
 
- Um momento, por favor – disse ela.
 
- Sim, Mayara?
 
- Doutor, o Sr. Rafael Monteiro quer falar com o senhor.
 
- Coloque-o na linha.
 
A secretária avisou Rafael que ele ia ser atendido num minuto.
 
- Ok!
 
- Olá Rafael, já recebeu sua encomenda?
 
- Sim, Fernandes, já está aqui em minhas mãos e vai ser despachada ao seu destinatário em menos de quinze minutos.
 
- Perfeito, Rafael; se precisar de mim, ligue em qualquer horário.
 
- Até mais ver.
 
Enquanto Rafael devolvia o telefone ao gancho, Rosângela também já vinha voltando da livraria e ele a conduziu até o jatinho estacionado num hangar comercial. Ela se acomodou numa poltrona próxima à cabina e percebeu que o piloto era um senhor de meia idade de aparência bastante amistosa.
 
- A senhora já voou em um desses? – perguntou o piloto.
 
- Não, esta será a primeira vez – ela respondeu.
 
- A propósito, meu nome é Antônio e eu irei levá-la até São José. A senhora não precisa se preocupar com nada, pois sou um piloto muito experiente e comando este avião já faz bastante tempo.
 
- Tudo bem para mim.
 
Ele sorriu de modo reconfortante enquanto esperava a ordem para levantar voo.
 
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Por volta das 18h, Fernandes estava cansado, mas sabia que a sua jornada só terminaria quando Rosângela estivesse em segurança no sítio. Sem tempo para descansar, ele pegou o telefone e ligou para Marilyn.
 
- Ah! meu bem, - disse ela – que bom que você ligou... pensei que tinha se esquecido de mim.
 
- Não, jamais me esqueço de você, minha princesa, mas é que eu ainda não preguei o olho desde a hora em que sai do nosso flat.
 
- Aconteceu alguma coisa, amor?
 
- Sim...não... nada grave, porém o meu filho nasceu esta madrugada e também está para ser decretada a prisão preventiva de uma cliente minha; a verdade é que hoje minha vida está de pernas para o ar.
 
- Com isso você quer dizer que não vamos nos ver hoje?
 
- Não necessariamente, eu tenho muitas coisas para resolver ainda, mas podemos nos ver, sim. Que tal daqui a meia hora no flat?
 
- Ótimo, eu te espero lá.
 
Fernandes terminou a ligação e discou o ramal da recepção.
 
- Sim, doutor? – disse Mayara.
 
- Mayara, terei que resolver algumas coisas aqui no centro, então dispense o Jorge, por favor, e diga a ele que tomarei um táxi, se precisar.
 
- Sim, doutor.
 
- Mayara, a propósito, você fez a locação do carro que solicitei?
 
- Sim, mas reservei uma perua Pajero preta, já que não tinha a pick-up que me pediu.
 
- Tudo bem, avise à agência que pegarei o carro por volta das 20h.
 
- Pois não.
 
Tendo concluído a ligação, Fernandes pegou sua pasta inseparável, vestiu o blazer e foi se encontrar com Marilyn.
 
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Olhando para cima já se podia ver a brilhante lua crescente apesar da excelente iluminação na Avenida Paulista e, enquanto esperava o táxi que o levaria ao flat e à Marilyn, Fernandes se deteve por alguns segundos a fim de contemplar a beleza do céu de outono. Naquela noite, tudo parecia diferenciado em sua vida rotineira: seu primeiro filho havia nascido e, pela primeira vez na vida, ele baixara a guarda profissional permitindo-se proteger um cliente que ele acreditava ser inocente. Quando o táxi chegou, ele entrou meio que automaticamente, pois estava embevecido demais com a beleza da noite.
 
- Para onde, doutor? – perguntou o taxista.
 
- Alameda Jaú, 256, por favor. – disse ele tentando observar uma grande estrela ainda dentro do seu raio de visão.
 
Chegando ao flat, hesitou por um momento antes de entrar.  O que estou fazendo? pensou –, meu tempo anda muito curto, mas eu deveria estar indo ver o meu filhinho! Quando se decidiu a entrar, Marilyn abriu a porta como por encanto.
 
- Além de linda, você agora é paranormal também? – disse ele, beijando-a na boca.
 
- Não, ainda não. O porteiro interfonou anunciando que você já estava subindo. Você quer um suco como o meu ou prefere um cowboy?
 
- Suco também, minha querida, pois ainda esta noite dirigirei até Nazaré Paulista.
 
- E seu motorista?
 
- Eu o dispensei já que, em assuntos assim particulares, quanto menos gente souber do que se trata, melhor.
 
- Ah! Tem a ver com o caso Gaspar?
 
- Exatamente.
 
- Entendi... será por isso que você parece estar tão tenso?
 
- Também.
 
- Ok, vem cá – disse Marilyn, indicando a cama – deite-se de bruços que eu vou fazer uma massagem relaxante.
 
Ele tirou a roupa, ficando apenas de meia e cuecas e se estirou sobre a cama. Ela usava apenas um hobby de seda sobre seu lingerie e, montada sobre ele, começou a massageá-lo. Ao sentir sua pele e músculos serem tocados pelas suaves mãos dela, uma corrente elétrica percorreu lhe todo o corpo levando embora o estresse e o cansaço. Virou-se devagar, puxou-a para junto de seu corpo e se amaram como nunca haviam feito antes, num amor sem pressa e com todo carinho que o momento pedia.
 
- Nossa... o que foi isso? – disse Marilyn, olhando nos olhos de Fernandes – dessa vez foi diferente.
 
- Foi bom ou ruim?
 
Ela o beijou, sorrindo.
 
- Foi a melhor de todas, seu bobo!
 
Enquanto curtiam aquele momento, o telefone tocou.
 
- Quem pode ser?  - Disse Marilyn – eu não dei este número para ninguém, a não ser pra você!
 
- Perdão, querida, é para mim. Alo! – disse Fernandes, levando o aparelho ao ouvido.
 
- Fernandes, nosso pacote já está em São José e, em trinta minutos, estará seguindo para o ponto de encontro.
 
- Ok! Já estou indo para lá. O local fica na Rodovia Dom Pedro Km 39, mas se vocês chegarem e eu ainda não estiver lá, me aguardem que já estarei chegando numa perua Pajero preta.
 
- Ok, até mais.
 
Fernandes devolveu o telefone à base e, pela primeira vez, olhando bem para Marilyn, notou que ela estava decepcionada com ele.
 
- Me desculpe por ter trazido meu trabalho para cá, mas eu não tinha outra opção ou então ficaria no escritório esperando por essa ligação. Será que você pode me desculpar só dessa vez? – ele disse isso afastando com as costas dos dedos uma pequena mecha de cabelo que estava sobre os olhos de Marilyn.
 
Ela franziu o cenho e olhou firme nos olhos dele sem nada dizer, mas seu olhar dizia que ela se sentia traída por ele. Fernandes, sem saída, recitou alguns versos adaptados da canção Penny Lover de Lionel Richie:
 
A primeira vez que vi você,
oh, você olhou tão linda
e eu tive um sentimento
um dia você seria minha
Querida, você veio...,
e capturou meu coração
agora meu amor está em algum lugar,
perdido em seu beijo
Quando eu estou sozinho,
é você que eu sinto.
a menina! um amor igual ao seu,
é difícil resistir.
 
- Querida, desculpe-me, sim?
 
- Tudo bem, amor, Lionel faz mesmo milagres... eu estou chateada porque este é o nosso ninho secreto... eu não quero que nada de fora, além de nós dois, passe daquela porta para dentro.
 
- Ok, baby love! – disse ele, beijando-lhe a testa e a abraçando junto ao seu corpo – hoje estou também conhecendo o lado mais romântico de Marilyn - que nesses seis meses ainda não tinha visto.
 
- Ah! Pare, seu bobo, eu não sou romântica, não, só não quero que nada interfira entre nós.
 
- Está bem, agora deixe que eu me vista, pois já estou bem atrasado para meu encontro.
 
Fernandes saiu catando as roupas e foi se vestindo rapidamente. Já saindo porta afora, Marilyn ainda o beijou vorazmente
 
- Dirija com cuidado, viu? disse.
 
Quando ele ia fechando a porta, ela voltou para dizer-lhe:
 
- Meu bem, será que eu poderia ir até o hospital ver seu filho?
 
Fernandes ficou surpreso com aquele pedido.
 
- Bem, não há nada que a impeça... pode ir, se quiser.
 
- Então, quando eu for para casa darei uma passadinha por lá.
 
Felipe Felix
Enviado por Felipe Felix em 22/03/2019
Reeditado em 29/03/2019
Código do texto: T6604928
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