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NO DIVÃ

- Sente-se.

- Não é pra deitar?

- Faça o que achar melhor. Contanto que esteja o mais à vontade possível.

- Ok. Posso ficar assim?

- Geralmente as pessoas não deitam dessa forma.

- Estou mais confortável assim.

- Tudo bem. E então: como você tem se sentido?

- Mal. Mal e mau. Pessimamente horrível. Tragicamente catastrófico. Vazio. Obnubilado.

- Gostei do "obnubilado".

- Nem sei o que significa. Mas estou na pior fase da minha vida.

- Isso tem a ver com…

- É claro. Faz tempo. Desde o dia em que…

(Lágrimas)

- Tudo bem. Temos lenços de papel aqui. Tome.

- Obrigado.

- Continue. Você dizia…

- Ah sim. Desde o dia em que ela me deixou. Não consigo mais viver.

- Como tudo aconteceu?

- Eu não sei explicar. Estávamos tão bem. De repente "a água atravessou o guarda-chuva" como ela costumava dizer. De repente parou de falar comigo.

- Quanto tempo?

- Acho que uns dias.

- E você foi atrás dela?

- Fui, mas eu já estava sentindo que a nossa relação não era mais a mesma. Pensei que passaria rápido.

- Quem foi mais orgulhoso?

- Ela.

- Por que acha isso?

- Ela sempre foi de lua. Horas estava "como uma fonte inesgotável de devoção". Aí do nada me lembrava os "caixões tão repletos de post mortem".

- Hummm... Isso são…

- Sim. Palavras dela. Boas lembranças. Estou querendo chorar de novo… desculpe

(Soluços)

- Essa é a intenção. Fazer você jogar tudo pra fora. Por favor, prossiga.

- Mas está sendo anotado?

- Sim. É meu trabalho. Por favor, dê continuidade.

- Teve uma noite em que tivemos uma discussão feia. Nenhum de nós queria ceder. Ela, impassível tal qual muro de bronze. Eu, qual Dom Quixote atrás dos gigantes que não existem.

- Certo. Mas você não acha que teve orgulho da sua parte?

- Olha… pra falar a verdade…

- Pense.

- Uffff. Ok. Teve sim. Um pouco.

- Um pouco?

- Ah. Qual foi? Eu tenho que me denegrir agora? Não sou a pior pessoa do mundo.

- Acha que se fosse mais insistente ela iria embora?

- Não (lágrimas). Com certeza não.

- E como tem lidado com isso?

- Lidar? Está aí uma palavra que ainda não entrou no meu vocabulário.

- Então me diga o que…

- Perdão por interromper, mas a vida não é mais a mesma. Aliás, nem "vida" é mais. É apenas existência. Sabe quando se arranca um pedaço de si?

- Tem dormido?

- No lugar dela veio a Insônia. Infame amante presente.

- Num dos nossos últimos encontros você já dizia que dormia pouco.

- Sim, mas antes dormir mal com ela do que não dormir sem ela. A gente dividia o sofrimento.

- Tem tomado remédio?

- Nem vergonha ouso tomar.

- Tem flertado com…

- Só com o suicídio.

- Por favor. Não ouse…

- Se estou aqui é porque até agora não ousei e não pretendo ousar. A mente só maquina, mas meu sistema operacional pouco executa.

- Prossiga. (Respira fundo)

- A última vez ela me disse que se continuasse desse jeito, não iríamos nos suportar mais.

- Que "jeito"?

- Ela dizia que eu era... meio parado. Sem atitude. E quando tinha era de um modo que ela não gostava tanto.

- E você o que dizia depois disso?

- Ué? Aí você tá de palhaçada. Se eu não pensar no meu prazer, quem vai pensar? Ela que não vai.

- A que se refere?

- Não sei. Era um jugo desigual. Ela também não colaborava. Era muito indiferente. Via minhas necessidades, mas ou não a afetava, o que é o mais correto, ou parava na metade.

- (risos)

- Você ta rindo?

- Desculpe. (Tosse). Algo me engasgou. Por favor.

- Então nosso relacionamento consistia em de vez em quando sabe se lá quando olha lá se é quando… combinarmos algo.

- Pode repetir?

- Como?

- É que não consegui anotar isso de modo correto.

- Claro. De quando em quando a gente concordava. Mas…

- Mas?

- O senhor sabe.

- Do que?

- Tinha horas que eu simplesmente não conseguia esperar o tempo dela.

- Isso é orgulho ou egoísmo de sua parte?

- Os dois. Só que éramos uma dupla. Parceiros pra sempre.

- Alguém já disse alguma coisa sobre o relacionamento de vocês?

- Aff. Diziam tanta coisa que isso foi um dos fatores pra que eu deixasse ela ir embora. Muito influenciável. Esponja pura.

- O que diziam?

- Primeiro: tínhamos poucos que frequentavam nossa casa. Uns diziam bem, outros diziam "pra quê isso?", "isso aqui tá errado!". Fora que elogios e palpites são suspeitos desde o dia em que Caim chamou Abel pro campo.

- Bem… você acha que é pra tanto?

- Tenho ódio. E a amargura me norteia a dar passos que não deslizam; destroçam.

- E seus filhos?

(Lágrimas)

- O que tem eles?

- Como estão?

- Deixei-os com ela. Não sei cuidar bem deles sem ela.

- Tem visto eles, pelo menos?

- E nem quero.

- Creio que seja um exagero.

- Entenda uma coisa: TUDO NELES ME LEMBRA ELA. Eu não tive eles sozinho. E ela também não. Porém eles tem mais a cara dela do que a minha.

- Já tentaram se reatar?

- Não! Isso é impossível! Ela me enoja. Palavras machucam. Silêncio machuca. Por causa dela estou tão sensível quanto a folha de um papel de bíblia molhada.

- E se ela pedir pra voltar?

- Eu... eu…

- Ora ora. Pelos filhos!

(Soluço)

- Eu não consigo. Estou muito magoado.

- Com o que?

- Eu não sei! Já disse que não sei. Simplesmente acabou!

- Você ainda a ama?

- Ela mudou minha vida! Não sou mais o mesmo depois dela. Eu a amo. Vou para o túmulo com isso. Esse amor e ódio. Como dizia C. S. Lewis: "Amor e ódio; fogo e líquido = lava incandescente".

- Bem… você não tem feito nada pra superar?

- Vim até aqui. Isso não basta?

- Ok. Nosso tempo já foi. Tenho horário. Daqui a quinze minutos vem alguém que preciso tratar da mesma maneira que você.

- Está bem. Obrigado por…

- Não quer saber quem é?

- Não me interessa. Pode ser Jane Austen vestida de Florbela Espanca. A minha dor é só minha e a dos outros não me dói na empatia mais do que a minha na experiência.

- É ela.

- Peraí!? Ela?

- Sim. Ela. Ela é a próxima.

- Isso não é justo. Meu coração agora vai ter um ataque. Vou falar umas verdades na cara dela quando a encontrar.

- Preciso que se retire.

- Ah não.  Só pode ser brincadeira! Por que você falou que ela seria a próxima a se consultar?

- Por favor. Estou tentando ser o mais profissional possível. Pare de se debater no divã.

- Você pode pelo menos me dizer algumas coisas que ela lhe confidenciar… se pelo menos ela falar de mim... se ainda gosta de mim? Por favor!

- Isso é anti-profissional. Por favor.

Ele vai embora.

CONTINUA…
Leandro Severo II
Enviado por Leandro Severo II em 18/09/2019
Reeditado em 21/09/2019
Código do texto: T6748143
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Sobre o autor
Leandro Severo II
São Paulo - São Paulo - Brasil, 26 anos
75 textos (3295 leituras)
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Leandro Severo II